Publicado em Filosofia da Ação, Filosofia da Mente

“Ações, razões e causas”, de D. Davidson

Essays on actions and events (Clarendon Press, 2001, 2nd ed.) reúne dezessete ensaios publicados por Donald Davidson entre 1963 e 1985. Esses escritos abordam temas de filosofia da ação, da mente, ontologia, entre outros. Nas palavras introdutórias do próprio autor, o tema unificador

é o papel de conceitos causais na descrição e explicação da ação humana. A tese é que a noção ordinária de causa, que entra nas explicações científica e do senso comum de assuntos não-psicológicos, também é essencial para o entendimento do que é agir com uma razão, ter uma certa intenção ao agir, ser um agente, agir contra o próprio melhor juízo, ou agir livremente. A causa é o cimento do universo; o conceito de causa é o que mantém unida a nossa imagem do universo, uma imagem que de outro modo iria desintegrar-se em um díptico do mental e do físico. (p. xv)

Esses artigos foram muito influentes e discutidos. Entre as obras que foram dedicadas à sua discussão, encontramos os livros organizados por Lepore e McLaughlin (1985), por Vermazen e Hintikka (1985), por Heil e Mele (1993) e por Hahn (1999), além de inúmeros outros artigos que continuam discutindo a obra de Davidson. Em sua resenha do livro, Tyler Burge (1983) declara que vários dos ensaios foram extremamente influentes, “particularmente ‘Actions, reasons, and causes’ [Ensaio 1], ‘How is weakness of the will possible?’ [Ensaio 2], “The logical form of action sentences’ [Ensaio 6], ‘Mental events’ [Ensaio 11’” (p. 608), e que “um (‘Actions, reasons, and causes’) mudou a direção de um assunto [subject]” (p. 608).

A seguir, ofereço um comentário ao primeiro artigo da coltânea. As citações foram feitas com base na tradução para o português “Ações, razões e causas”, publicada na revista Crítica. Os números das páginas, no entanto, referem-se ao artigo original em inglês.

Ensaio 1: “Actions, reason, and causes” [Ações, razões e causas] (1963)

A tese principal de “Ações, razões e causas” é que racionalizações (ou a explicação de ações com base em suas razões) são um tipo de explicação causal. Uma razão (ou uma razão primária) consiste no par formado por (a) a atitude favorável de alguém dirigida a ações de um certo tipo (exemplos desse tipo de atitude são querer, desejar, considerar um dever ou uma ação valiosa) e (b) uma crença de que a ação realizada é daquele tipo.
A tese de Davidson pode ser ilustrada mediante um dos seus próprios exemplos. Digamos que eu pressione o interruptor da sala. Uma explicação dessa ação poderia ser:

E1. Pressionei o interruptor porque queria acender a luz e sabia (ou acreditava) que pressionando o interruptor a luz se acenderia.

Segundo a tese de Davidson, a razão primária, mencionada após o ‘porque’ de E1, é a causa da minha ação de pressionar o interruptor, descrita antes de ‘porque’.
Mas há um problema a ser enfrentado aqui. Uma mesma ação pode ser descrita de maneiras diversas, embora a racionalização só aconteça quando a descrição da razão é adequada à descrição da ação. Seguindo o exemplo anterior, imagine que ao pressionar o interruptor eu tenha também alertado um ladrão do fato de que estava em casa. Davidson diz que nesse caso não haveria dois eventos – pressionar o interruptor e alertar o ladrão –, mas apenas um, sob duas descrições diferentes. A razão apresentada em E1, no entanto, não racionaliza o fato de que alertei o ladrão. E2 é uma racionalização incorreta:

E2. Alertei o ladrão porque queria acender a luz e sabia que pressionando o interruptor a luz se acenderia.

Mesmo que o evento de eu pressionar o interruptor tenha sido, segundo Davidson, o mesmo evento de alertar o ladrão, disso não se segue que E1 e E2 sejam ambas verdadeiras. Há um caráter intensional nas racionalizações, ou seja, a substituição de termos com mesma referência não garante a preservação da verdade.
Para evitar esse tipo de problema, Davidson formula uma condição necessária mais refinada para razões primárias:

C1. R é uma razão primária pela qual um agente realizou a ação A sob a descrição d somente se R consiste numa atitude favorável do agente em relação a ações com certa propriedade, e da crença do agente de que A, sob a descrição d, tem tal propriedade. (p. 5)

Com essa qualificação, Davidson coloca em evidência que razões podem tornar racionais certas ações apenas se a ação e a razão são descritas apropriadamente. O restante do artigo representa um argumentação intensa de Davidson contra várias objeções, então vigentes, à tese de que razões são causas, ou que racionalizações são explicações causais.

