Blog sobre filosofia e sociedade

Aos leitores deste blog, gostaria de divulgar um projeto novo: o FiloSocial. O FiloSocial é um blog de minha autoria em que buscarei discutir temas na intersecção entre filosofia e sociedade de uma maneira acessível ao público em geral. Os interessados poderão acessar o FiloSocial e também seguir sua página no Facebook para acompanhar as novidades.

Dito isso, reforço que o Filosofia: estudo e ensino continuará sendo atualizado, tentando manter seu foco em questões sobre o estudo da filosofia no ensino médio e sobre a pesquisa em filosofia.

O que é responsabilidade moral?

Ao longo da história da filosofia (incluindo a filosofia produzida atualmente), um tópico recorrente é o da responsabilidade moral. Esse tópico é por vezes investigado juntamente com o tema do livre-arbítrio, com questões sobre a relevância do determinismo para esses assuntos, e também em conexão com os sentimentos e atitudes que manifestamos quando somos gratos ou elogiamos alguém por ter feito algo, ou quando nos ressentimos ou repudiamos o ato de alguém.

Abaixo, traduzo um trecho de um texto escrito por Michael J. Zimmerman que ajuda a explicitar o que exatamente está em questão quando filósofos falam em responsabilidade moral.

É bem sabido que o termo ‘responsável’ tem muitos significados. Precisamos distinguir, primeiramente, entre responsabilidade causal e pessoal.

A responsabilidade causal surge quando um evento ou estado causa outro. Por exemplo, um curto-circuito pode ser responsável por um incêndio, um furacão por uma enchente, e assim por diante. […]

A responsabilidade pessoal, diferentemente, envolve uma pessoa sendo responsável por algo. Essa responsabilidade vem em dois tipos principais: prospectiva e retrospectiva. Ser prospectivamente responsável, ter uma responsabilidade prospectiva, é ter uma obrigação. Sheila, por exemplo, pode ser responsável pela segurança dos nadadores; isto é, pode ser responsabilidade dela garantir que os nadadores estejam e permaneçam seguros. (Também se poderia dizer que Sheila é responsável—uma pessoa responsável—sem dizer que é responsável por qualquer coisa. Tipicamente, isso apenas significaria que ela leva a sério suas várias responsabilidades prospectivas.) […]

[A responsabilidade retrospectiva é] a responsabilidade que se tem por algo que já aconteceu. Dave, por exemplo, pode ser responsável nesse sentido pela morte dos nadadores. A responsabilidade retrospectiva pode ser moral ou não-moral (por exemplo, legal).

Fonte: Zimmerman, M. “Varieties of moral responsibility”, pp. 45-46, em R. Clarke, M. McKenna e A. Smith, The nature of moral responsibility. Oxford University Press, 2015.

Em grande parte das discussões filosóficas sobre responsabilidade moral, o que está em questão é o que acima é chamado de responsabilidade moral retrospectiva. Trata-se da responsabilidade que alguém pode ter por algo que já aconteceu. Mas nem toda responsabilidade retrospectiva é moral. Por exemplo, um criminoso é considerado criminalmente (ou legalmente) responsável por um crime que cometeu. Esse é também um tipo de responsabilidade retrospectiva, mas não se trata de responsabilidade retrospectiva moral.

O que, mais precisamente, a responsabilidade retrospectiva moral envolve? Em linhas bastante gerais, diz-se que um agente é moralmente responsável por algo quando é apropriado responder de certas maneiras ao que ele fez. Por exemplo, se um agente moralmente responsável fez algo bom (por exemplo, ajudou uma pessoa caída a levantar) pode ser apropriado agradecer-lhe ou elogiá-lo por isso. Se um agente moralmente responsável faz algo ruim, por outro lado, pode ser apropriado censurá-lo ou condenar o que fez. Essas reações (gratidão, elogio ou censura) são formas de responsabilizar moralmente o agente. Somos responsáveis, nesse sentido, quando é apropriado que os outros respondam de certas maneiras ao que fizemos. Boa parte da discussão filosófica a esse respeito dedica-se a estabelecer sob quais condições essas respostas são apropriadas, isto é, que condições precisam ser satisfeitas para que um agente seja moralmente responsável.

