Aristóteles – De anima (Da alma) – erro de tradução

Penso ter encontrado um pequeno problema de tradução no livro Da Alma de Aristóteles, tradução de Carlos Humberto Gomes, publicado pela Edições 70. No Livro II, o capítulo “As faculdades da alma” (pagina 57) começa assim:

“Em relação àquelas faculdades por nós referidas, algumas criaturas animadas, como também já dissemos, 414 a 30. possuem umas todas elas enquanto que outras, apenas algumas, e finalmente outras ainda, unicamente uma. Estas capacidades, como aliás fizemos menção, são respectivamente as faculdades nutritiva, desiderativa, sensitiva, de locomoção e de pensamento. As plantas não possuem faculdade nutritiva, outros seres vivos, pelo contrário, 414 b 1. possuem de maneira diversa a faculdade sensitiva e, em conjunto com ela, também a faculdade desiderativa, compreendendo o desejo necessariamente o apetite, a paixão e a vontade.”[1]

 O trecho sublinhado (onde julgo haver problema) contradiz o que, no mesmo capítulo, é dito mais adiante (sublinhado abaixo):

“Na verdade, assim desprovida de faculdade nutritiva, a faculdade sensitiva nunca poderá ser concedida; mas, pelo contrário, pode encontrar-se a faculdade nutritiva sem faculdade sensitiva nas plantas.”[2]

Vejamos como aparece o trecho que coloquei em questão em outras traduções. Tomás Calvo Martínez traduziu o mesmo trecho para o espanhol como segue:

“En las plantas se da solamente la facultad nutritiva, mientras que en el resto de los vivientes se da no sólo ésta, sino también la sensitiva.”[3]

 Para o inglês, este mesmo trecho foi traduzido por J. A. Smith, assim:

 “Plants have none but the first, the nutritive, while another order of living things has this plus the sensory.”[4]

Baseado nestas duas traduções e em que o trecho que acredito ter problema contradiz outro do mesmo livro, sugiro que o original: 

“As plantas não possuem faculdade nutritiva, outros seres vivos, pelo contrário, 414 b 1. possuem de maneira diversa a faculdade sensitiva …”

 seja lido como:

 “As plantas possuem apenas a faculdade nutritiva, enquanto outros seres vivos, pelo contrário, possuem de maneira diversa a faculdade sensitiva …”

 Bem, era isso. Ficarei grato se receber comentários, concordem comigo ou não.

 

 


[1]    Aristóteles, Da Alma, trad. Carlos Humberto Gomes, Lisboa:Edições 70, p57.

[2]    Ibid. p59.

[3]    Aristóteles, Acerca del Alma, trad. Tomás Calvo Martínez (p55 do arquivo abaixo). Disponível em: http://www.scribd.com/…/Aristoteles-Acerca-del-Alma

[4]    Aristotle, De anima (On the soul) trad. J. A. Smith (p14 do arquivo abaixo). Disponível em: dominiopublico.gov.br/…/ps000011.pdf

Anúncios

2 comentários em “Aristóteles – De anima (Da alma) – erro de tradução

  1. O tradutor como o explorador que está a descobrir a nascente de um rio deve sempre ir às origens/fonte nascente onde tudo começa e não se ficar unicamente pelas “traduções de traduções de traduções…”.

  2. Há uma tradução mais recente, de Ana Maria Lóio, na série Obras Completas de Aristóteles levada a cabo pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, com coordenação de António Pedro Mesquita e chancela da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, onde se lê o mesmo passo assim:
    “Ora, às plantas pertence apenas a faculdade nutritiva, ao passo que aos outros seres pertencem esta faculdade e também a perceptiva.”
    Esta é igualmente uma tradução feita a partir do texto original e não oferece a mesma dificuldade. Espero que a dica ajude.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s