Publicado em Citações, Epistemologia, Filosofia para Ensino Médio

Descartes: da dúvida à certeza

Meu objetivo neste pequeno texto é apresentar superficial e brevemente o contexto histórico em que se encontra e como Descartes passa de um conjunto de dúvidas a uma certeza: “eu existo”.

Contexto histórico – Renascimentoi

O século XVI, que precedeu Descartes (1596-1650), foi marcado por profundas transformações no modo como o homem compreendia o mundo. Esse período, chamado Renascimento, resgatou antigos conhecimentos dos Gregos que ficaram de lado durante a Idade Média. O período é também de novas descobertas de terras e povos (como acontece no continente Americano) e isso abalou profundamente o que se tinha por certo até então.

Com a constatação de que muito do que se tinha por certo até então não estava bem fundado, desenvolve-se um clima de dúvida e descrença. Surgem alguns céticos colocando em dúvida aquilo que se tinha por conhecimento na época. Dirão que aquilo não era conhecimento: era mera opinião e carecia de certeza e segurança.

O que fazer então? Era necessário desenvolver um método seguro, que fosse racional, e que pudesse conduzir ao conhecimento e evitar engano. Esta busca por um método seguro e confiável “vai caracterizar a investigação filosófica do século XVII”ii. O contexto de incertezas faz com que se procure um meio para atingir um conhecimento seguro.

O método de Descartes

Descartes, em meio ao contexto dado acima, se descontenta com a filosofia que lhe foi ensinada. A filosofia da qual Descartes fala é a Escolástica. Percebe que nela há dúvida, opiniões diversas e, além disso, as demais ciências se erguem sobre ela (como seria possível construir algo firme em cima de fundamentos tão moles!?)iii. Pensa, então, que é necessário começar um método novo para o conhecimento, e que este deve ser erguido do zeroiv.

Para começar do zero é necessário abandonar o status de certas crenças, e submetê-las à razão. As que “passarem no teste” podem ser admitidas, as restantes devem ser abandonadas. Assim, cada crença deveria passar em um rigoroso teste para ser admitida como conhecimento. Não haveria espaço para opiniões duvidosas. O que é duvidoso deve ser deixado para trás.

Descartes admirava-se do método matemático. Nele há exatidão, os conhecimentos se seguem uns dos outros dedutivamente; do mais simples ao mais complexo, e de modo ordenado. Era necessário ter um método com características semelhantes para o conhecimento em geral. Por isso, busca-se por um princípio sólido, exato e indubitável para a filosofia.

Da dúvida à certeza

Bem, já se tem uma idéia de como começar: colocar tudo o que é duvidoso em xeque e só manter o que “sobreviver ao teste”. Descartes, então, coloca em dúvida três pontos centraisv:

  • As informações fornecidas pelos sentidos:

“Assim, porque os nossos sentidos nos enganam às vezes, quis supor que não havia coisa alguma que fosse tal como eles nos fazem imaginar.”

  • Os resultados até então alcançados pelo raciocínio:

“E, porque há homens que se equivocam ao raciocinar, mesmo no tocante às mais simples matérias da Geometria, … rejeitei como falsas … todas as razões que eu tomara até então por demonstrações.”

  • Os pensamentos:

“ E … considerando que todos os mesmos pensamentos que temos quando despertos nos podem também ocorrer quando dormimos, sem que haja nenhum, nesse caso, que seja verdadeiro, resolvi fazer de conta que todas as coisas que até então haviam entrado no meu espírito não eram mais verdadeiras que as ilusões de meus sonhos.”

Ressaltado estes três pontos, Descartes chega, então, ao seguinte raciocínio:

“Mas, logo em seguida, adverti que, enquanto eu queria assim pensar que tudo era falso, cumpria necessariamente que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E notando esta verdade: eu penso, logo existo, era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de a abalar, julguei que podia aceitá-la, sem escrúpulo, como o primeiro princípio da Filosofia que procurava.”

Como se vê, Descartes ao querer colocar tudo em dúvida, supor que tudo que soubera até então era falso, não pode duvidar de uma coisa: que quem duvida, pensa; e, se alguém pensa, esse alguém é algo; ou seja, existe. Daí: se penso, então existo!

—————————–

iApoio-me aqui na seção “Vida e Obra” do livro Descartes da coleção “Os pensadores”, ed. Abril Cultural, 1983.

iiNo livro citado acima, página IX.

iiiVeja, no livro citado, Discurso do Método, Primeira Parte, p. 32.

ivNo mesmo lugar, p. 35.

vAs informações que seguem e também as citações foram retiradas da Quarta Parte do Discurso do Método, Quarta Parte.

Autor:

I'm a doctoral student in Philosophy at Federal University of Santa Maria, Brazil. My research focuses on the practical role of decisions on certain practical aspects of our lives, including responsibility and punishment. I'm also interested in assessing the impact of empirical studies on discussions about free will. More at: https://fischborn.wordpress.com

2 comentários em “Descartes: da dúvida à certeza

  1. Fico levemente constrangido em ter descoberto tão tardiamente estes teus textos. Primeiro porque em caso de uma pesquisa eles me seria deveras úteis, segundo porque é uma aula de escrita didaticamente filosófica. O problema é apontado com clareza e distinção, e usar esses termos neste contexto não é nada casual. Continuarei a lê-lo e, quando achar proveitoso, comentando, já que é uma implacável busca essa a tua: uma busca por destrinchar textos, quebrá-los e em seguida reconstruí-los de modo a torná-los um pouco mais fáceis de serem digeridos.
    Parabéns e até a próxima postagem.

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