Perguntas para seguir pensando:

  1. Qual é a diferença entre responsabilidade moral e responsabilidade criminal?
  2. Crianças são moralmente responsáveis? (E criminalmente?)
  3. Pessoas com incapacidade mental severa podem ser moralmente responsáveis? Por quê?

Este texto foi publicado originalmente em fischborn.wordpress.com e pode ser reutilizado livremente para fins não-comerciais. A discussão nos comentário abaixo é bem-vinda.

Pesquisa sobre crenças no livre-arbítrio

Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rui Grande do Sul (UFRGS) está realizando um estudo que busca validar uma escala para medir crenças sobre o livre-arbítrio. O estudo consiste em um questionário anônimo e on-line, composto de duas partes. Se você estiver interessado em contribuir, seguem os links:

Questionário (parte 1)

Questionário (parte 2)

Observação: estou divulgando este estudo por ter interesse no tema e por saber da dificuldade de se alcançar um número suficiente de pessoas dispostas a responder questionários desse tipo. Tenho certeza de que sua colaboração será muito importante!

Filosofia em vídeos (2)

Para os que estão voltando às aulas no Ensino Médio, gostaria de divulgar dois canais criados recentemente no YouTube para tratarem de assuntos filosóficos de uma maneira acessível (veja aqui e aqui para outros vídeos divulgados neste blog).

O primeiro é o SciFilo. Este canal conta atualmente com 6 vídeos introdutórios, que buscam abordar a filosofia de forma rigorosa mas bem humorada. O canal é produzido por Kherian Gracher, que é mestrando em filosofia na Universidade Federal de Santa Catarina.

Um segundo canal, também recentemente criado é o Penso Logo Assisto. Este canal conta com um primeiro vídeo, e também tem por objetivo tornar conteúdos de filosofia acessíveis a estudantes e ao público em geral.

Boa volta às aulas!

Como escolher uma revista para um artigo de filosofia

Qualquer um que se dedique à pesquisa acadêmica em filosofia (como nas demais áreas do saber) eventualmente se defrontará com a tarefa de escolher o destino a ser dado a um trabalho. Nesta postagem, ofereço um conjunto de critérios que podem ajudar nesta tarefa, tendo como foco artigos originais (ou de pesquisa). Inicio oferecendo uma razão pela qual esse tipo de escolha merece um tratamento explícito sério e depois apresento três critérios que podem ajudar nessa escolha.

Há pelo menos duas razões pelas quais podemos nos perguntar sobre como escolher o melhor destino para um artigo de pesquisa. A primeira, e pouco interessante, é que publicações contam em avaliações para concorrer a bolsas, em relatórios de pesquisa e em provas de seleção. A esse respeito, o que mais importa é publicar de modo a aumentar a pontuação de acordo com os critérios da avaliação visada. Esse não é o foco aqui.

Uma razão mais interessante se relaciona com a própria natureza da filosofia, tal como tem sido praticada ao longo dos séculos. Depois de Sócrates, que tornava públicas suas ideias ao discutí-las em público, a filosofia passou a ser primariamente publicada por escrito. Ao propor uma nova teoria, tese ou argumento, um filósofo ou filósofa geralmente está se contrapondo a aspectos da filosofia previamente disponível. O trabalho que publica, assim, é uma contribuição à filosofia produzida até então. Em meio a outros formatos, artigos em revistas especializadas são atualmente um dos principais veículos para a publicação de trabalhos filosóficos. Um bom artigo de pesquisa oferece uma contribuição minimamente original e relevante para a literatura disponível.

