Publicado em Citações, Epistemologia, Filosofia da Linguagem

Epistemologia no espelho do significado

As passagens abaixo são do artigo “Thought and Talk” (Pensamento e Fala), de Donald Davidson (em Inquiries into Truth and Interpretation). O assunto abordado é a possibilidade ou não de a maior parte de nosso conjunto de crenças ser falsa. O ponto de Davidson parece ser que mesmo a possibilidade de certos desacordos requer um conjunto amplo de crenças compartilhadas. (Obs: O post também pode ser visto como um complemento/resposta a este aqui, no blog do Elano Bezerra.)

Mas certamente não pode ser assumido que falantes nunca têm crenças falsas. O erro é o que dá à crença seu traço característico (point). Podemos, entretanto, tomar como dado que a maioria das crenças são corretas. A razão para isso é que uma crença é identificada por seu lugar em um padrão de crenças; é esse padrão que determina o conteúdo da crença, aquilo sobre o que a crença é. Antes que um objeto ou aspecto do mundo possa tornar-se parte do conteúdo (subject matter) de uma crença (verdadeira ou falsa), tem de haver infindáveis crenças verdadeiras sobre o conteúdo (subject matter). Crenças falsas tendem a enfraquecer a identificação do conteúdo; enfraquecer, portanto, a validade de uma descrição da crença como sento a respeito de tal assunto. E assim, por sua vez, crenças falsas enfraquecem a alegação de que uma crença aparentada é falsa. Para tomar um exemplo, quão claro estamos de que os antigos – alguns antigos – acreditaram que a Terra era plana? Esta Terra? Bem, esta Terra nossa é parte do sistema solar, um sistema parcialmente identificado pelo fato de que é uma multidão de grandes corpos, frios e sólidos, girando em volta de uma estrela quente e enorme. Se alguém não acredita em nada disso a respeito da Terra, é certo que é a respeito da Terra que está pensando? Não é exigida uma resposta. Atingimos o ponto se esse tipo de consideração sobre crenças relacionadas pode abalar a confiança de alguém de que os antigos acreditavam que a Terra era plana. Não é que qualquer crença falsa destrói necessariamente nossa habilidade de identificar as demais crenças, mas que a inteligibilidade de tais identificações tem de depender de um plano de fundo de crenças verdadeiras, em sua maioria não-mencionadas e não-questionadas. Colocando de outro modo: quanto maior o número de coisas a respeito das quais aquele que acredita estiver certo, mais pontuais serão seus erros. Erros em excesso simplesmente obscurecem o foco. (p.168)

Alguns desacordos são mais destrutivos ao entendimento que outros, e uma teoria sofisticada tem que, naturalmente, levar isso em conta. Desacordo sobre questões teóricas podem (em alguns casos) ser mais toleráveis que desacordos sobre o que é mais evidente; desacordo sobre como as coisas parecem, ou sobre com a que se assemelham, é menos tolerável que desacordo sobre como elas são; desacordo sobre a verdade de atribuições de certas atitudes a um falante por esse mesmo falante pode, certa ou simplesmente, não ser tolerável. É impossível simplificar as considerações que são relevantes, pois tudo o que sabemos ou acreditamos sobre o modo como a evidência sustenta crenças pode ser usado (put to work) para decidir onde a teoria pode melhor permitir erro, e quais erros são menos destrutivos do entendimento. A metodologia de interpretação é, a esse respeito, nada mais que a epistemologia vista no espelho do significado.(p.169)

Autor:

I'm a doctoral student in Philosophy at Federal University of Santa Maria, Brazil. My research focuses on the practical role of decisions on certain practical aspects of our lives, including responsibility and punishment. I'm also interested in assessing the impact of empirical studies on discussions about free will. More at: https://fischborn.wordpress.com

Um comentário em “Epistemologia no espelho do significado

  1. O texto é bem instigante e requer uma apreciação cuidadosa. Então reservo-me a comentar a parte seguinte:
    “Antes que um objeto ou aspecto do mundo possa tornar-se parte do conteúdo de uma crença (verdadeira ou falsa), tem de haver infindáveis crenças verdadeiras sobre o conteúdo.”
    Esta parte é muito complicada, e até chega a parecer que estamos diantes de uma contradição, pois se o conteúdo de alguma crença for verdadeiro, está tudo bem, mas se for falso, parece irracional alguém ter crença verdadeira que acredita numa falsidade.

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