Publicado em Citações, Epistemologia, Filosofia para Ensino Médio, Metafísica

Cores e Filosofia – Platão

É a natureza das cores um assunto trivial? É simples!? Ou seriam as cores “dignas” de uma abordagem filosófica? Penso que muitas pessoas não sabem que as cores são um assunto muito intrigante em filosofia. Segundo a Enciclopédia Stanford, por exemplo,

“Cores são de interesse filosófico por dois tipos de razões. Uma delas é que as cores abrangem uma ampla e importante porção de nossa vida social, pessoal e epistemológica e, assim, uma abordagem filosófica de nossos conceitos de cor é altamente desejável. A segunda razão é que tentar enquadrar as cores em abordagens metafísicas, epistemológicas e científicas conduz a problemas filosóficos intrigantes e difíceis de resolver. Não surpreendentemente, estes dois tipos de razões estão relacionados. O fato das cores serem tão significantes por seu próprio mérito, torna mais urgentes os problemas filosóficos de enquadrá-las num sistema (framework) metafísico e epistemológico mais amplo.”1

Feita esta apresentação geral, gostaria de mostrar aqui que não é de hoje que as cores são objeto de interesse dos filósofos. No diálogo Mênon, de Platão, por exemplo, Sócrates define “figura” para que Mênon tenha um modelo de definição (que ele deverá aplicar posteriormente para definir a virtude):

“SO. […] Examina então se aceitas que ela [a figura] é o seguinte: seja pois a figura, para nós, o único entre os seres que acontece sempre acompanhar a cor.”2

A definição de Sócrates apelou para a noção de cor. Mas Mênon não se contenta com essa definição de figura e, pouco mais à frente no diálogo, pede também uma definição de cor. A isso, Sócrates responde:

“SO. Não é verdade que falais de certas emanações dos seres, segundo <a teoria de> Empédocles? –MEN. Certamente. –SO. E também de poros, para os quais e através dos quais correm as emanações? –MEN. Perfeitamente. –SO. E, dentre as emanações, <não dizeis que> algumas se adaptam a alguns dos poros, enquanto outras são menores ou maiores? –MEN. É assim. –SO. E há também, não é?, algo a que dás o nome de visão. –MEN. Há. –SO. A partir disso tudo então, “atende ao que digo”, <como> diz Píndaro. A cor é pois uma emanação de figuras de dimensão proporcionada à visão e <assim> perceptível.”3

Como vemos, no trecho acima, Sócrates dá uma definição de cor valendo-se da teoria de Empédocles. Embora muito tempo tenha se passado de Platão até nossos dias, o assunto das cores (como muitos outros assuntos filosóficos) continua controverso. São as cores qualidades puramente objetivas, isto é, que pertencem aos objetos físicos que vemos? Ou seriam elas, de alguma forma, relativas aos observadores? Em que podem nos ajudar explicações do daltonismo ou abordagens fisiológicas da percepção visual? O tema é sem dúvida quente!

1 Tradução minha da introdução de MAUND, Barry, “Color”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2008 Edition), Edward N. Zalta (ed.), URL = <http://plato.stanford.edu/archives/fall2008/entries/color/>.

2Platão, Mênon, 74c (Trad. de Maura Iglésias; Ed. Puc-Rio, Loyola; 2001).

3Ibid. 76d.

Autor:

I'm a doctoral student in Philosophy at Federal University of Santa Maria, Brazil. My research focuses on the practical role of decisions on certain practical aspects of our lives, including responsibility and punishment. I'm also interested in assessing the impact of empirical studies on discussions about free will. More at: https://fischborn.wordpress.com

Um comentário em “Cores e Filosofia – Platão

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s