Essa dinâmica do trabalho filosófico e sua relação com a publicação por escrito oferecem um quadro onde fica mais significativa a questão sobre como definir a revista mais adequada para um artigo. Penso que a publicação de artigos é parte da atividade profissional do filósofo e merece uma abordagem explícita. Ao mesmo tempo, noto que o que parece mais natural é que adentremos na prática irrefletidamente, muitas vezes seguindo o que fazem os professores ou outros pesquisadores ao nosso entorno, ou respondendo a eventuais convites de revistas quaisquer. A seguir, apresento três critérios que atualmente considero os mais relevantes para se definir as possíveis revistas para onde submeter um artigo de filosofia. Espero que ofereçam um ponto de partida para os que queiram refletir sobre seus próprios critérios na hora de submeter um artigo, e também para discussões adicionais do assunto.

1. Qualidade da avaliação

O elemento de maior peso, na minha opinião, tem a ver com a própria razão de ser das revistas especializadas. Tal como funcionam atualmente, ao submeter um trabalho a uma revista, o que se espera é que ele seja avaliado por pares, isto é, por outras pessoas competentes no assunto em questão, normalmente sem conhecimento de sua autoria. O objetivo é que só artigos considerados apropriados com base em critérios de relevância, originalidade e correção sejam publicados. Em muitos casos, pode-se exigir que um artigo com potencial para publicação seja revisado, eliminando falhas, acrescentando informações relevantes ou mesmo antecipando objeções. Outras vezes, o artigo pode não satisfazer os critérios da revista em questão e ser rejeitado. Nesses casos, um parecer descrevendo os problemas do artigo pode ser fornecido ao autor. Considero isso um dos elementos mais positivos do processo de submissão de artigos para publicação, especialmente para aqueles que, como eu, estão iniciando suas trajetórias acadêmicas. Por essa razão, podemos falar mais apropriadamente da seleção de revistas para onde submeter um artigo, e não simplesmente a revista. Um artigo, assim, pode passar por vários ciclos de avaliações, rejeições e revisões, em diferentes revistas, até que esteja pronto para ser publicado (alguns relatos aqui).

Mas como saber quais são as revistas que oferecem maiores chances de uma avaliação qualificada, com possibilidade de pareceres que permitam o aprimoramento do artigo e o crescimento de seu autor ou autora? Não há regra infalível, mas há algumas balizas que podem ser úteis.

No lado mais positivo do espectro, um guia pode ser procurar submeter a revistas onde artigos relevantes sobre o assunto já foram publicados. Artigos têm seções de referências. Olhar onde foram publicados os trabalhos que estão em discussão no seu artigo pode oferecer uma ótima lista de possíveis destinos para seu artigo. Digamos que seu artigo critique o argumento de A1, que foi apresentado no artigo B1, publicado na revista R1. Nesse caso, a revista R1 pode ser uma boa candidata para onde submeter seu artigo. Alternativamente, se o artigo contém em sua seção de referências artigos das revistas R2, R3, R4 e R5, então há alguma chance de que algumas dessas revistas sejam bons destinos para o artigo. Dada a maneira como editores selecionam pareceristas para avaliar os artigos que recebem, adotar essa sugestão pode levar a que um dos autores citados em seu artigo seja um dos avaliadores. Isso pode aumentar o rigor da avaliação e as chances de se receber um feedback bem qualificado, que poderá ser construtivo mesmo se no final o artigo não for aceito naquela revista.

No lado mais negativo do espectro, as revistas a evitar são aquelas que são conhecidas por não submeter seus trabalhos a um processo rigoroso de avaliação. Exemplos incluem revistas predatórias, que buscam publicar artigos sem submetê-los a qualquer avaliação porque lucram cobrando dos autores de trabalhos aceitos (informe-se aqui e aqui). Também podemos identificar revistas onde a avaliação costuma deixar a desejar se notarmos que já publicou trabalhos de má qualidade. Assim, detectar um artigo com erros grosseiros de conteúdo, ou mesmo com erros de ortografia e gramática evidentes é um sinal de que provavelmente não passou por uma avaliação séria.

