Hume sobre Causa e Efeito

As citações abaixo foram retiradas da obra Ensaio sobre o entendimento humano (1748) de David Hume.

Hume começa a seção IV de seu Ensaio sobre o entendimento humano afirmando que o a investigação humana pode ter foco dois objetos distintos: (a) relações entre idéias e (b) relações entre fatos. Em (a) podemos incluir as verdades matemáticas, como que 2 + 2 é igual a 4. Neste campo não precisamos de informações empíricas, o puro raciocínio descobre verdades deste tipo e delas pode ter certeza, i.é., 2+2 sempre será igual a 4.

Com relação a (b), a investigação sobre relações entre fatos, Hume diz que as proposições deste tipo parecem sempre depender de aceitação de uma relação de causa e efeito. É com base nesta relação que a ciência trabalha. As afirmações da física tradicional (sem entrar em discussões sobre a atual mecânica quântica), da biologia, da química são resultado deste tipo de investigação. Esta relação, como Hume diz, não será conhecida pelo puro raciocício:

“Ousarei afirmar, como proposição geral, que não admite exceção, que o conhecimento desta relação [de causa e efeito] não se obtém, em nenhum caso, por raciocínios a priori, porém nasce inteiramente da experiência quando vemos que quaisquer objetos particulares estão constantemente conjuntados entre si.”

Como a citação fala claramente, Hume declara que não se pode ter a idéia de que um certo acontecimento causa outro puramente pelo uso da razão. Esta noção é desenvolvida na medida em que observamos regularidades de acontecimentos e a partir disto inferimos que um deve ser a causa do outro.

“Se qualquer objeto nos fosse mostrado, e se fôssemos solicitados a pronunciar-nos sobre o efeito que resultará dele, sem consultar observações anteriores; de que maneira, eu vos indago, deve o espírito proceder nesta operação? Terá de inventar ou imaginar algum evento que considera como efeito do objeto; e é claro que esta invenção deve ser inteiramente arbitrária. O espírito nunca pode encontrar pela investigação e pelo mais minucioso exame o efeito na suposta causa. Porque o efeito é totalmente diferente da causa e, por conseguinte, jamais pode ser descoberto nela.”

Causa e efeito sempre são coisas distintas: eis a razão dada por Hume para que a razão, por ela mesma, não possa imaginar, senão arbitrariamente, em que efeito uma dada causa poderá resultar.

“Em uma palavra: todo efeito é um evento distinto de sua causa. Portanto, não poderia ser descoberto na causa e deve ser inteiramente arbitrário concebê-lo ou imaginá-lo a priori. E mesmo depois que o efeito tenha sido sugerido, a conjunção do efeito com sua causa deve parecer igualmente arbitrária, visto que há sempre outros efeitos que para a razão devem parecer igualmente coerentes e naturais. Em vão, portanto, pretenderíamos determinar qualquer evento particular ou inferir alguma causa ou efeito sem a ajuda da observação e da experiência.”

Podemos entender, auxiliados pela citação seguinte, por que a ciência (ou as afirmações acerca dos fatos) são sempre frágeis. A experiência nos mostra regularidades, que um acontecimento geralmente segue-se de outro. Acontece que não há uma relação de necessidade lógica, ou melhor, não há uma justificação racional para que acreditemos que se ontem e hoje A “causo” B (ou melhor: sempre que A ocorreu, B também ocorreu) isso seguirá se repetindo no futuro. A isto podem ser acrescentados os enganos com que frequentemente nos deparamos ao afirmar supostas relações de causa e efeito.

Daqui, podemos descobrir o motivo pelo qual nenhum filósofo racional e modesto jamais pretendeu indicar a causa última de qualquer fenômeno natural, ou mostrar distintamente a ação do poder que produz qualquer efeito singular no universo. Concordar-se-á que o esforço máximo da razão humana consiste em reduzir à sua maior simplicidade os princípios que produzem os fenômenos naturais; e restringir os múltiplos efeitos particulares a um pequeno número de causas gerais, mediante raciocínios baseados na analogia, na experiência e na observação. No entanto, com referência às causas das causas gerais, em vão tentaríamos descobri-las, pois jamais ficaríamos satisfeitos com qualquer explicação
particular que lhes déssemos. Estas fontes e estes princípios últimos estão totalmente vedados à curiosidade e à investigação humanas. A elasticidade, a gravidade, a coesão das partes, a comunicação de movimentos por impulso são provavelmente as causas e princípios últimos que sempre descobriremos na natureza; e podemos considerar-nos suficientemente felizes se, mediante investigação e raciocínio exatos, podemos subir dos fenômenos particulares até, ou quase até, os princípios gerais. Enquanto a filosofia natural mais perfeita apenas diminui uma pequena parcela de nossa ignorância , a filosofia mais perfeita — do gênero moral ou metafísico — revela -nos, talvez, que nossa ignorância se estende a domínios mais vastos. Deste modo, resulta de toda a filosofia a constatação da cegueira e debilidade humanas que se nos apresentam em todo momento por mais que tentemos disfarçá-las.”

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