Publicado em Filosofia da Linguagem, Lógica

Frege: conceitos e objetos

Frege em Os Fundamentos da Aritmética nos fornece algumas “ferramentas” para lidar com conceitos e objetos. A partir destas “ferramentas”, pode-se compreender de uma maneira mais ampla noções como as de existência, número, unicidade, nada, entre outras. O objetivo deste texto será este, ou seja, compreender melhor estas noções a partir de uma compreensão das noções de conceito e objeto.

Tomemos como exemplo o conceito “estudantes de filosofia da Ufsm”. Frege diria que aqui podemos dintinguir duas coisas: as “propriedades do conceito” e as “notas características do conceito”.

Por “notas características do conceito” Frege entende as propriedades que um objeto deve ter para “cair sob” o conceito em questão. São notas características do conceito que dei como exemplo “ser estudante”, “ser homem”, “estudar”, isto é, propriedades das coisas que são estudantes de filosofia. Diferentemente se dá com as propriedades do conceito. Um tipo de propriedade do conceito “estudantes de filosofia da Ufsm” é, por exemplo, “não ser vazio” ou “ter mais de 60 membros”.

O que Frege diferencia aqui são características do conceito de características das coisas que caem sob o conceito. “Ser estudante” é uma característica de uma pessoa (objeto) de carne e osso, não de um conceito. Já “não ser vazio” é uma característica lógica de um conceito (que é abstrato). Um estudante de carne e osso cai sob um conceito lógico. Exemplificando: O estudante é um ser humano, mas não é “não-vazio”; o conceito é “não-vazio”, mas, por ser conceito, não estuda, nem é homem.

(Algo interessante de ressaltar aqui é que um conceito pode cair sob outro de ordem superior. O conceito “homem” pode cair sob o conceito “animal”. Aqui cada conceito terá características diferentes (e também diferentes coisas que caem sob cada um). O número de coisas que cai sob o conceito de animal é muito maior que o número de coisas que caem sob o conceito de homem. Mas o número de coisas que cai sob o conceito de homem não é uma característica do conceito de animal).

Existência e Número

Como deve ter dado a entender até aqui, Frege considera que um número (como 0, 1, 100) é uma propriedade que se aplica a um conceito, e não de um objeto. Um número não é considerado uma abstração a partir de um grupo de objetos. Como consequência disto temos que ter um conceito não implica em ter algo que caia sob ele (algo que o exemplifique). Quero dizer, podemos definir as notas características de um conceito (propriedades que os objetos devem ter para cair sob o conceito que definimos) e, mesmo assim, não haver uma coisa que tenha estas propriedades que especificamos. Ou seja, pode haver conceitos vazios.

Negar que exista algo que caia sob um dado conceito, segundo Frege, é o mesmo que lhe atribuir (ao conceito) o número zero. Exemplifico:

“Não existe um círculo quadrado”, diz a mesma coisa que:

“Zero coisas são um círculo quadrado” ou ainda:

“Nada é um círculo quadrado”.

Negar a existência é o mesmo que atribuir o número zero a um conceito (e “nada” exerce aqui esta mesma função). Atribuir qualquer outro número maior do que zero implica que o conceito não é vazio. Assim: “60 pessoas estudam filosofia na Ufsm” atribui o número 60 ao conceito “pessoa que estuda filosofia”. Também podemos falar o mesmo da noção de unicidade. Unicidade também é propriedade de um conceito, equivalente a atribuição do número 1 ao conceito (exemplo “lua da Terra”). “Sob este aspecto”, diz Frege, “a existência assemelha-se ao número”, assim como a noção de unicidade, nada (negação de existência) entre outras.

Referência Bibliográfica:

Frege, Os fundamentos da aritmética, §45 – §54.

Autor:

I'm a doctoral student in Philosophy at Federal University of Santa Maria, Brazil. My research focuses on the practical role of decisions on certain practical aspects of our lives, including responsibility and punishment. I'm also interested in assessing the impact of empirical studies on discussions about free will. More at: https://fischborn.wordpress.com

3 comentários em “Frege: conceitos e objetos

  1. Foi bastante esclarecer para captar a noção de conceito; não poderei dizer o mesmo relativamente à noção de objecto. Obrigada.

  2. Todas as teses de Frege são falsas. É falso que o número de coisas que cai sob o conceito de animal é maior que o número de coisas que cai sob o conceito de homem, porque conceitos só representam as coisas qualitativamente, não quantitativamente. Ademais, não há qualquer tipo de relação entre as palavras e as coisas. As palavras significam através de conceitos abstratos, sendo estes que fazem referência a objetos, jamais as palavras. Desde Kant já se sabe que identidade extensional não implica em identidade intensional.. por ex., os predicados triangular e trilátero são coextensivos e possuem conteúdos distintos. E é ilícito falar em “propriedades de um conceito”, no sentido de que cada conceito tenha propriedades diferentes dos demais, simplesmente porque todos os conceitos possuem as mesmas propriedades (por ex., a universalidade, generalidade etc), por serem todos igualmente conceitos. O que varia de conceito para conceito é o conteúdo, o que já é uma questão exterior. Negar que exista algo que caia sob um dado conceito não é, de forma alguma, o mesmo que lhe atribuir o “número zero”, mesmo porque, zero não é uma quantidade e, portanto, não é um número. A idéia fregeana de que a lógica possui seus próprios objetos é totalmente absurda, assim como a idéia de que a aritmética pode ser derivada de princípios lógicos (que Frege nem sequer considerou verdadeiramente)! rs

    1. Caro Marcelo,

      Agradeço seu comentário e não posso negar a grande curisidade que me despertou. Gostaria de ver você falar mais (ou mesmo dar alguma referência dessas afirmações todas).

      Primeiro: o que tem a ver a suposta natureza qualitativa da representação conceitual com poder-se ou não contar o número de coiss que exibem as qualidades implicadas por um certo conceito? Por que não poderíamos contar quantos objetos têm essas propriedades? Há mais animais do que animais humanos. Por que não posso dizer que o número de coisas que cai sob o conceito de animal é maior que o que cai sob o conceito de animal humano?

      Segundo: o que você quer dizer com não haver qualquer relação entre palavras e coisas quando, em seguida, acrescenta que são os conceitos abstratos que referem? Isso não é uma relação entre palavras e coisas (sim, a relação de ambas estarem relacionadas com os tais conceitos abstratos)?

      Terceiro: eu acho que Frege também endossa a tese de que identidade extensional não implica identidade intensional (não sei se nesses termos). Mas um dos aspectos da distinção entre sentido e referência é esse. Eu sei que não falo deste trabalho no post, mas mesmo assim isso implicaria que é falso que “todas as teses de Frege são falsas” (aceitando-se que a tese em questão é verdadeira, e acho que aceito isso).

      Eu teria mais coment´arios, mas acho que um esclarecimento sobre essas questões enriqueceria em muito os comentários aqui deste post.

      Um abraço,
      Marcelo F.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s