Essas sugestões são bastante gerais, e não permitem indicar revistas específicas. Mas é possível ter informações mais específicas sobre o tipo de avaliação que as revistas costumam oferecer. Por exemplo, no âmbito de revistas filosóficas internacionais, o Journal Surveys reúne informações fornecidas por autores que submeteram artigos a diversas revistas de filosofia. As informações disponíveis incluem o percentual de trabalhos que recebem comentários, a qualidade deles, entre outras.

Não temos nenhuma ferramenta do tipo para a maioria das revistas que publicam trabalhos em português. E talvez fosse a hora de criarmos algo do tipo. Para não ficar sem nenhuma indicação positiva, considero a revista Manuscrito como uma boa opção no quesito qualidade de avaliação e pareceres. Esse juízo leva em conta minha experiência pessoal (uma rejeição) e também alguns relatos de colegas.

2. Prestígio e visibilidade

Depois da qualidade da avaliação, considero que em segundo lugar empatam considerações sobre o prestígio e a visibilidade como critérios para seleção de revistas. Aqui entram em consideração elementos extra-epistêmicos, por assim dizer. Não está em questão apenas a correção do que o artigo propõe, mas também elementos como relevância, possível impacto e também o modo como a revista oferece acesso aos artigos publicados. Sobre esses aspectos, sugiro apenas alguns exemplos que tentam capturar o que está em jogo. Enfatizo, no entanto, que não pretendo oferecer definições precisas do que se trata, e também que esses elementos só são relevantes a partir de certo nível de qualidade de avaliação. Em outras palavras, a qualidade de avaliação é o critério-base. Prestígio e visibilidade são um extra que pode entrar em cena quando a qualidade de avaliação está satisfeita.

Por prestígio, entendo que exista uma espécia de ranking imaginário de revistas (ou antes, vários deles) que as ordena por relevância do material publicado. Assim, idealmente, algumas revistas publicariam artigos potencialmente relevantes para várias áreas da filosofia, ou com potencial de alterar o rumo de uma grande discussão. Há várias listas que de alguma maneira sugerem o prestígio de revistas. Por exemplo, o Qualis da Capes classifica revistas em A1, A2, B1, etc. Outros rankings incluem o Google Scholar (Metrics), este ranking recente no blog Leiter Reports, o ranking do SJR, entre outros. E há também quem discuta até que ponto essas classificações são realmente positivas (aqui, por exemplo).

Por visibilidade, incluo tanto questões relacionadas à facilidade de acesso ao conteúdo de uma revista, bem como quão acessada ela é. Por isso, este item está de alguma maneira relacionado ao anterior. Revistas podem disponibilizar seu conteúdo abertamente na internet, ou apenas a assinantes ou mesmo apenas para os compradores de um volume impresso (pouco usual nos dias de hoje). Mas mesmo revistas que se igualam no item anterior podem variar em quanta visibilidade têm. Isso pode estar relacionado ao prestígio, por exemplo, mas também à elementos mais técnicos como sua indexação, e a maneira como seu conteúdo aparece em ferramentas de busca como o PhilPapers e o Google Scholar. No Brasil, temos em geral acesso a várias revistas que oferecem acesso apenas a assinantes por meio do Portal de Periódicos da Capes. Mas algumas revistas não são acessíveis mesmo por este meio. Sendo assim, pode ser uma boa ideia checar quão acessíveis são os artigos que uma revista publica antes de submeter-lhe um trabalho.

As considerações apresentadas—sobre qualidade da avaliação, prestígio e visibilidade—estão longe de oferecer um guia definitivo sobre como proceder na seleção de revistas para onde submeter artigos filosóficos. Tanto quanto posso ver, esse tema raramente é discutido de modo explícito e publicamente por estudantes e professores de filosofia no Brasil. Assim, espero que as considerações acima possam servir como um ponto de partida tanto para reflexões pessoais sobre a seleção de revistas quanto para futuras discussões sobre o assunto.

Avaliando argumentos — Lógica no Ensino Médio

Preparei o pôster que está disponível aqui para uma prova de desempenho didático de um concurso público. Trata-se de um material introdutório sobre a avaliação de argumentos, ou seja, sobre como distinguir entre argumentos bons e argumentos ruins. A tabela contida no pôster introduz três aspectos pelos quais podemos avaliar um argumento: um puramente formal, outro combinando aspectos materiais e formais, e outro não-formal.

