Se a religiosidade cura, o que ganham as religiões?

O texto que reproduzo abaixo foi publicado na página 2, seção “Palavra do Leitor” do jornal ARAUTO de Vera Cruz-RS. A edição é de sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010. Críticas serão bem-vindas.

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Se a religiosidade cura, o que ganham as religiões?

Marcelo Fischborn

No artigo “Oração e cura – fato ou fantasia?” (publicado neste espaço na terça-feira, dia 2 de fevereiro de 2010), Roque M. Savioli afirma que pesquisas científicas têm sugerido que a religiosidade pode trazer benefícios à saúde e qualidade de vida das pessoas. As minhas questões aqui são as seguintes: se o que Savioli fala é verdadeiro, o que ganham (1) as religiões em geral e (2) as religiões teístas em particular? Faço essas perguntas, pois penso que muitas pessoas poderiam ver aí um importante apoio científico para as religiões. Como mostrarei a seguir, discordo dessa ideia. Entretanto, não pretendo que minhas respostas sejam definitivas; antes, elas devem abrir a discussão.

Segundo Savioli, existe uma discussão polêmica sobre a relação entre fé religiosa e melhoria de saúde. No âmbito científico essa discussão teria se iniciado no século passado, quando médicos e cientistas não conseguiram explicar supostas curas pela fé e, tampouco, puderam detectar algum tipo de fraude. Após um progressivo aumento de pesquisas científicas sobre o assunto, Savioli diz que muitas delas apontaram para a existência de uma associação entre envolvimento religioso e saúde. Segundo o autor, uma das explicações desse fenômeno existentes atualmente atribui à atividade religiosa a capacidade de diminuir os níveis de estresse. Conjuntamente, diversas pesquisas associam estresse elevado com o desenvolvimento de várias patologias. Assim, finaliza Savioli, a fé religiosa poderia atuar no âmbito psíquico (aliviando o estresse), e isso ajudaria a evitar diversos tipos doenças (uma vez que o plano psicológico interage com outros sistemas, como o imunológico e o neurológico). Resumidamente, a fé ajudaria a combater o estresse, e isso poderia ajudar a prevenir doenças e aumentar a expectativa de vida.

Quanto à primeira pergunta, inicialmente parece que as religiões sairiam favorecidas, uma vez que poderiam auxiliar na cura de doenças. A ciência estaria, inclusive, reconhecendo este suposto poder. Entretanto, se é a prática religiosa que traz benefícios à saúde do praticante, então a prática de qualquer religião deve trazer os mesmos benefícios. A menos que se comprove que a religião x faz bem e a y não, todas as religiões estão no mesmo nível para a ciência. Assim, nenhuma religião em particular sai beneficiada, se a ciência comprova apenas que a religiosidade faz bem à saúde. Por outro lado, todas elas são glorificadas apenas pelos benefícios que podem trazer. A religião é, assim, valorizada como meio para um fim (saúde), e não por qualquer elemento constitutivo de seus princípios e crenças. Penso que os defensores de alguma religião não veriam com bons olhos essa situação. Cada religião pretende ser sempre a melhor; não mais uma, mas a religião. Assim, se de fato a ciência mostra que a religiosidade favorece a saúde, isso não deve ser visto como um favor da ciência a qualquer religião em particular.

E quanto às religiões teístas? Aqui, penso que elas sofrem uma desvantagem. Isso se deve ao fato de existirem religiões, como a budista, por exemplo, que não cultuam um Deus. Se o benefício da religião está em praticá-la (na atividade, portanto), e existem religiões que dispensam uma divindade, então esta se torna dispensável para os benefícios à saúde. A noção de Deus não recebe nenhum apoio científico. Ao contrário: atribuir o poder de cura à atividade religiosa que diminui o estresse pode forçar-nos a admitir que esse poder não é divino. Assim, as comprovações da ciência dispensam qualquer noção de um Deus poderoso.

Finalizando, defendi que as religiões em geral não são favorecidas pela comprovação científica de benefícios da religiosidade à saúde. Há sim um ponto favorável às religiões, mas, como defendi, este ponto não deve ser bem recebido pela maioria das religiões. Quanto às religiões teístas, falei que a noção de uma divindade é também desfavorecida, por tornar-se dispensável.

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4 comentários em “Se a religiosidade cura, o que ganham as religiões?

  1. Marcelo,
    Tua análise é bem precisa e digna de nota.Acredito que nenhuma religião irá tomar esta pesquisa como uma anconra de defesa de sua fé,já que geralmente as curas, no âmbito religioso, são atribuidas a eventos sobrenaturais e não a processos psiquicos.

  2. Gostaria de enviar um texto que tive a oportunidade de ler e gostei muito, autor ainda não reconhecido, para tal gostaria de receber um endereço eletronico.

  3. Aqui está um bom exemplo de com se faz filosofia! Gostei do modo como teces a argumentação e penso que se pode endossar as conclusões que apresentas.

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