Publicado em Filosofia, Filosofia para Ensino Médio, Introdução à Filosofia

Um pouco sobre a Filosofia

O texto que reproduzo abaixo foi escrito pensando nas primeiras ou na primeira aula de filosofia para uma turma de ensino médio.

A ideia seria compreender a ideia comum (que pode estar presente no dia-a-dia de muitos) de que filosofia cada um tem a sua. Poder-se-ia comparar este uso da palavra “filosofia” com “modo de pensar” ou “modo de viver”.

Em contraposição a este sentido vulgar de “filosofia”, o texto abaixo busca apresentar o conceito “acadêmico” de filosofia. Busca-se caracterizar, ao menos minimamente, aquela atividade que foi exercida pelos filósofos, quer do passado, quer do presente. Segue o texto reproduzido integralmente:

UM POUCO SOBRE A FILOSOFIA*

O que fazem os filósofos? Com o que se ocupam? Que questões tentam responder e de que forma fazem isso? Neste texto tentar-se-á reunir algumas considerações que pretendem indicar uma direção para a resposta destas e outras perguntas. Algumas pistas já estão nas próprias perguntas e, na sequência, utilizaremos delas para que possamos ter uma noção geral razoável do que seja a Filosofia1. Deve-se salientar que não se pretende dar uma definição ou resposta definitiva para a questão, apenas destacar algumas características relevantes para o seu estudo.

Uma maneira de tentar entender o que se faz em filosofia é olhar para a sua história e tentar ver o que de comum fizeram todos aqueles que foram considerados filósofos. A fim de poupar você de ler tudo o que eles escreveram, para só então tirar suas próprias conclusões, aqui vai uma ajuda. Todos eles se ocuparam com questões que, ao menos em sua época, não tinham uma solução fácil. Ainda assim, essas questões eram fundamentais e básicas, no sentido de que diziam respeito ao que, com necessidade de mais ou menos esforço, estava ao alcance da curiosidade de qualquer pessoa. Alguns exemplos: logo no início dessa atividade que chamamos filosofia, na Grécia antiga, os filósofos chamados pré-socráticos (ou filósofos da natureza) desenvolveram teorias sobre o que era a matéria. Essa era uma questão importante e recebeu diversas e diferentes respostas naquela época. Ainda na Grécia antiga, os filósofos perguntaram o que era o conhecimento, o que era a justiça e o bem. Pense na importância que estas noções deviam ter naquela época (e ainda têm!), pois foi lá que se originou a noção de democracia, o estudo da política, e também a ciência. Séculos mais tarde, na Idade Média, uma questão que ocupou muito os filósofos e teólogos foi o chamado “problema do mal”. Tentava-se responder como um Deus, que é todo bondoso e poderoso, poderia ter criado um mundo onde existe o mal. Imagine a importância destes e outros questionamentos numa época onde igreja e governo estavam fundidos! Tentaram-se várias respostas a estes e outros problemas ao longo da história da Filosofia.

A pouco falamos no surgimento da ciência. Foi dito que ela surgiu na Grécia antiga. Devemos ressaltar que lá, no começo de tudo, qualquer investigação teórica era considerada filosofia. Portanto, filosofia e ciência inicialmente coincidiram. Se olharmos para a ciência hoje, podemos ver que alguns assuntos que pertenciam originariamente à filosofia, hoje são assunto da ciência. Um exemplo é a investigação sobre o que é a matéria, que já mencionamos. Hoje a física e a química investigam a matéria e não mais a filosofia. Vejamos o que temos até aqui: os filósofos tentam responder certas questões; os cientistas também fazem isso; o que podemos dizer do fato de que filósofos e cientistas às vezes investigam as mesmas questões? Como podemos diferenciar um do outro?