Acho essas ideias extremamente poderosas, se bem compreendidas e empregadas, para o desenvolvimento de uma atitude crítica saudável em diversos âmbitos de nossas vidas, incluindo a própria filosofia, outros assuntos acadêmicos, mas também em diálogos e discussões sobre questões de interesse público e/ou político.

Fico à disposição para quaisquer dúvidas que o material possa suscitar!

Conferências e discussão — Impressões do doutorado sanduíche (2)

Seguindo o plano de comentar mensalmente sobre aspectos do meu doutorado sanduíche no exterior (primeira postagem aqui), falarei este mês de um aspecto que me chamou a atenção durante minha participação em conferências e palestras.

Basicamente, o objetivo de apresentar um trabalho, do ponto de vista do apresentador, é receber feedback, submeter seus argumentos e teses ao exame crítico de seus pares. Esse feedback é produzido mediante a discussão das teses e argumentos defendidos pelo apresentador (por meio da apresentação de objeções, contra-argumentos e contraexemplos). Essa perspectiva parece gerar algumas consequências, começando pelas seguintes:

  1. Alocação do tempo. Congruentemente com o que observei na postagem anterior sobre a ênfase na argumentação e discussão na sala de aula, os eventos (palestras ou conferências) são organizados de modo a permitir longas e geralmente proveitosas discussões. No departamento que estou visitando, as palestras, por padrão, duram duas horas, sendo que na primeira o palestrante apresenta sua proposta, e na segunda hora os demais participantes (não meros ouvintes!) propõem perguntas, críticas etc. e seguidas de resposta pelo apresentador. Num outro caso, em uma conferência organizada por estudantes de pós-graduação, cada trabalho apresentado (sem apresentações simultaneas) durava cerca de uma hora, sendo que a apresentação durava cerca de 25 minutos, seguida de um comentário por outro estudante que havia lido o texto completo previamente, seguidos de discussão pelo tempo restante. Um terceiro caso foi uma conferência on-line, a Minds Online Conference (ver uma discussão posterior feita pelos organizadores avaliando a experiência). Nela, os trabalhos selecionados receberam comentários por escrito de pesquisadores especializados no assunto do trabalho, sendo que cada trabalho ficou disponível por uma semana para discussão entre autores, comentadores e público em geral.
  2. Restrição do número de apresentações. Para proporcionar uma discussão e feedback de qualidade, as conferências por aqui parecem bastante competitivas e no geral há um limite de trabalhos que serão selecionados. Em vários casos, é preciso submeter um trabalho completo para a participação no evento, e só um número será selecionado. Em meu caso pessoal, já tive trabalhos rejeitados em mais de uma ocasião. É como se, no processo de seleção dos trabalhos que comporão uma conferência, os organizadores estivessem julgando quais trabalhos merecem a atenção dos demais participantes, quais trabalhos merecem sujeitarem-se ao feedback crítico. Uma consequência positiva desse processo é que os demais participantes podem esperar assistir a apresentações de melhor qualidade, o que reforça a motivação para avaliar criticamente e oferecer feedback. Conferências com maior prestígio, além disso, tendem a atrair mais submissões e, consequentemente, é mais difícil ter um trabalho aceito e também mais qualidade é esperada.
  3. Múltiplas apresentações de um mesmo trabalho. Um terceiro elemento que tenho notado é que, dado o propósito de apresentar um trabalho (receber feedback com vistas a melhorá-lo) é comum apresentar versões progressivas de um mesmo trabalho em andamento em diversas ocasiões. Isso é saliente inclusive nos agradecimentos presentes em artigos publicados, onde é comum o autor argadecer às plateias desta e daquela outra conferência.

