Publicado em Filosofia da Mente, Metafísica

Davidson e o Pensamento

Uma das perguntas que o filósofo Donald Davidson tentou responder foi a seguinte: o que torna possível o pensamento? Antes de mais nada se faz necessário dizer o que ele entendia por pensamento: pensamentos (segundo ele) têm conteúdo proposicional (que pode ser verdadeiro ou falso) e são coisas como crenças, quereres, dúvidas, expectativas e semelhantes.

Abaixo segue uma tradução minha de um trecho que fala desse asunto. Uma curiosidade é que ele distinguiu duas perguntas: (a) O que torna o pensamento possível? (que seria a questão filosófica); e (b) Por que existe o pensamento? (uma questão científica, segundo ele). Mais curioso ainda é que muitas das críticas que foram e continuam sendo dirigidas a Davidson usam de alguma forma resultados de pesquisas científicas (principalmente das chamadas ciências cognitivas).

“Devemos nos espantar por haver uma tal coisa como o pensamento. Por pensamento não quero dizer apenas afirmação ou negação, mas dúvida, intenção, crença, desejo ou a contemplação ociosa de possibilidades. O que define pensamento, tal como eu uso a palavra, é o conteúdo proposicional, e o que define conteúdo proposicional é a possibilidade de verdade ou falsidade: um conteúdo proposicional tem condições de verdade, mesmo se não é nem verdadeiro nem falso.

Há ao menos duas razões por que deveríamos ficar espantados com a existência do juízo. A primeira é que não é de modo algum claro por que ele existe; a segunda é que é difícil entender até mesmo o que o torna possível. A respeito do primeiro ponto tenho pouco a dizer, uma vez que a resposta à questão de por que existe o juízo teria que nos dizer por que a evolução produziu criaturas que podem manter (entertain) proposições, e isso é assunto para especulação ou descoberta por cientistas. A causa para espanto (como Kant disse) é que parece que poderíamos operar no mundo, ao menos tão eficientemente quanto o fazemos, sem o uso de atitudes proposicionais. A habilidade de discriminar, agir de modo diferenciado na presença de indícios de comida, perigo ou segurança, está presente em todos os animais, e não requer raciocínio. Nem mesmo o aprendizado, mesmo de hábitos complexos, requer raciocínio, pois é possível aprender como agir sem aprender que qualquer coisa seja o caso. Uma criatura tão capaz quanto somos de comportamento adaptativo não-treinado (unrehearsed) poderia ser programada pela natureza para fugir do perigo e preservar sua saúde e conforto, sem aquilo que chamamos pensamento.” (Davidson, “The problem of objectivity” [1995], em Problems of Rationality. Oxford: Clarendon Press, 2004).

Autor:

I'm a doctoral student in Philosophy at Federal University of Santa Maria, Brazil. My research focuses on the practical role of decisions on certain practical aspects of our lives, including responsibility and punishment. I'm also interested in assessing the impact of empirical studies on discussions about free will. More at: https://fischborn.wordpress.com

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