Publicado em Citações, Filosofia, Filosofia da Ciência

Filósofos, Filosofia e Psicanálise I

Quero com este post trazer ao blog um tema que é novo para mim. Trata-se da psicanálise (sob a forma de filosofia da psicanálise ou da psicologia), e o que me chama a atenção nesse assunto é a diversidade de opiniões que os mais variados filósofos contemporâneos tiveram ou têm a este respeito. O assunto sem dúvida é polêmico e não acabado. Para introduzir o tema aqui vou fazer citações da filósofa e psicanalista Marcia Cavell e do Filósofo John Searle. O que chamará a atenção são as posições radicalmente opostas que os dois mantém. (Faço ao mesmo tempo uma propaganda do livro de Cavell e convido quem já o tenha lido, ou quem simplesmente esteja interessado no assunto, a comentar).

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Trecho de Marcia Cavell, Becoming a Subject – Reflections in Philosophy e Psychoanalysis (New York: Oxford University Press, 2006), 3-5pps:

“ A direção de influência entre filosofia e psicanálise vai em ambas as direções. Como uma teoria dedicada ao que é ser uma pessoa, a ampliar (como uma questão de prática) o escopo no qual agimos em algum sentido livremente, e com o auto-conhecimento, a psicanálise pode aprender com a filosofia, uma vez que é aí que ocupou-se mais atenciosamente destes temas. Em retorno, tratamentos filosóficos deles demandam, eu acredito, reconhecimento de algumas alegações básicas da psicanálise.
Entre as duas disciplinas há uma grande área de sobreposição e, obviamente, muitas diferenças, uma das quais é que em filosofia e nas ciências duras o particular entra principalmente na forma de instância e exemplo, enquanto que, tanto em sua teoria quanto em sua prática, a psicanálise precisa glorificar o fato de que nunca dois seres humanos são mais do que grosseiramente semelhantes. Freud tem sido algumas vezes criticado por assumir que há tal coisa como uma natureza humana, ou um conjunto de generalizações que podem ser feitas a respeito de todas as pessoas em todos os tempos. Eu não estou certa de que ele assume isso. Ele certamente acredita que grandes perturbações na cultura podem mudar o que temos tomado como sendo o natural e universal. (Pense em Totem and Taboo e Civilization and its Discontents.) Mas, de qualquer modo, embora a psicanálise frequentemente faça vastas generalizações sobre desenvolvimento, ela não generaliza sobre ‘o sujeito’; ela toma cada um de nós como sendo único de um modo como qualquer tipo de ‘ciência’ possível sobre nós deve moldar-se. Devesse a psicanálise abandonar tal perspectiva, como ela faria se, por exemplo, decidisse que o discurso sobre o mental poderia ser completamente substituído por um discurso sobre circuitos neurais, e ela estaria morta. Mas, longe de mover-se em tal direção, analistas estão cada vez mais cientes, precisamente, de quão complexas são as variáveis que afetam o que cada um de nós sente, pensa, ou diz à sua analista, e a própria relação analítica.
Psicanálise, portanto, é, e deve ser, uma ciência “peculiar”, como se reflete no fato de “psicanálise” referir-se, de uma só vez, a uma teoria da mente, um método de prática clínica, e uma teoria sobre essa prática. Talvez essa peculiaridade seja uma das fontes do espanto que ela tão frequentemente levantou. Embora eu acredite que haja também outras.
Por um longo período, filósofos, interessantemente mais na Grã-Bretanha que na América, souberam que seus interesses filosóficos amarravam-se na psicanálise. Da Grã-Bretanha, pense em Stuart Hampshire, Ludwig Wittgenstein, John Wisdom, Richard Wollheim, Alasdair MacIntyre, David Pears, James Hopkins, Sebastian Gardner, David Snelling; dos Estados Unidos e Canadá: Herbert Fingarette (cujo trabalho tem sido, em minha opinião, insuficientemente aproveitado), Richard Kuhns, Stanley Cavell, Jonathan Lear, Jerome Neu, Donald Davidson, Ronald de Sousa, Adolph Grunbaum (em desprezo).” (Minha Tradução).

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Agora o Searle. Ele fala da psicologia Freudiana em particular. O livro é Mente, Linguagem e Sociedade – Filosofia no mundo real (Rio de Janeiro: Rocco, 2000 [originalmente de 1998]). Searle fala da psicologia como um dos ataques à visão moderna (iluminista) do mundo e do homem:

“… a psicologia freudiana foi considerada não como uma porta de entrada para uma racionalidade melhorada, mas sim como uma prova da impossibilidade da racionalidade. Segundo Freud, a consciência racional é apenas uma ilha no oceano do inconsciente irracional.” (p.12-13)

E, rejeitando esse ataque:

“… a psicologia freudiana, qualquer que tenha sido sua contribuição definitiva para a cultura humana, não é mais levada a sério como teoria científica. Ela continua a existir como fenômeno cultural, mas poucos cientistas sérios acreditam que forneça uma explicação cientificamente consistente do desenvolvimento psicológico e da patologia humanos.” (p.14)

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A forma como Searle trata do assunto é de visível desprezo. Outro filósofo famoso por criticar o status de “ciência” da psicanálise foi Karl Popper. Mas, como Cavell mencionou, vários outros filósofos de peso abordaram questões que se ligavam à psicanálise, como Wittgenstein e Davidson. A questão sem dúvida é intrigante.

* O texto de Cavell pode ser visualizado no Google Books, aqui.

Livros:
Cavell, M. Becoming a subject: ver em Amazon.com.
Searle, J. Mind, language and society:  ver em Amazon.com.

Autor:

I'm a doctoral student in Philosophy at Federal University of Santa Maria, Brazil. My research focuses on the practical role of decisions on certain practical aspects of our lives, including responsibility and punishment. I'm also interested in assessing the impact of empirical studies on discussions about free will. More at: https://fischborn.wordpress.com

2 comentários em “Filósofos, Filosofia e Psicanálise I

  1. Sem dúvida essa é uma das maiores querelas contemporâneas que a filosofia mantém com uma área de conhecimento humano. Se é cultural apenas ou se se mostra como um arcabouço do escopo científico, isso eu não posso determinar. Sem dúvida alguma, porém, a psicanálise adentrou (talvez um pouco à força) em nosso cotidiano e em nossa visão senso-comum da ciência. Nesse sentido é difícil sairmos do jargão “Freud explica”, se explica bem são outros quinhentos…
    Acredito que se deve olhar para a psicanálise, bem como para qualquer outra pretensão de conhecimento do humano, com olhos sagazes e críticos. O racionalismo crítico de Popper, talves um tanto exagerado, é algo que vem como que um caçador em busca de uma presa. Searle, por sua vez, também atua como carrasco. Só não consigo imaginar o que Freud diria de nossa contemporaneidade em que jorra sexualidade. Ao contrário de sua época, a nossa não necessita de tantos “símbolos fálicos”, pois são explicitamente colocados aos olhos de todos não os símbolos, mas sim o próprio phalus. Enfim, gosto de pensar humoristicamente essa questão, como o Analista de Bagé: “Símbolo fálico é o cacete!”

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