Filosofia em vídeos

Está disponível no YouTube um canal chamado No Jardim da Filosofia. Ali é possível assistir a entrevistas e exposições sobre temas filosóficos de caráter introdutório e acessíveis ao público leigo. Entre os temas abordados estão o conhecimento, o problema da indução, inteligência artificial, entre outros. Vale a pena conferir!

Uma análise lógica dos preconceitos

Um grande número dos preconceitos mais comuns na sociedade tem a forma seguinte:

Gs são Ps.

Para ver essa fórmula funcionando, basta que substituamos ‘G’ por um termo que se refira a certo grupo (o alvo do preconceito) e ‘P’ por algum termo com significado pejorativo (que servirá para desqualificar os indivíduos do grupo em questão). Assim, aqui estão alguns exemplos bem conhecidos:

Homens são mulherengos.
Homossexuais são nojentos.
Loiras são burras.
Negros são preguiçosos.
Alemães são teimosos.

Como podemos ver, essas afirmações se enquadram no esquema anteriormente apresentado, tendo no lugar de ‘G’ termos que nomeiam certo grupo (‘homem’, ‘homossexual’, ‘loira’, ‘negro’, ‘alemão’), e no lugar de ‘P’ termos que expressam um significado pejorativo (‘mulherengo’, ‘nojento’, ‘burra’, ‘preguiçoso’, ‘teimoso’). Infelizmente, não é raro encontrar alguém proclamando afirmações desse tipo com a intenção de ofender ou discriminar alguém. No que segue, ofereço uma análise lógica desses enunciados, buscando mostrar por que em geral não é muito inteligente fazer afirmações desse tipo. É uma análise lógica e, por isso, deixa de lado outros problemas tão ou mais sérios com esse tipo de fenômeno (éticos, sociais, psicológicos etc.).

A primeira coisa a ser notada é que quando alguém que faz afirmações da forma “G’s são P’s” pretende estar falando sobre o grupo referido por ‘G’ como um todo. Se alguém diz, por exemplo, “Os homens são mulherengos”, então está implicitamente pretendendo falar de todos os homens, pois o preconceito perderia todo o seu poder se falasse apenas de ‘alguns’ (ou de ‘muitos’) em vez de falar de ‘todos’. Assim, a fórmula com que começamos representa apenas a forma exterior das afirmações preconceituosas. Mas, por traz das aparências, uma fórmula que apresentaria mais explicitamente o conteúdo real dos enunciados seria como segue:

Todos os Gs são Ps.

Assim, alguém que diz que “Homens são mulherengos”, por exemplo, está realmente pretendendo dizer que “Todos os homens são mulherengos”. Podemos chamar esse tipo de afirmação de afirmações universais, e para ver o que em geral torna difícil sustentá-las temos de analisar o que elas exigem para serem verdadeiras.

Uma afirmação universal como “Todos os homens são mulherengos”, por exemplo, é verdadeira se, e somente se, todos os homens de fato são mulherengos. Pela mesma razão, essa afirmação é falsa se, e somente se, houver ao menos um homem que não é mulherengo. Uau! Veja bem o que acabamos de dizer: para que uma afirmação como “Todos os homens são mulherengos” seja falsa, basta que haja um único caso de homem que não seja mulherengo. O mesmo vale para todas as afirmações com forma “Todos os G’s são P’s”, e mostra que é muito mais fácil mostrar que um preconceito é falso do que mostrar que é verdadeiro. Como vimos, essa é a forma de um grande número de afirmações preconceituosas.

Começamos então a nos dar por conta de por que é em vários casos parece pouco racional fazer afirmações universais preconceituosas. A razão é que é muito mais fácil mostrar que elas são falsas do que sustentar que são verdadeiras. Se eu digo que todos homens são mulherengos, basta que alguém me apresente um único homem que não seja mulherengo para falsificar o que eu disse. Neste caso, podemos dizer que um homem não-mulherengo serve de contraexemplo para a afirmação universal de que todos os homens são mulherengos.

