Publicado em Filosofia, Filosofia da Linguagem, Filosofia para Ensino Médio, Lógica, Minha Opinião

A verdade e a falsidade de afirmações universais

Eu tenho me convencido ultimamente que ensinar um conjunto mínimo de noções de filosofia da linguagem e de lógica no Ensino Médio pode bem ser a melhor maneira de promover o tão esperado senso crítico ou educação para a cidadania. E isso se deve justamente ao caráter formal, abstrato ou desprovido de conteúdo desses conhecimentos. Aprender essas noções mínimas de lógica e filosofia da linguagem não é aprender um conjunto de verdades, que a partir de então seriam aceitas como incontestáveis. Não! Aprender essas noções mínimas é essencialmente uma questão de adquirir um conjunto de técnicas, instrumentos ou habilidades que podem ser aplicados a toda e qualquer pretensão de verdade que tenhamos em nossas vidas diárias.

Um conjunto de esclarecimentos que penso serem do tipo que mencionei acima diz respeito às condições de verdade de afirmações universais. Quero considerar aqui afirmações do tipo:

  1. “Todas os casos de aborto são moralmente errados”; e
  2. “Nenhum político é sincero”.

Essas afirmações são chamadas universais por dizerem algo acerca de todas as coisas de um certo tipo – políticos, abortos etc. A afirmação (1), por exemplo, diz que todo e qualquer caso de aborto é moralmente errado; a afirmação (2) é universal (porém negativa) por dizer que todo e qualquer político não é sincero.

Falar das condições de verdade de uma afirmação é falar sobre as condições que, se preenchidas, mostrariam que ela é verdadeira ou falsa. No caso das afirmações universais é mais fácil falar primeiro das condições em que elas são falsas.

Voltemos aos exemplos. Para que a afirmação (1) seja falsa basta que exista um único caso de aborto que não seja moralmente errado. Temos vários exemplos disso: casos de aborto em que a concepção foi resultado de estupro ou (se você não concorda com esse caso) abortos espontâneos não são moralmente errados. Portanto, a afirmação (1) é falsa.

No caso da afirmação (2), também é mais fácil dizer em que caso ela seria falsa. Para que (2) seja falsa basta existir um único político que é sincero. (2) diz que todos os políticos não são sinceros e, portanto, um único caso de político que é sincero mostra que (2) é falsa. Assim, se você conhece um político sincero, então você não pode tomar por verdadeira a afirmação (2).

Agora, em que casos seriam verdadeiras as afirmações universais? Se uma afirmação universal é verdadeira, isso implica que entre todas coisas ou indivíduos sobre os quais ela fala não existe nenhum que contradiga o que é afirmado sobre eles. Por exemplo, para que fosse verdadeira a afirmação (1), não poderia existir nenhum caso de aborto que fosse moralmente aceitável. Para que (2) fosse verdadeira, também, não poderia haver um único político sequer que fosse sincero.

A grande dificuldade em estabelecer a verdade da maioria das afirmações universais é que nossas capacidades de conhecimento (ou cognitivas) não conseguem varrer todos os casos abrangidos e conferir se estão de acordo com o que é dito a seu respeito. Estabelecer a verdade delas exigiria percorrer todo um grupo de indivíduos – os abortos ou os políticos, por exemplo – e constatar que ali não existe nenhum caso que contradiga o que foi afirmado sobre eles – que todos os casos de aborto investigados são errados e que cada um de todos os políticos investigados não é sincero.

O problema é que em muitos casos isso é praticamente irrealizável. Em muitos casos as afirmações universais falam de coisas que não estão acessíveis a nós. Isso pode se dar quando ela fala sobre casos passados ou futuros que não estão mais, ou ainda, acessíveis (ex: “Nenhum dinossauro tinha cinco pernas”), quando ela fala sobre coisas às quais não temos acesso (ex: “Todas as galáxias têm buracos negros”) entre outros casos.

