Liberdade e Ressentimento

Há um problema filosófico muito discutido que diz respeito à compatibilidade, ou não, da verdade da tese do determinismo e a legitimidade de noções morais, tais como responsabilidade, culpa, etc. O conflito poderia ser enunciado da seguinte maneira: se todas as nossas ações estão determinadas, então não pode haver culpa nem mérito moral. Como eu poderia ser culpado, ou receber o mérito de algo, se não escolhi ou agi por livre escolha?

Muitos filósofos, entretanto, defenderam, e por razões diversas, que não há conflito entre as noções morais e o determinismo, ou mesmo, entre determinismo (ou necessidade) e liberdade. Há os que dizem, inclusive, que pior seria se fosse verdadeiro o indeterminismo.

Uma posição famosa nessas discussões é a de Peter Strawson. Abaixo segue uma tradução da apresentação da sua posição que é feita na Stanford Encyclopedia of Philosophy:

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Strawson sempre brincou que se voltaria à filosofia moral somente quando suas forças estivessem se acabando (waning). Ele escreveu demasiado pouco sobre isso, mas sua principal contribuição, “Freedom and Resentment” (Strawson, 1960. Em português, “Liberdade e Ressentimento”), é hoje talvez seu artigo mais famoso e amplamente discutido. O objetivo de Strawson é dissolver o, assim chamado, problema do determinismo e responsabilidade. Seu argumento é que nossas “atitudes reativas”, para com os outros e nós mesmos, tais como atitudes de gratidão, ódio, simpatia e ressentimento, são naturais e irrevogáveis. A presença delas, portanto, não necessita uma autorização (entitlement) abstrata da filosofia, a qual é simplesmente irrelevante para a existência ou justificação das mesmas. Não pode haver princípios abstratos a priori localizando condições metafísicas gerais para tais atitudes. Sua alegação, é que nossa prática de julgar nós mesmos, ou um outro qualquer, como responsáveis por ações é, de modo similar, natural e independente de requisitos metafísicos gerais. Entre o determinismo e a responsabilidade não pode haver conflito. Poder-se-ia ver nisso uma aplicação de algumas ideias de caráter Humeano, para um domínio ao qual o próprio Hume não estava inclinado a aplicá-las.

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Tradução de Marcelo Fischborn, da seção “8.5 Freedom and Resentment” em

Snowdon, Paul, “Peter Frederick Strawson”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2009 Edition), Edward N. Zalta (ed.), URL = <http://plato.stanford.edu/archives/fall2009/entries/strawson/&gt;.

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2 comentários em “Liberdade e Ressentimento

  1. Olá Marcelo,
    Acredito que este ponto é muito instigante, ainda que haja um bom material sobre isso para ser lido, arrisco-me a propor que o determinismo das ações não implica inculpabilidade, já que atribuir culpa ou mérito a um indivíduo está ligado a execução da ação e não as causas que o levaram a agir de um tal modo.

    Abraço,

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