Assim, para mostrar que qualquer preconceito da forma “Todos os G’s são P’s” é falso, basta encontrar um contraexemplo da forma “Há um G que não é P”. Voltando aos outros (maus) exemplos que vimos antes, vejamos quais seriam seus respectivos contraexemplos. Uma pessoa homossexual que não é nojenta serve de contraexemplo para a afirmação de que “Todos os homossexuais são nojentos”. Do mesmo modo, uma mulher loira inteligente é um contraexemplo para a afirmação “Todas as loiras são burras”. Uma pessoa negra não preguiçosa, por sua vez, é um contraexemplo para “Todos os negros são preguiçosos”. E uma pessoa de origem alemã que não é teimosa é um contraexemplo para “Todos os alemães são teimosos”. Quem quer que afirme preconceitos como esses está sujeito a ter sua afirmação refutada assim que um contraexemplo seja apresentado. E como um único contraexemplo basta, eu posso lhe garantir que todos os preconceitos com que começamos (e muitos outros similares) são, de fato, falsos. Eu posso lhe garantir, se você mesmo não puder fazê-lo, que todos os preconceitos que analisamos são falsos. Pois eu conheço ao menos uma pessoa que serve de contraexemplo para cada um deles. E, dado que eles expressam-se em afirmações universais, um único contraexemplo para cada é suficiente para mostrar que são falsos.

Cara ou coroa e o princípio de não contradição

Neste post apresento um recurso didático – ou analogia – que pode ser útil para se ensinar o princípio de não-contradição em aulas iniciais de lógica, seja no ensino médio ou onde for. Assim como uma moeda, numa disputa de cara ou coroa, não pode cair com ambos os lados para cima e ter dois vencedores, também uma proposição (crença ou afirmação) não pode ser verdadeira e falsa simultaneamente. Abaixo apresento uma caracterização breve do princípio de não-contradição, seguida de exemplos, de uma comparação com o caso da moeda e de uma exemplificação da sua utilidade em certas situações.

O princípio de não contradição, em sua formulação mais simples, diz que uma proposição não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo. Uma outra maneira de dizer isso, é dizer que uma proposição e sua negação não podem ser ambas verdadeiras. Vejamos um exemplo:

(1) Está chovendo.
(2) Não está chovendo.

De acordo com o princípio de não contradição, as proposições expressas nas frases (1) e (2) não podem ser ambas verdadeiras ao mesmo tempo: não pode ser verdade ao mesmo tempo que está chovendo e que não está chovendo (uma ou outra, não ambas!).

Uma maneira de tornar isso um tanto mais concreto é comparar com o jogo de cara ou coroa: se jogamos a moeda para cima, não pode ser que os dois lados caiam para cima. Portanto, não podem haver dois vencedores no jogo: um dos lados vencerá, mas nunca ambos! As proposições também são assim: se “jogamos a proposição contra o mundo”, ela não poderá ser verdadeira e falsa – só um lado pode vencer.

Uma situação mais concreta onde esse princípio pode ser útil é quando diferentes pessoas ou mesmo teorias fazem afirmações contraditórias. Por exemplo, se um cientista diz a terra é o centro do universo e outro diz que ela não é o centro do universo, então ambos não podem estar falando a verdade. Isso não quer dizer que saibamos qual deles está certo (podemos em algumas situações não ter evidências ou indícios suficientes para decidir uma questão), mas podemos saber de antemão que duas afirmações ou proposições opostas nunca serão ambas verdadeiras. Um caso talvez um pouco mais dramático pode ser a crença em Deus: algumas pessoas acreditam que existe, outras que não. De acordo com o princípio, não pode ser o caso de que ambos os lados estejam falando a verdade. Nesse caso, porém, parece que não temos indícios ou provas adequadas, tanto para um lado como para outro. Mesmo assim, podemos saber com certeza e de antemão que as duas coisas não podem ser ambas verdadeiras: a moeda foi lançada, mas o juiz ainda não destapou para que possamos ver o resultado!

Obs.: é possível usar a moeda para explicar também o princípio do terceiro excluído. Nas minhas aulas usei uma moeda com um “V” pintado de um lado e um “F” do outro.
A imagem da moeda é do blog temosnoticias.blogspot.com .

Filosofia: um guia para iniciantes (problemas na tradução)

O livro Filosofia: um guia para iniciantes (Teichman, J., Evans, K. 2009, Trad. Lucia Sano. São Paulo: Madras) que mencionei no post anterior tem muitas virtudes que o tornam um material atraente para os iniciantes na filosofia:

  1. Ele não inicia com a tradicional e longa tentativa de explicação sobre o que é a filosofia.
  2. Mesmo não cobrindo todos, ou mesmo com exaustão, as diversas áreas da filosofia, o livro apresenta discussões de forma clara e argumentada, enfatizando os problemas filosóficos e o papel da argumentação na busca de respostas para esses problemas.
  3. Não se trata de um livro de história da filosofia. Esta não é deixada de lado, mas fica no seu devido lugar: ela é um pequeno apêndice no final do livro.