Objeção 1: justificação exclui causalidade (pp. 8-9)

Quando revelamos a razão pela qual alguém agiu, diz Davidson, “uma ação revela-se coerente com certos traços do agente, de curto ou longo prazo, característicos ou não, e o agente é apresentado no seu papel de Animal Racional” (p. 8). Por isso, há um sentido um tanto fraco em que racionalizações são justificações: “do ponto de vista do agente houve, quando agiu, algo a dizer em favor da ação” (p. 9).
A primeira objeção pode ser construída nas seguintes linhas gerais. Nas explicações causais ordinárias (o vidro quebrou porque foi atingido por uma pedra) não há nenhum caráter justificador envolvido na explicação. Por isso, poderíamos pretender concluir que racionalizações são um tipo diferente de explicação, provavelmente não-causal. Haveria dois tipos de explicações, um por justificação (as racionalizações) e outro causal (demais contextos).
Davidson responde que não precisamos conceber esse caráter justificativo das racionalizações como excluindo a causalidade. Mesmo que admitíssemos que toda razão fosse por si só uma justificação da ação que racionaliza, “não se segue que a explicação não seja também – e necessariamente – causal” (p. 9).
Em uma resposta complementar, Davidson sugere uma diferença entre a justificação e a explicação que uma razão pode fornecer. Para que uma razão explique uma ação é necessário que a ação tenha sido realizada por (causa de) aquela razão (ver p. 9). Mas isso não é necessário para que uma razão justifique uma ação. Se tiro uma criança pequena de perto de um aparelho elétrico, por exemplo, uma razão que justificaria essa ação seria que pensei que a criança poderia machucar-se. Mas talvez essa não tenha sido a razão em virtude da qual realizei tal ação. Eu poderia, por exemplo, ter feito aquilo porque não queria que a criança estragasse o aparelho. A primeira razão poderia servir de justificativa, ainda que não fosse a razão por que a ação foi realizada. Mas, para servir de explicação, a razão tem de ser aquela pela qual eu agi. Portanto, mesmo que toda explicação por racionalização tenha algum grau de justificação, uma justificação não necessariamente é uma explicação.

Objeção 2: redescrição exclui causalidade (pp. 9-11)

Quando explicamos uma ação mediante razões, o que fazemos é redescrevê-la: um movimento com a mão pode ser redescrito, de modo a tornar-se, compreensível como uma ação de pressionar um interruptor para ligar a luz; um outro movimento pode ser descrito como uma certa jogada de xadrez, e assim por diante.
Com base nessa característica das racionalizações, foi elaborada uma objeção inspirada em Wittgenstein contra a tese de que razões possam ser causas. Segundo ela, a causalidade é uma relação entre dois eventos distintos (a causa e o efeito), mas se numa racionalização redescrevemos um único evento, não pode haver aí uma relação causal.
Davidson responde a essa objeção apontando que em explicações causais ordinárias também empregamos a redescrição: “Suponha-se que alguém se machucou. Poderíamos redescrever esse evento ‘em termos de uma causa’ dizendo que se queimou” (p. 10). Nesse caso a redescrição mencionaria a causa (queimar-se) do efeito (machucar-se). Além disso, crenças e desejos (e, portanto, razões) “certamente não são idênticas a ações” (p. 10). Consequentemente, não estamos comprometidos em dizer que há apenas um evento envolvido na redescrição que racionaliza uma ação; e se o tipo de explicação envolvido não é causal, é preciso que os defensores desta tese esclareçam qual seria o tipo de explicação em questão.

