Publicado em Metafísica

Agostinho e o problema do mal na Idade Média

Discutimos hoje na disciplina de Filosofia Medieval o Problema do Mal na Idade Média. Mais especificamente, fizemos isto baseando-nos no Livro VII das Confissões de Santo Agostinho. No que segue tentarei reproduzir o problema.

A discussão toda parece começar dos seguintes pressupostos:

(a) Deus (por definição) é o Ser mais bom, mais poderoso, mais sabido que podemos conceber.

(b) Deus criou todas as criaturas (o homem, o tempo, e tudo o mais).

Partindo dessas afirmações a pergunta que se nos coloca é:

Como pode haver mal no mundo se Deus é todo bondoso e tudo o que existe foi feito por ele?

A pergunta é problemática, pois se tudo é obra de Deus, então o mal também é sua obra e, portanto, Deus também é mal. Mas, ora, a definição de Deus não é compatível com ele ser em alguma medida mal, pois, se Deus é aquilo que é todo bondoso e perfeito, algo que é mal em qualquer medida não pode ser Deus.

Penso que o problema pode ficar mais claro se explicar-mos assim (vou reconstruir o conceito de Deus sob a variável “x”): “x” é o nome que damos àquilo que de mais perfeito podemos conceber. Para uma coisa ser chamada de “x”, esta coisa tem de ser perfeitamente boa, perfeitamente sábia, perfeitamente poderosa. Agora pense que y cria diversas criaturas, entre elas nós. Acontece que estas criaturas não são perfeitas, estão sujeitas à mudança, à corrupção, à maldade. Poderemos dizer que y é x? Uma coisa toda poderosa e boa poderia criar algo que não fosse perfeitamente bom, algo imperfeito, ou ainda algo capaz de maldade? Ou seja, poderíamos dizer que Deus é x mesmo assim? Ou ainda: poderíamos chamar de x algo que cria algo mal?

Uma parte da solução de Agostinho é dizer que o mal não é uma criatura, portanto, Deus não o criou. Mas e de onde vem o mal que admitimos que no mundo? Segundo Agostinho, este mal se origina no livre arbítrio da vontade humana. O ser humano, por não ser perfeito (se fosse seria Deus, ok!?) está suscetível a realizar atos maus. Faz isto quando não vai em direção a Deus, segundo Agostinho. O mal será, para ele, uma perversão da vontade desviada do ser supremo que é Deus. Assim, Agostinho consegue escapar de dizer que o mal é criação divina.

Mas e aí: Deus cria algo (o homem) capaz de cometer o mal. Deus (se é todo sabido) sabia disto antes de criar. Por que criou, então, se sabia que a sua criação seria imperfeita e sujeita a cometer o mal?

Uma resposta que se pode dar é que a vontade livre é uma condição para a felicidade humana. Sendo assim ela é em si mesma um bem e só pode ser fonte de mal através de seu mal uso pelo homem. O homem que, por ser criatura divina é bom, não é perfeitamente bom (pois se fosse seria Deus). Mas, mesmo sendo em alguma medida bom, é corruptível e capaz de agir maldosamente. O problema todo é como compatibilizar isto: Um Deus todo bom e poderoso com uma criatura Sua que é capaz de fazer o mal.

Este problema “metafísico-teológico” é algo que alimenta grande parte da Filosofia Medieval. Volto a postar quando ficar sabendo que desdobramentos  esta discussão terá na história posterior da  filosofia.

Autor:

I'm a doctoral student in Philosophy at Federal University of Santa Maria, Brazil. My research focuses on the practical role of decisions on certain practical aspects of our lives, including responsibility and punishment. I'm also interested in assessing the impact of empirical studies on discussions about free will. More at: https://fischborn.wordpress.com

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