Um fato curioso é que a maioria dos preconceitos são sustentados de maneira universal. Sendo assim, temos agora a chave para combatê-los: basta encontrar um único caso que contradiga a afirmação universal. É por isso, também, que é prudente conferir o estatuto de hipótese à grande maioria das afirmações universais. Geralmente não temos em mãos todos os casos que precisaríamos investigar a fim de estabelecer a verdade de uma afirmação universal. Isso implica que não estamos livres de encontrar em breve um caso mostrando que uma afirmação universal é falsa e precisa ser abandonada.

Autor:

I'm a doctoral student in Philosophy at Federal University of Santa Maria, Brazil. My research focuses on the practical role of decisions on certain practical aspects of our lives, including responsibility and punishment. I'm also interested in assessing the impact of empirical studies on discussions about free will. More at: https://fischborn.wordpress.com

4 comentários em “A verdade e a falsidade de afirmações universais

  1. Marcelo:
    Adorei suas reflexões, embasadas na realidade do cotidiano! Vc tem me ajudado bastante! Vou mudar um bocado de coisas na próxima edição do livro. Essa sua maneira de enfocar a questão de “Verdade universal” é a mais lógica que já vi. Às vezes é necessário que alguém mude a direção de nosso olhar para que vejamos a mesma coisa de forma diferente.
    Como lhe disse, apesar de minha idade, experiência e titulação, sou uma pessoa naturalmente humilde, o que me ajuda a ter a cabeça sempre aberta, pronta a receber críticas e mudar meu comportamento. Como dizia meu primo Darcy Ribeiro, respeitado em todo o mundo como antropólogo e educador: “Não tenho compromisso algum com minhas opiniões, pois elas podem mudar a qualquer momento”.
    Fico, entretanto, preocupada com a Editora, que sempre teve um respeito e confiança profundos em minha pessoa, tanto que trabalhei dez anos para eles como Consultora Editorial da área de Educação. Assim, passei o texto que vc criticou pelo crivo de vários doutores e a opinião de todos foi a mesma; “Vc não errou em nada; apenas poderia aprofundar a questão “empírica”.
    Por falar em Educação, tenho uma notícia que lhe interessa como futuro educador: a Editora Ideias&Letras estará, em breve, lançando o meu “Pedagogia da Transgressão – Um novo olhar sobre a Educação”.
    Parabéns pelas reflexões e um abraço,
    Maria Luiza

  2. Oi Maria Luiza Teles,

    Fico grato e feliz com tua presença aqui no blog mais uma vez. Sobre estarmos todos sujeitos a errar, eu considero que essa possibilidade é uma possibilidade real de todos os seres humanos. Eu gosto de dois textos da Susan Haack: o primeiro justamente sobre o que é esse falibilismo ao qual estamos sujeitos; e o segundo mostra por que não devemos nos desesperar diante desse falibilismo e cair num puro relativismo, no qual a própria noção de erro (e de verdade) não faria sentido… Caso tenhas interesse, seguem os links:

    http://conceitodeconhecimento.wordpress.com/2011/03/17/o-que-e-falibilismo/
    http://criticanarede.com/filos_esperaresposta.html

    Sobre este texto do meu post, veja que ele não fala de “verdade universal”, como você bem faz ao usar aspas… Ele fala sobre condições de verdade de afirmações (ou proposições) universais. A universalidade é da proposição (do conteúdo) e não diz respeito ao valor ou ao estatuto da verdade ou falsidade de tais proposições.

    Ainda, sobre meus comentários ao teu livro, eu publiquei uma resenha sobre ele na revista Crítica (http://criticanarede.com) e há também um espaço para comentários e discussões no blog da revista: http://blog.criticanarede.com/2011/05/filosofia-para-ensino-medio.html

    Caso tenhas interesse em dizer algo por lá, ou mesmo caso queira defender que minhas objeções não são bem sucedidas, seria importante fazê-lo. Dada a nossa falibilidade, penso que uma das boas vias que ainda temos para reconhecer e evitar nossos erros é discutir nossas ideias, argumentos e propostas com outras pessoas (de preferência estudiosos da área em questão).

    Grande abraço e volte sempre!

  3. Interessantíssimo, em relação a preconceitos, poderia dar um ou dois exemplos ?
    Sou professora de filosofia do estado do Pr,
    Grata

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