Apesar dessas virtudes, há dois pequenos erros no capítulo “A matéria da lógica”. O trecho que considero problemático é o seguinte:

“Não importa quão forte o indício, a verdade da conclusão de uma inferência dedutiva não é garantida. Uma inferência dedutiva razoável é compatível com a falsidade de sua conclusão” (p. 195)

Não sei se o engano foi das autoras ou da tradutora, mas minha sugestão é que as duas ocorrências da palavra “dedutiva” sejam substituídas por “indutiva”.

Dedução é por definição justamente o tipo de argumento em que a verdade das premissas é incompatível com a falsidade da conclusão. É num argumento indutivo que, mesmo que a verdade das premissas seja assegurada, a falsidade da conclusão é sempre possível. Uma das razões para isso é que a conclusão de um raciocínio indutivo é uma afirmação universal, cujas premissas são particulares (sobre isso conferir A verdade e a falsidade de afirmações universais).

Liberdade positiva e negativa?

Alguns filósofos tentaram fazer uma distinção entre liberdade positiva, a ‘liberdade de fazer…’, e a liberdade negativa, ‘estar livre de…’. […]

No entanto, parece-nos que a diferença entre ‘liberdade de fazer…’ e ‘estar livre de…’ não é de grande importância filosófica, em parte porque ‘liberdade de fazer…’ e ‘estar livre de…’ são frequentemente dois lados de uma mesma moeda. Assim, em um contexto social ou político, ‘estar livre de censura’ significa o mesmo que ‘liberdade de fazer e escrever o que quiser’; ‘estar livre de opressão religiosa’ significa o mesmo que ‘liberdade para venerar o deus como bem entender ou não venerar’.

Em resumo, a principal diferença entre a ‘liberdade de fazer…’ e ‘estar livre de…’ é apenas verbal.

A citação acima está na pp. 127-8 de:
Teichman, J., Evans, K. Filosofia: um guia para iniciantes, Trad. Lucia Sano. São Paulo: Madras, 2009.

Exercício de filosofia

A seguinte apresentação de Alindro Conval foi fornecida por ele mesmo em uma entrevista de emprego em 1998:

– “Olá, eu adoraria ser contratado para a vaga. Entretanto, eu sofri um acidente há 2 anos e fiquei com a seguinte anomalia psíquica: tudo o que eu falo é mentira”.

Quando ocorreu o acidente de Alindro Conval?

Links relacionados:
Crítica – Paradoxos
SEP – Liar Paradox

Desafio de Lógica (a condicional material)

É meio-dia e a mãe de Pedro precisa sair de casa, sendo que não sabe a que horas irá voltar. Antes de sair, porém, ela exige de Pedro que prometa que se chover, então ele recolherá a roupa do varal. Pedro concorda. A mãe de Pedro sai. Entretanto, logo em seguida, amigos de Pedro chegam e o convidam para jogar futebol num campinho não muito próximo.

Como poderá Pedro, ao mesmo tempo, ir jogar futebol com os amigos e não descumprir o trato que fizera com a mãe, independentemente de que chova ou não?

Comente e tente acertar a resposta. Dicas? Aqui.

O conetivo “Se-Então” – Condicional Material

Sobre este post: este escrito será o primeiro de uma série voltada a alunos do ensino médio. Se este é o seu caso, eu ficaria muito grato de ouvir um comentário seu; o mesmo também vale para todos aqueles que não são estudiosos de filosofia. Para estudiosos de filosofia (mas não excluindo esta oportunidade dos demais) comentários críticos e discussões sobre conteúdo e metodologia serão também bem-vindos.

O conetivo SE-ENTÃO (ou “A condicional material)

Aproveitando o espírito da questão 44 do Vestibular deste ano (2010) da UFSM gostaria de começar uma série de postagens no blog apresentando o conetivo “se-então”. Comecemos considerando a seguinte sentença:

(1) Se João vai à igreja, então João é uma boa pessoa.