Fiquemos com o exemplo de explicar o que é e como funciona a matéria. O trabalho científico que é feito hoje usa de métodos experimentais e tem uma teoria padrão (de que a matéria é composta por átomos e suas subpartículas). Através de experimenros e observação a teoria vai sendo implementada e corrigida. O que os filósofos que se ocuparam deste mesmo assunto fizeram era bem diferente. As teorias eram elaboradas e confrontadas umas com as outras através da argumentação. Aqui há um ponto de diferenciação: os cientistas fazem experimentos, mas os filósofos não. Embora os cientistas e qualquer pessoa sirvam-se da argumentação, para o filósofo esta ferramenta tem um papel central. Vemos assim que a filosofia é uma atividade conceitual, que se dá ao nível da linguagem. Pode-se também dizer que, como os problemas da filosofia são fundamentais, os conceitos investigados são também fundamentais.

Podemos agora dizer que a filosofia se ocupou ao longo de sua história, e se ocupa hoje, daqueles problemas onde a ferramenta principal para teorizá-los é a argumentação. Em problemas filosóficos a observação dos fatos ou o desenvolvimento de experiências não são suficientes para se decidir uma questão. Também podemos ver que os problemas filosóficos não foram sempre os mesmos. Algumas questões que um dia foram assunto dos filósofos, hoje são assunto da ciência. E o avanço da ciência, por vezes, faz surgirem novas questões filosóficas. Entretanto, apesar dessa certa maleabilidade, há algumas questões que sempre estiveram no campo da filosofia, sugerindo assim que estas questões são genuinamente filosóficas. No restante deste texto apresentaremos exemplos de problemas de duas grandes áreas da filosofia e concluiremos com algumas observações sobre como se dá a investigação filosófica.

Talvez o problema filosófico mais fundamental e abrangente diga respeito ao que é o conhecimento, como podemos chegar a ele e quais são os seus limites. A chamada definição clássica de conhecimento foi delineada já por Platão, que viveu entre 429 e 347 a.C2, como crença verdadeira e justificada. Dada esta definição muitos desafios se colocam à teoria do conhecimento: quando temos conhecimento e não mera crença? o que é uma boa justificativa para uma crença? o que é verdade ou que exigência uma crença deve atender para ser, de fato, verdadeira? Um cético pode levantar questões que coloquem em xeque aquilo que geralmente aceitamos como certo. Um exemplo? Em nossos sonhos temos sensações tão vivas que chegamos a suar, ficamos em pânico e com medo, como se fossem reais. O cético poderia perguntar: como você sabe que não está sonhando neste exato momento e que tudo que você acredita estar de fato ocorrendo, inclusive a leitura deste texto, não passa de um sonho? Já pensou em responder um pergunta dessas? Esse e outros desafios céticos, que colocam em dúvida nossas pretensões de saber, são tratados numa área da filosofia chamada epistemologia, ou teoria do conhecimento.

Façamos algumas notas. Compare a abrangência de um problema filosófico com um problema científico. Um exemplo de problema científico poderia ser se nicotina causa câncer, ou ainda, como se pode combater o vírus da nova gripe. A pergunta pelo que é o conhecimento ou como podemos alcançá-lo é muito mais abrangente. Tanto o cientista, quanto as pessoas no dia-a-dia fazem descobertas, dizem que sabem que choveu ontem, que sabem que fumar é prejudicial à saúde; uma noção de conhecimento está implícita em todas estas situações.

Um outro campo de extrema abrangência é a ética ou filosofia moral. Como justificamos nossas concepções sobre o que é certo e o que é errado? Por qual padrão de avaliação podemos dizer que uma ação é boa ou certa e outra errada ou má? o aborto é moralmente aceitável? Alguns filósofos propuseram que para dizer se uma ação é boa temos que avaliar as consequências desta ação, se ela traz felicidade e não traz dor para a humanidade. Este tipo de concepção da moral avalia as consequências, as finalidades, os resultados de uma ação. Uma posição diferente avaliaria as intenções do agente, para dizer se ele agiu bem ou não.

Mais algumas notas. Vemos aqui, novamente, que o assunto é abrangente. No nosso dia-a-dia vemos nossas mães, avós e nós mesmos dizendo que uma certa pessoa agiu corretamente, que a outra pessoa é má, que fulano é muito bom e que aquele político fez o que não devia. Poucas vezes nos perguntamos como é que fazemos estas valorações; que critérios usamos. Note que neste assunto passamo perto dos limites da religião; vamos aproveitar e fazer algumas diferenciações.

