Publicado em Filosofia da Ação, Filosofia da Mente

Monismo anômalo: as críticas de Jaegwon Kim a Donald Davidson

Abaixo o resumo e o texto utilizado na apresentação do meu trabalho “Monismo anômalo: as críticas de Jaegwon Kim a Donald Davidson”, que apresentei agora há pouco na VIII Semana Acadêmica da Filosofia UFSM.

Resumo: Donald Davidson (1970) defendeu uma concepção sobre a relação entre eventos mentais e eventos físicos que ficou conhecida como monismo anômalo. Essa posição defende a tese de que eventos mentais individuais são idênticos a eventos físicos conjuntamente com a tese de que teorias ou predicados mentais são irredutíveis a teorias ou predicados físicos, seja por definição ou por meio de leis empíricas auxiliares. O objetivo de minha apresentação será discutir algumas críticas que Jaegwon Kim dirigiu ao monismo anômalo, especialmente a sua afirmação de que, no monismo anômalo, “eventos são causas ou efeitos somente enquanto instanciam leis físicas, e isso significa que as propriedades mentais de um evento não fazem nenhuma diferença causal” (Kim, 1989, p. 35).

Handout da apresentação: 
– As duas teses que constituem o monismo anômalo formulado por Davidson (1970):

  • Eventos mentais individuais são idênticos a eventos físicos (tese da identidade ou do monismo – token identity theory);
  • Conceitos ou teorias psicológicas são irredutíveis – quer via definição ou via leis empíricas auxiliares – a conceitos ou teorias físicas (anomalismo ou irredutibilidade do mental).

– As premissas a partir das quais Davidson defende o monismo anômalo:

  1. Princípio da interação causal: (ao menos) alguns eventos mentais interagem causalmente com eventos físicos (ver Davidson 1970: 137);
  2. Caráter nomológico da causalidade: a existência de uma relação causal entre dois eventos implica a existência de uma lei causal estrita (138);
  3. Princípio do anomalismo do mental: não há leis causais estritas explicando ou prevendo eventos mentais (138).

– Como Davidson tenta mostrar que as premissas são consistentes:

“Causalidade e identidade são relações entre eventos, não importa como descritos. Mas leis são linguísticas; e assim os eventos podem instanciar leis, e portanto ser explicados ou previstos sob a luz de leis, apenas enquanto tais eventos são descritos de uma ou outra maneira. O princípio da interação causal trata extensionalmente dos eventos e é, por isso, cego para a dicotomia mental-físico. O princípio do anomalismo do mental concerne a eventos descritos como mentais, pois eventos são mentais apenas enquanto assim descritos. O princípio do caráter nomológico da causalidade deve ser lido com cuidado: ele diz que quando eventos estão relacionados como causa e efeito, eles têm descrições que instanciam uma lei. Ele não diz que todo enunciado singular de causalidade instancia uma lei” (Davidson 1970: 141-2).

– A crítica de Kim (1989):

“O fato é que no monismo anômalo de Davidson a mentalidade [leia-se, as propriedades mentais dos eventos] não desempenha nenhum papel causal. Lembre-se: no monismo anômalo, eventos são causas ou efeitos somente enquanto instanciam leis físicas, e isso significa que as propriedades mentais de um evento não fazem nenhuma diferença causal” (Kim 1989: 35).

– A crítica de Kim (1993):

“[O monismo anômalo é compatível com a afirmação de] que eventos com uma ou outra propriedade mental sejam causas de eventos com uma ou outra propriedade física. A dificuldade que tem sido expressa pelos vários críticos […] é precisamente que a verdade dessa asserção não garante a eficácia causal das propriedades mentais” (Kim 1993: 20, itálicos adicionados).

“Davidson queixa-se que seus críticos tentaram tornar a relação binária da causalidade, ‘c causa e’, em uma relação de múltiplos termos […], possivelmente não extensional, ao empregar aquelas expressões como ‘c qua P causa e qua M’. […] Ele está ansioso por defender a causalidade como uma relação binária extensional, cujos relata são eventos concretos (‘não importa como descritos’). Mas nada disso tem muito a ver com a principal questão em jogo […]. A questão sempre foi a eficácia causal das propriedades dos eventosnão importa como eles, os eventos ou as propriedades, sejam descritos. O que os críticos argumentaram é perfeitamente compatível com a causalidade ser ela mesma uma relação extensional entre dois termos para eventos concretos; a questão deles é que essa relação não é suficiente: precisamos também de uma maneira de falar sobre o papel causal das propriedades, o papel das propriedades dos eventos para gerar, ou fundamentar, essas relações causais de dois termos entre eventos concretos” (20).

– Duas observações finais:

1. A objeção que Kim (1989) parece incorreta, porque o monismo anômalo não diz que eventos causam outros eventos em virtude de instanciarem leis de quaisquer tipos. Parece que Davidson não concede nenhuma relevância metafísica especial para o fato de a descrição de uma relação causal poder ser subsumida ou não do enunciado de uma lei causal. (A propósito disso, leis causais são apenas enunciados gerais que podem subsumir enunciados singulares da forma “c causou e”).

2. As objeções de Kim (1993), por sua vez, parecem reconhecer isso e mostrar o que parece ser a divergência real entre Davidson e seus críticos: ambos têm exigências diferentes sobre o que conta como uma boa teoria da causação mental. Uma teoria da causação mental, vale ressaltar, deve explicar de que modo acontecimentos mentais, como minha intenção de concluir a apresentação deste trabalho, podem causar coisas como os movimentos de várias células e músculos envolvidos na realização da minha ação de ler esta frase final.

Referências:
Davidson, D. 1970, “Mental events”. In: Beakley, B. e Ludlow, P. eds. (1992) The philosophy of mind: classical problems/contemporary issues. Cambridge, Mass.: MIT Press, 137-49.

Kim, J. 1989, “The myth of non-reductive materialism”. In: Proceedings and addresses of the american philosophical association 63, 31-47.

____ 1993, “Can supervenience and ‘non-strict laws’ save anomalous monism?”. In: Heil, J. e Mele, A. (eds., 1993) Mental causation. Oxford: Clarendon Press, 19-26.

Autor:

I'm a doctoral student in Philosophy at Federal University of Santa Maria, Brazil. My research focuses on the practical role of decisions on certain practical aspects of our lives, including responsibility and punishment. I'm also interested in assessing the impact of empirical studies on discussions about free will. More at: https://fischborn.wordpress.com

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