O que seria necessário para mostrar que essa afirmação é falsa? Primeiramente, mostraríamos que essa afirmação é falsa apresentando uma afirmação que seja verdadeira e que diga justamente o contrário de (1). Em outros termos, para falsificar (1) temos que dizer que sua negação é verdadeira. Mas qual é a negação de (1)? Alguém, talvez intuitivamente, poderia ficar tentado a dizer que a negação de (1) seria algo como:

(2) Se João vai à igreja, então não é uma boa pessoa.

ou, ainda:

(3) Se João não vai à igreja, então João é uma boa pessoa.

Entretanto, embora talvez sugestivas, estas duas opções (2 e 3) não são boas candidatas a negação de (1). Por quê? Bem, para responder isso precisamos considerar um pouco mais atentamente a afirmação original (1). Para entendê-la de modo mais refinado, devemos perceber que ela contém duas afirmações que podem ser separadas:

(p) João vai à igreja; e
(q) João é uma boa pessoa.

Mas (1) não é composta somente de (p) e (q); há ainda duas expressões (“se” e “então”) que ligam essas duas afirmações. Essas duas expressões são tratadas em lógica como um único conetivo de sentenças – um conector de sentenças. O conetivo “se-então” é chamado de “condicional material” (ou ainda, “implicação material”). Além disso, a sentença p é chamada de “antecedente” e q de “consequente”. Assim, também poderíamos escrever (1) como:

(1)’ Se p, então q.

Mas como a condicional “se-então” relaciona as sentenças o antecedente p e o consequente q? O que ela diz sobre essas duas sentenças? O que este conetivo diz a respeito das duas afirmações que compõem (1) é o seguinte:

(1)” Se é verdade que João vai à igreja, então também é verdade que João é uma boa pessoa.

ou:

(1)”’ Se é verdade que p, então também é verdade que q.

Assim, o significado do conetivo “se-então” seria: se o antecedente é verdadeiro, então o consequente também o é.

Mas e quanto à nossa pergunta: qual é a negação de (1); qual é a negação de “se p, então q”? Por definição, na lógica clássica (das proposições) esta afirmação só seria falsa se fosse verdadeiro que João vai à igreja e (ao mesmo tempo) falso que ele é uma boa pessoa. Em outras palavras: (1) só seria falsa se p fosse verdadeira e q fosse falsa. Em qualquer outro caso (1) seria verdadeira. Assim, a negação de (1) seria (expressaremos a negação com o símbolo “~”):

~(1) João vai à igreja e João não é uma boa pessoa.
ou, ainda:
~(1)’ p e ~q. (afirma p ao mesmo tempo que nega q)

Para que tudo isso fique mais claro, vamos imaginar todas situações possíveis com as quais a afirmação (1) poderia se defrontar. (Lembrando que (1) só é falsa se o antecedente for verdadeiro e o consequente falso, uma vez que o que a condicional material nos diz é que, quando o antecedente é verdadeiro, o consequente também tem que ser verdadeiro.) Passemos às situações hipotéticas possíveis:

(1) Se joão vai à igreja, então é uma boa pessoa.

Situação (a):
– João vai à igreja (é Verdade que João vai à igreja);
– João é uma boa pessoa (é Verdade que João vai à igreja);

Assim, a afirmação (1) é VERDADEIRA neste contexto (é verdade que Se João vai à igreja, então João é uma boa pessoa).

Situação (b):
– João vai à igreja.
– João não é uma boa pessoa (é Falso que João é uma boa pessoa).

Neste caso (como vimos acima) a afirmação (1) é FALSA, pois o significado de “se-então” é justamente que se e verdade que João vai à igreja, então também tem que ser verdade que ele é uma boa pessoa.

Situação (c):
– João não vai à igreja (é Falso que João vai à igreja)
– João é uma boa pessoa.

Nesta situação (c), a afirmação (1) é VERDADEIRA. Isso pode soar estranho, mas o que a condicional “se-então” nos diz é o que deve ocorrer se o antecedente for verdadeiro (que neste caso o consequente tem de também ser verdadeiro). Mas a condicional não informa o que deve ocorrer com o consequente se o antecedente for falso (como ocorreu neste caso).