Objeção 3: estados não são causas (pp. 12-13)

Segundo essa objeção, “razões primárias consistem em atitudes e crenças, que são estados ou disposições, e não eventos; portanto, não podem ser causas” (p. 12). A resposta de Davidson é que podemos identificar ou até pressupor (quando for desconhecido) um evento precedente. Embora um desejo não seja um evento, por exemplo, o seu surgimento é. Crenças ou desejos podem surgir quando vemos ou notamos algo, e estes são eventos, e mesmo quando não sabemos atualmente qual foi o evento precedente, podemos pressupor que houve um.
No entanto, essas considerações não nos deveriam levar a pensar que as racionalizações são diferentes das explicações causais ordinárias. Por exemplo, também poderíamos explicar a queda de uma ponte dizendo que caiu porque tinha um defeito estrutural. Ainda que um defeito estrutural seja um estado, pressupomos que houve um evento que o causou, mesmo quando este nos é desconhecido.

Objeção 4: dependência lógica exclui relação causal (pp. 13-15)

De acordo com essa objeção, o fato de a razão primária e a ação que ela racionaliza não serem logicamente independentes seria um ponto contra a existência de uma relação causal entre elas. Isso tem conexão com a objeção 2, apresentada acima: como a racionalização oferece uma redescrição, não haveria dois eventos sendo descritos (e isso talvez signifique que há a ação e a razão não são logicamente independentes). Causa e efeito, por outro lado, são coisas diferentes (logicamente independentes), e, por isso, racionalizações não seriam explicações causais.
Parte da resposta de Davidson consiste em defender que “A verdade de uma afirmação causal depende de quais eventos são descritos; [mas] o seu estatuto como analítico ou sintético depende de como os eventos são descritos” (p. 14). Por exemplo, quando afirmamos que o evento A causou o evento B, estamos proferindo uma frase sintética (ou empírica). Mas poderíamos também fazer uma afirmação causal analítica, mantendo uma relação lógica entre as descrições da causa e do efeito, ao afirmar que a causa de B causou B. A relação lógica estabelecida na segunda afirmação não exclui a existência de uma relação causal entre os eventos descritos. Relações lógicas são relações entre frases ou descrições, mas relações causais são relações entre eventos.

Objeção 5: causalidade exige leis (pp. 15-17)

Esta quinta objeção assume uma concepção humeana de causalidade de acordo com a qual a existência de uma relação causal singular implica que existe uma lei causal subjacente. Mas, não temos leis causais que relacionem razões e ações, e, por isso, segue-se que racionalizações não são explicações causais.
Davidson aceita que de fato não há leis causais em sentido estrito formuladas em termos de ações e razões (no Ensaio 11, entre outros, ele defende que sequer é possível esse tipo de leis). Mas isso não nos deveria impedir de considerar a explicação em questão como causal. De fato, isso também não nos impede em outros casos. Por exemplo, podemos estar certos de que uma vidraça foi quebrada por causa de uma pedrada. Mas em geral não temos conhecimento de uma lei causal precisa que diga quais tipos de pedradas, precisamente, irão quebrar quais tipos de vidraças.
Mas Davidson defende ainda que não temos necessariamente de abandonar a posição humeana de que a causalidade está vinculada à existência de leis causais. Podemos interpretar a exigência de leis de uma maneira alternativa. Uma relação causal singular implica a existência de uma lei, mas não é necessário que a lei seja formulada nos mesmos termos em que o relato da relação causal singular foi feita. O exemplo de Davidson em favor disso é o seguinte:

Suponha-se que um furacão, que é noticiado na página cinco do Times de terça-feira, causa uma catástrofe, noticiada na página treze de quarta-feira do Tribune. Então, o evento noticiado na página cinco do Times de terça-feira causou o evento noticiado na página treze do Tribune de quarta-feira. Deveríamos procurar uma lei relacionando eventos destes tipos? (p. 17)

Seria obviamente tolo procurar uma lei causal formulada em termos de quais eventos noticiados em quais jornais causam quais eventos noticiados em quais outros jornais. Seria muito mais plausível buscar uma lei meteorológica, ou mesmo física, ainda que sob essas descrições tais eventos possam não nos ser muito interessantes. Sendo assim, Davidson defende que, apesar de causalidade envolver leis e de não haver leis formuladas em termos de ações, crenças, quereres e razões, disso não se segue que eventos descritos como ações e razões podem instanciar leis formuladas em outros termos – pode haver leis “neurológicas, químicas ou físicas” (p. 17) para os eventos em questão.

