Publicado em Citações, Filosofia da Ciência

A tese determinista

” […] Não é, entretanto, tão difícil como alguns têm pensado, dizer o que significa a tese determinista. Eu argumentei alhures que a causalidade ‘nos objetos’ (como oposta ao nosso conceito de causalidade) pode ser analisada em termos de complexas regularidades em conjunto com certos tipos de continuidade de curso e (para prover a direção da causalidade, a assimetria de causa e efeito) da noção de um único e fixo evento resultante de sua causa. Assim, a tese determinista é de que para cada evento há uma causa antecessora suficiente, isto é, um conjunto de acontecimentos e condições temporalmente anterior que é suficiente, de acordo com alguma regularidade, para apenas tal evento e que conduz a ele através de um processo qualitativamente contínuo.

Esta tese seria falsificada se houvesse duas situações antecessoras que fossem semelhantes em todos os aspectos relevantes, mas que tivessem conseqüências diferentes. Nós fazemos progresso a seu respeito, confirmando-a, na medida em que encontramos o que parecem ser explicações causais satisfatórias de mais e mais tipos de acontecimentos. Esta é uma tese empírica, que apenas o progresso da ciência irá gradualmente confirmar ou talvez, mais dramaticamente, desmentir. Este ponto de vista problemático do determinismo pode ser defendido por um exame de alguns dos argumentos a priori ou do perfil geral de argumentos que têm sido desenvolvidos em cada lado.

Tem sido dito que o determinismo é um pressuposto necessário à ciência; mas de modo errôneo: algumas teorias científicas, tais como a mecânica quântica, seguem adiante muito bem sem ele. A verdade apenas é que o determinismo com relação a classes específicas de fenômenos é frequentemente uma hipótese funcionando. Em qualquer caso, se a ciência pressupusesse determinismo, isto mais enfraqueceria do que reforçaria a tese, por tornar impossível para a ciência testá-la e também comprová-la. […]”

(MACKIE, J.L. Ethics: Inventing Right and Wrong, London: Penguin Books, 1977, Cap 9, “Causal Determinism and Human Action”, trecho traduzido por mim – ver o livro em Amazon.com).

Autor:

I'm a doctoral student in Philosophy at Federal University of Santa Maria, Brazil. My research focuses on the practical role of decisions on certain practical aspects of our lives, including responsibility and punishment. I'm also interested in assessing the impact of empirical studies on discussions about free will. More at: https://fischborn.wordpress.com

4 comentários em “A tese determinista

  1. Vejo com bastante clareza que a Lei da Causalidade deve ser tomada dentro da ciência como uma hipótese, sujeita à revisão e inverificadavel, contudo, tão dispensável quanto qualquer outra hipótese. Temos de concebê-la dessa maneira para que ela não sirva como um entrave dogmático ao avanço da ciência.

  2. Talvez infelizmente, mas não estou totalmente de acordo. Por mais que eu admita a dispensabilidade deste conceito (o de causalidade) eu não o colocaria no mesmo hall de outros, já que ele subjaz todo um horizonte conceitual. Abdicá-lo não seria uma atitude isolada, envolveria toda uma sucessão de conceitos que cairiam por terra.

    (Notem a ironia por detrás deste conceito colossal…)

    1. A questão não é a dispensabilidade do conceito, mas sim se a causalidade é uma lei física que realmente existe em nosso mundo e que determina os acontecimentos.
      então não é uma questão filosófica de análise e aceitação ou rejeição conceitual, é uma questão prática de ciência, ou então de uma meta-física que tentará provar ou não a priori a necessidade no mundo, mas isso aí me ssoa muito mais a dogmatismo.
      mas de fato alguns ramos da ciência a utilizam e outros não, e ambos colhem os frutos desta posição.

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