Obs: este caso parece não corresponder ao uso que fazemos de afirmações condicionais na linguagem do cotidiano. Uma maneira de se entender melhor esta linha pode ser a seguinte: só mostramos que uma afirmação condicional é falsa se tivermos um antecedente verdadeiro e consequente falso. Se o antecedente não é verdadeiro não temos como mostrar que a condicional é falsa. Sendo assim, consideramos a condicional verdadeira, “até que se prove o contrário”.

Situação (d):
– João não vai à igreja.
– João não é uma boa pessoa.

Nesta situação, assim como na anterior, (1) é VERDADEIRA, uma vez que o significado da condicional não nos faz nenhuma exigência sobre o consequente quando o antecedente é falso.

RESUMO

1. O conetivo “se-então” nos diz que se o antecedente for verdadeiro, o consequente também tem que ser. (O símbolo para a condicional “se-então” é “->” [seta para a direita]).
2. Assim, uma afirmação do tipo “p -> q” só será Falsa se p é verdadeira e q falsa.
3. Podemos relacionar os possíveis valores de verdade de “p”, “q”, e da condicional “p -> q” numa tabela como a seguinte (“V” para “verdadeiro”; “F” para “falso”):

|  p  |  q  |  p -> q |
| V  |  V  |     V      |
| V  |  F  |     F       |
| F  |  V  |    V       |
|  F |   F |     V       |
(Tabela de Verdade da Condicional Material)

Com esta tabela fica evidente que condicional “se-então” só é Falsa se o antecedente for verdadeiro e o consequente falso (esta é a negação da condicional). Esta tabela esgota todas as possibilidades, assim como os exemplos acima.

Sobre Heráclito, História da Filosofia e Ensino

Resumo: (Primeiramente, o leitor que não está interessado em discussões sobre ensino de filosofia, e quer apenas ampliar seu conhecimento sobre a filosofia de Heráclito, pode ir diretamente à seção III.) Em I apresento brevemente a discussão sobre ensinar filosofia a partir de seus problemas ou a partir de sua história. Em II faço uma crítica a certas “apresentações apressadas” de filósofos como Heráclito em aulas de filosofia de enfoque histórico no ensino médio. Em III, em parte justificando a crítica, trago algumas citações de Heráclito para salientar que ele se ocuupou com diversos problemas e, por isso, caricaturas e simplificações extremas não são adequadas.

I – Ensinar História da Filosofia?

Tenho acompanhado discussões sobre como ensinar filosofia no ensino médio. Há uma discussão sobre se o enfoque deve ser de tipo histórico ou em temas e problemas. Uma posição que parece ser sensata é que não se abra mão do recurso ao texto clássico. Mas quanto a ele ser o fim da atividade de ensino, isso requer mais discussão.

A defesa de que o enfoque seja nos problemas filosóficos que apareceram no decorrer da sua história da filosofia pode recorrer ao fato de que foram esses problemas que motivaram e motivam os filósofos a escrever. E, também, que o caráter crítico e argumentativo da filosofia é melhor respeitado se o enfoque ao ensiná-la é em seus problemas e entendendo que os escritos dos filósofos foram tentativas de resolvê-los.

II – Crítica a apresentações “apressadas” de um filósofo

Agora o Heráclito. Escolhi ele como um exemplo, devido a sua certa “popularidade” nos manuais e aulas de filosofia de enfoque histórico. Quero defender que é muito pobre, e também problemática, a apresentação deste filósofo, assim como deve também ser a de vários outros dessa abordagem. Exemplos de textos voltados a alunos do Ensino Médio sobre Heráclito podem ser vistos aqui e (de forma um pouco mais elaborada) aqui.

Um problema neste tipo de texto é que não destaca nada sobre os escritos do próprio Heráclito. Não é informado ao leitor que de Heráclito só temos fragmentos, nem o caráter problemático das traduções feitas a partir das versões originais e da complicada e necessária interpretação que é dada a esses trechos. O outro problema é que parecem focar-se em apenas em um ou outro aspecto da sua filosofia, levando a caricaturas grosseiras do autor como “O filósofo do movimento”, “do fogo” ou “do Lógos”. Fora isso, num âmbito mais geral, sem o enfoque nos problemas o filósofo pode parecer um idiota. Certas teorias propostas no decorrer das historia não fazem sentido se não sabemos mais da sua razão de surgir e dos recursos de saber disponíveis em tal época. Penso que faz mais sentido ao aluno ficar a par de tudo isso.