Objeção 6: leis causais e tipos de conhecimento (pp. 17-18)

Esta objeção diz que o tipo de conhecimento que se tem das próprias razões apresenta as várias características peculiares ao conhecimento de primeira pessoa. Mas nossa maneira de adquirir conhecimento de relações causais usualmente não seria esse: “uma pessoa conhece infalivelmente as suas intenções ao agir, sem indução ou observação, e nenhuma relação causal comum pode ser conhecida desse modo” (pp. 17-18).
Davidson aceita que em geral não precisamos de observação ou de inferências indutivas para conhecer as razões por que agimos, apesar de contestar que esse conhecimento de primeira pessoa tenha de ser infalível. No entanto, ele responde à objeção dizendo que, do fato de que a observação e a indução sejam uma das maneiras de se adquirir conhecimento de relações causais, não se segue que seja a única maneira. Consequentemente, não se segue que o conhecimento de primeira pessoa não seja também um conhecimento de relações causais.

Objeção 7: causalidade exclui liberdade (pp. 18-19)

A discussão desta objeção encerra o primeiro artigo. Davidson fala de um “certo desconforto que alguns filósofos sentem em falar […] de causas de ações” (p. 18). Segundo eles, se ações fossem causadas, o agente seria uma vítima do que acontece nele e com ele. Davidson pergunta-se:

Por que haveria uma causa de tornar uma ação um mero acontecimento e uma pessoa uma vítima indefesa? Será porque tendemos a supor, ao menos na área da ação, que uma causa requer um causador, a agência um agente? Assim, insistimos na pergunta: se minha ação é causada, o que a causou? Se fui eu, então há o absurdo do regresso ao infinito; se não fui, sou uma vítima. Mas é claro que estas alternativas não são exaustivas. Algumas causas não têm agentes. Entre estas, estão os estados e mudanças de estado nas pessoas; estados e mudanças esses que, porque são tanto razões como causas, constituem certos eventos livres e certas ações intencionais. (p. 19)

É difícil entender o que essa passagem quer dizer. Sem pretender avaliar a sugestão de Davidson, ofereço uma sugestão de leitura.
Qual é o “regresso ao infinito” do qual Davidson fala? Por que um agente seria uma “vítima”? Para ler essa passagem, tento ilustrá-la a partir de um exemplo. Suponha que o agente A gritou. Assim, temos a ação 1:

a1. A gritou.

Levando em conta as suposições acusadas por Davidson, se aceitamos que a1 é causada, perguntaríamos: o que é a causa de a1?
Uma sugestão poderia ser que o agente A causou sua ação a1. Bem, mas assim teríamos já uma segunda ação:

a2. A causou a1.

Aqui, novamente, poderíamos nos perguntar sobre o que causou a ação a2, e chegaríamos a uma ação a3, depois a4, e assim por diante.
Se essa sugestão de um regresso ao infinito não nos agrada, então poderíamos negar que a causa de a1 é o agente A. Nesse caso, poderia também nos desagradar que não é dado nenhum “papel ativo” ao agente A. Se algo que lhe escapa à vontade e ao arbítrio foi a causa dele realizar a1, então ele parece mesmo ser uma “vítima” do que lhe sucedeu.
A alternativa que Davidson propõe parece ser algo como o seguinte: algo conta como uma ação intencional ou livre se for causada por uma razão. Ou seja, A é livre ao realizar a1 se suas crenças e quereres são a causa de a1, independentemente de qual seja a causa dessas crenças e quereres.

Referências
Burge, T. “Book review: Essays on actions and events. Donald Davidson”. Ethics 93, 1983, pp. 608-611.
Davidson, D. Essays on actions and events. Oxford: Clarendon Press, 2001, 2nd ed. [Ver em Amazon.com]
Hahn, L. E. (ed.) The philosophy of Donald Davidson. The library of living philosophers. Chicago: Open Court, 1999.
Heil, J. e Mele, A. (eds.) Mental causation. Oxford: Clarendon Press, 1993. [Ver em Amazon.com]
Lepore, E. e McLaughlin, B. Actions and events: perspectives on the philosophy of Donald Davidson. Oxford: Brackwell, 1985.
Vermazen, B. e Hintikka, M. (eds.) Essays on Davidson: actions and events. Oxford: Oxford University Press, 1985.

Autor:

I'm a doctoral student in Philosophy at Federal University of Santa Maria, Brazil. My research focuses on the practical role of decisions on certain practical aspects of our lives, including responsibility and punishment. I'm also interested in assessing the impact of empirical studies on discussions about free will. More at: https://fischborn.wordpress.com

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