Por fim, gostaria de dizer que esses vários aspectos parecem poder funcionar de maneira muito integrada em alguns casos. Por exemplo, é possível que o objetivo de uma conferência seja submeter a escrutínio os trabalhos que no futuro comporão um livro sobre um tema específico. Divulgo um caso aqui, o Workshop NOWAR 2015, sobre responsabilidade moral, em parte por uma razão que oferecerei na sequência. Como enunciado no próprio website do workshop, dali serão selecionados artigos que comporão um volume da série Oxford Studies in Moral Responsibility da Oxford University Press. Uma razão para divulgar esse tipo de evento é que se trata de um exemplo claro de como estar geograficamente distante de onde se concentram os pesquisadores de determinado tema pode impactar em nossa pesquisa. Um doutorando participando desta conferência, por exemplo, pode ter acesso ao conteúdo que provavelmente só alguns anos mais tarde estará disponível para o público em geral (tempo da editoração, publicação e para que o material seja adquirido). O participante poderá ter alguns anos de vantagem nesse aspecto. Felizmente, neste caso, há uma possível solução, pois vários dos trabalhos estão disponíveis para visualização prévia.

Espero que esta postagem seja útil e interessante, e fico à disposição para quaisquer perguntas adicionais.

Edição: Esqueci de mencionar na postagem original uma regra curiosa sobre as discussões que seguem as palestras no departamento que estou visitando. Aqui, os estudantes têm preferência na hora de fazer suas perguntas. Só depois que todos os estudantes que queiram fazer perguntas ao palestrante tiverem feito suas perguntas é que a vez é passada aos professores. O papel pedagógico dessa regra é, na minha opinião, digno de nota. E ela também parece razoável. Em primeiro lugar, os estudantes poderiam estar mais receosos de fazer as suas perguntas (a regra diz que não é preciso, e lembra que são estimulados a participar). Em segundo lugar, as perguntas e discussão dos professores costuma ser mais longa, extendendo-se enquanto há tempo disponível.

Argumentação e posicionamento — Impressões do doutorado sanduíche (1)

Seguindo o plano de postar mensalmente reflexões sobre o período de doutorado sanduíche, eis um comentário sobre o que me pareceu mais destacado no primeiro mês.

1. Argumentos tomam a cena

Estou assistindo a duas disciplinas, uma na graduação e outra na pós-graduação. Com base nesta pequena amostra, um primeiro aspecto que me chamou a atenção foi a centralidade dos argumentos. Os argumentos estão no centro da cena, sendo que muitos têm um nome próprio. De modo um tanto caricatural, a aula consiste basicamente na apresentação de um argumento, seguida da avaliação/discussão do mesmo. Ao final da aula, ou você achou um problema no argumento ou vai embora com o dever racional de aceitar sua conclusão.

2. Posicionamento/discussão

Juntamente com o aspecto anterior, a passividade não é nenhum pouco incentivada. Ao longo da aula, costuma-se questionar os alunos e chamá-los a posicionarem-se sobre os argumentos estudados. ‘Voçê concorda que p? Não? Por quê?’. Ao longo dessas discussões, abre-se espaço para introduzir outros argumentos disponíveis na literatura, que favorecem ou se opõem ao argumento principal sob consideração ou aos argumentos sugeridos pelos alunos.

Não afirmo que essas duas características não estejam presentes em muitas aulas de filosofia no Brasil. Elas são, sim, parte do que fazemos. Mas o que me chamou a atenção foi o grau de seriedade com que são tomadas nos cursos que estou assistindo. O professor/a não ficará meia hora apenas ele/a falando. E, quando se trata de avaliar um argumento ou tese, não adianta dizer que o filósofo A ou B diz o contrário ou concorda. O que importa primariamente é se as premissas são verdadeiras e se o argumento é válido. O resto está em segundo plano.

Do mesmo modo, não se pressupõe que avaliar ou discutir argumentos seja uma tarefa posterior a outras (por exemplo, posterior a compreender minuciosamente o que o autor X disse). Aprende-se o que o autor X disse ao mesmo tempo em que se aprende a avaliar o que o autor X disse. As duas habilidades são desenvolvidas lado a lado.