Religiões geralmente têm “receitas prontas” do que é certo ou errado e do que é o bem. Na filosofia estamos dispostos a enfrentar estas questões até as últimas consequências, queremos argumentos fortes para sustentar esta ou aquela posição. O que as religiões fazem (e que é um direito delas) é diferente da filosofia. Elas simplesmente aceitam que o que está num livro sagrado, ou foi dito por um grande sábio, é o certo e não se preocupam em pôr à prova estas concepções. Em filosofia, para fazer uma investigação rigorosa, muitas vezes precisamos dar uma pausa nas nossas concepções pessoais sobre uma dada questão e buscar o que, em última instância, sustenta ou pode fundamentar aquela posição. Numa dessas, podemos até chegar a uma conclusão diferente daquela que tínhamos por correta.

Nos dirigindo ao fim deste texto, façamos uma breve recapitulação e síntese. Vimos que a filosofia tem alguns problemas próprios. Esses problemas não são necessariamente permanentes, alguns deles podem deixar de ser filosoficamente relevantes e outros novos podem surgir. Tentou-se também destacar ao longo do texto que a argumentação tem um papel muito importante. Que é através de argumentos que se tenta dar respostas às questões da filosofia. É também através deles que se busca refutar respostas já dadas. Vemos assim que a atividade filosófica se dá conceitualmente, isto é, ao nível da linguagem. Nas ciências se fazem experimentos, observam-se fatos. Em filosofia não fazemos isso.

De tudo o que foi dito, podemos ainda destacar a importância de duas outras áreas da filosofia das quais nada falamos explicitamente até aqui. São elas a lógica e a filosofia da linguagem. Devemos encarar estas disciplinas como fornecedoras de instrumentos para uma investigação séria e cuidadosa dos problemas da filosofia. Obtemos com elas habilidades necessárias para uma investigação inteligente, mediante argumentos fortes.

Finalizamos dizendo que a história da filosofia é resultado das tentativas de resolver as suas questões, e que muitas delas (ou uma versão reformulada), continuam abertas à investigação sem uma resposta definitiva. Isso se deve à complexidade daquelas questões com as quais a filosofia se ocupa.3

*Texto escrito por Marcelo Fischborn (Santa Maria, Agosto de 2009).

1Muito do que será dito neste texto será baseado no primeiro capítulo do livro Philosophical Problems and Arguments – An introduction (James W. Cornman e Keith Lehrer, Segunda Edição, Macmillan Publishing:New York, 1974).

2 Datas segundo o Dicionário Oxford de Filosofia (Simon Blackburn, JZE:Rio de Janeiro, 1997).

3Espera-se que este texto tenha contribuído para aumentar o entendimento do leitor sobre a atividade filosófica. Tentou-se falar um pouco sobre o objeto desta: os problemas filosóficos. Também se buscou salientar o papel da argumentação, como método de investigação desses problemas, e da história da filosofia como fruto dessa atividade.

Autor:

I'm a doctoral student in Philosophy at Federal University of Santa Maria, Brazil. My research focuses on the practical role of decisions on certain practical aspects of our lives, including responsibility and punishment. I'm also interested in assessing the impact of empirical studies on discussions about free will. More at: https://fischborn.wordpress.com

Um comentário em “Um pouco sobre a Filosofia

  1. Depois de escutar “pedaços” desse texto vou aproveitar aqui para opinar “seriamente”.
    Primeiro: interessante tu produzir o texto ( alguém me disse uma vez que quando escrevemos estamos nos mostrando) e pensar em quem vai recebe-lo, o aluno. São professores assim que darão novo rumo à educação.
    Segundo: o assunto é fantástico quando se entende que “ninguém” entende filosofia, que ela parece cercada de estigmas. Entendi que tu intercalou pensamentos do senso comum com Filosofia, fazendo uma abordagem histórica. Provavelmente despertou alguns questionamentos nos destinatários, talvez a possibilidade de “sair da caverna”

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