III – Assuntos variados nos escritos de Heráclito

Para trazer à tona alguns aspectos mais do trabalho de Heráclito vou citar alguns fragmentos do próprio Heráclito. Tento mostrar, assim, a variedade de assuntos que o filósofo tratou e, quem sabe, provocar uma surpresa aos que foram apresentados a Heráclito por aí sem nenhum contato com o que ele de fato nos deixou.

Heráclito escreveu sobre a morte:

“27 – O que aguarda os homens após a morte, não é nem o que esperam nem o que imaginam.”

Sobre a felicidade:

“4 – Se a felicidade consistisse nos prazeres do corpo, deveríamos proclamar felizes os bois, quando encontram ervilhas para comer.”

Há, também, um fragmento muito esquisito:

“96 – Os cadáveres deveriam ser lançados fora como estrume.”

Falou sobre a lei:

“33 – Lei é também obedecer à vontade de um só.”

Sobre a alma:

“45 – Mesmo percorrendo todos os caminhos, jamais encontrarás os limites da alma, tão profundo é o seu Logos.”

“67a – Assim como a aranha, instalada no centro de sua teia, sente quando uma mosca rompe algum fio (da teia) e por isso acorre rapidamente, quase aflita pelo rompimento do fio, assim a alma do homem, ferida alguma parte do corpo, apressadamente acode, quase indignada pela lesão do corpo, ao qual está ligada firme e harmoniosamente.”

Há, como se pode ver, vários fragmentos bem se enquadrariam no que chamamos de filosofia prática. Há mais fragmentos sobre esses assuntos. Nos seguintes, por exemplo, Heráclito parece ter uma posição um tanto “subjetivista” sobre os valores e gostos:

“102 – Para Deus tudo é belo e bom e justo; os homens, contudo, julgam umas coisas injustas e outras justas.”

“9 – Os asnos prefeririam a palha ao ouro.”

“29 – Uma coisa preferem os melhores a tudo: a glória eterna às coisas perecíveis; mas a massa empanturra-se como o gado.”

“37 – Porcos banham-se na lama, pássaros no pó e na cinza.”

“49 – Um vale aos meus olhos dez mil, se é o melhor.”

“58 – (Bem e mal são a mesma coisa). Os médicos cortam, queimam, (torturam de todos os modos os doentes, exigem) um salário, ainda que nada mereçam, fazendo(lhes) um bem semelhante (à doença).”

“111 – A doença torna a saúde agradável; o mal, o bem; a fome, a saciedade; a fadiga, o repouso.”

E, também, temos os trechos de Heráclito sobre o rio e a mudança (que parecem em muitas apresentações de Heráclito, ser a única coisa que ele disse):

“12 – Para os que entram nos mesmos rios, correm outras e novas águas. Mas também almas são exaltadas do úmido.”

“49a – Descemos e não descemos nos mesmos rios; somos e não somos.”

“91 – Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Dispersa-se e reúne-se; avança e se retira.”

Gostaria de finalizar, ainda, com mais dois fragmentos que tratam do mundo e sua objetividade:

“30 – Este mundo, igual para todos, nenhum dos deuses e nenhum dos homens o fez;sempre foi, é e será um fogo eternamente vivo, acendendo-se e apagando-se conforme a medida.”

“89 – Para aqueles que estão em estado de vigília, há um mundo único e comum.”

Como se pode ver, os temas são vários. E, também podem ser várias as interpretações dadas a estes fragmentos. Como se respeita estas complexidades em uma aula?

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Todas as citações acima são do livro Os filósofos pré-socráticos organizado por Gerd A. Borheim (Editora Cultrix:São Paulo, 1993. Capítulo dedicado a Heráclito).

O que é filosofia?

O que é filosofia? O texto de Jaimes Cornman e Keith Lehrer com link logo abaixo ajuda a dar uma visão geral acerca da filosofia e da atividade filosófica. Texto esclarecedor tanto para quem está tendo um primeiro contato com a área como para quem já tem experiência.

Informações:

Título: O que é filosofia?
Autores: James Cornman e Keith Lehrer.
Do Livro:
Philosophical Problems and Arguments – An introduction, Second Edition, Macmillan Publishing:New York, 1974. Páginas: 7. Tradução: Marcelo Fischborn.

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