Acho que essas notas expressam o que mais me chamou atenção no primeiro mês. Pretendo mencionar aspectos mais específicos da organização acadêmica nas próximas postagens, alguns dos quais são derivados dessas duas observações iniciais. Como na postagem anterior, fico à disposição para responder perguntas que possam surgir.

Doutorado sanduíche nos EUA e próximas postagens

Nos próximos dias, embarcarei para os Estados Unidos para passar 9 meses lá como estudante visitante. Meu destino é o Departamento de Filosofia da Florida State University (FSU), em Tallahassee. Com isso em mente, pensei que uma boa maneira de reativar o fluxo de postagens neste blog poderia ser compartilhando aqui relatos e reflexões sobre esse período. A ideia é trazer mensalmente informações e reflexões relevantes para quem também pretende estudar um período no exterior e refletir sobre a formação e a pesquisa em filosofia, aqui e lá.

O edital CAPES/Fulbright:

Minha bolsa é mantida por duas instituições, a CAPES e a Comissão Fulbright. Ela tem adicionais que não estão disponíveis em outras modalidades e que podem interessar a quem vai concorrer a uma bolsa (o processo de inscrição é um pouco mais complicado também). Até o momento, os pontos positivos mais salientes são o valor da bolsa (maior que bolsas do PDSE, por exemplo), a intermediação da Fulbright Brasil na obtenção do visto americano (que tornou o processo todo muito mais suave do que poderia ser), e uma orientação prévia para todo um grupo de bolsistas que estava prestes a embarcar. Essa orientação serviu para tirar dúvidas, destacar aspectos da cultura (acadêmica e não) americana e das diversas possibilidades que podem ser aproveitadas lá.

Escolhendo o destino:

Minha pesquisa, brevemente descrita, busca avaliar o impacto de resultados empíricos (especialmente em psicologia e neurociência) para discussões sobre a liberdade de escolhas e responsabilidade. Meu contato com a literatura sobre o assunto, e informações adquiridas em vários blogs sobre a rotina acadêmica em filosofia nos Estados Unidos (ex. Daily Nous, Philosophers’ Cocoon,  entre outros), acabaram por me levar a conhecer e escolher o departamento de filosofia da FSU como possível destino. O departamento sedia atualmente um projeto que terá duração de quatro anos sobre a Filosofia e a Ciência do Autocontrole, coordenado pelo professor Alfred Mele. Esse mesmo professor havia previamente coordenado um projeto sobre Grandes Questões sobre o Livre-Arbítrio, no qual filósofos e cientistas também estiveram engajados. Em suma, tratava-se de um lugar onde estavam fazendo o tipo de pesquisa que me interessava fazer, e sobre o mesmo assunto. Além disso, havia uma concentração de profesores do próprio departamento com pesquisa na grande área de filosofia da ação.

Primeiras atividades programadas:

Minhas primeiras atividades acadêmicas no exterior serão a participação em uma conferência online, a 2015 Minds Online Conference, em que tive um trabalho aprovado. Também assistirei uma disciplina sobre ação/agência ministrada por Alfred Mele, que também será meu orientador durante o período no exterior. Na próxima postagem, pretendo detalhar mais o desenrolar da Conferência Online (algo de que nunca participei antes) e outros elementos relevantes que surgirão no primeiro mês. Espero que esta e as demais postagens possam ser úteis, e fico à disposição para oferecer mais detalhes de interesse nos comentários.

Curso sobre decisões imorais em instituições

Em tempos de preocupações com a corrupção nas mais variadas instituições brasileiras, divulgo este curso da Universidade de Lausanne, da Suíça, sobre decisões imorais em instituições, que iniciará no Coursera.org no dia 15 de setembro de 2015:

Unethical decision making in institutions

Course Syllabus

Broad outline of the topics covered in the seminar:

  1.  Introduction to ethical and unethical decision making
  2.  Introduction to unethical decisions in organizations
  3.  The power of frames: How people construct their reality
  4.  The power of routines
  5.  The power of strong situations
  6.  The power of institutions
  7.  The wind of change: How to fight ethical blindness

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