Publicado em Citações, Filosofia da Mente

Davidson sobre Conceitos

“Há muitas pessoas, incluindo filósofos, psicólogos e particularmente aqueles que admiram a inteligência surpreendente de animais sem linguagem (speechless), que identificam a habilidade de discriminar itens que têm certa propriedade com ter um conceito – com ter o conceito de ser um tal item. Mas eu não usarei a palavra ‘conceito’ desse modo. Minha razão para resistir a esse uso é que, se o aceitássemos, estaríamos comprometidos em defender que os mais simples animais têm conceitos: mesmo uma minhoca, que tem um cérebro tão pequeno que, se cortada em duas, cada parte comporta-se como a inteira não-dividida se comportava, teria os conceitos de seco e úmido, do comestível e não-comestível. De fato, deveríamos creditar tomateiros ou girassóis com os conceitos de dia e noite.

Eu preferirei, portanto, reservar a palavra ‘conceito’ para casos onde faça claramente sentido falar de um engano (mistake), um engano não apenas como visto do ponto de vista de um observador inteligente, mas como visto do ponto de vista da criatura. Se uma minhoca come veneno, ela não cometeu um engano nesse sentido – ela não confundiu (mistaken) uma coisa com outra: ela simplesmente fez o que está programada para fazer. Ela não classificou erroneamente o veneno como comestível: o veneno simplesmente forneceu o estímulo que a fez comer (caused it to eat). Mesmo uma criatura capaz de aprender a evitar certos alimentos, não pode, por esta razão sozinha, ser dita ter os conceitos de comestibilidade e incomestibilidade. Uma criatura poderia construir um ‘mapa’ do seu mundo sem ter a ideia de que aquilo era um mapa de alguma coisa – que era um mapa – e, assim, poderia estar errado.

Aplicar um conceito é fazer um juízo, classificar ou caracterizar um objeto, evento ou situação de um certo modo, e isso requer aplicação do conceito de verdade, uma vez que é sempre possível classificar ou caracterizar erroneamente alguma coisa. Ter um conceito, no sentido que estou dando à palavra, é, então, ser capaz de portar [manter, entertain] conteúdos proposicionais: uma criatura tem um conceito somente se é capaz de empregar tal conceito no contexto de um juízo. Poderia parecer que alguém teria o conceito de, digamos, uma árvore, sem ser capaz de pensar que, ou admirar-se que, algo é uma árvore, ou desejar que haja uma árvore. Entretanto, tal conceitualização não remeteria a mais que ser capaz de discriminar árvores – agir de algum modo específico na presença de árvores – e isso, como eu disse, não é o que eu chamaria de ter um conceito. Para reverter para um ponto anterior: dada a teoria da evolução, não é difícil imaginar uma explicação primitiva da faculdade de discriminação: um colibri, por exemplo, sobrevive porque está programado a alimentar-se de flores na variedade de cores vermelhas e infravermelhas, e essas são as flores que contêm os alimentos que tendem a sustentar o colibri. Não é fácil dizer o que deve ser acrescentado ao poder de discriminação para transformá-lo em domínio de um conceito.

Esses atributos mentais são, assim, equivalentes: ter um conceito, manter proposições, ser capaz de fazer juízos, ter o domínio do conceito de verdade. Se uma criatura tem um desses atributos, ela tem todos. Aceitar essa tese é dar o primeiro passo em rumo a reconhecer o holismo – isto é, a interdependência essencial – de vários aspectos do mental.” (“The Problem of Objectivity” em Problems of Rationality, Oxford: Clarendon Press, 2004, pp8-9, minha tradução).

Autor:

I'm a doctoral student in Philosophy at Federal University of Santa Maria, Brazil. My research focuses on the practical role of decisions on certain practical aspects of our lives, including responsibility and punishment. I'm also interested in assessing the impact of empirical studies on discussions about free will. More at: https://fischborn.wordpress.com

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