Publicado em Filosofando

Monismo anômalo e o problema da causação mental

Meu projeto de mestrado é voltado justamente para o tópico indicado no título deste post. Como dados iniciais, o que temos são os dois fatos seguintes:

1. Alguns fenômenos mentais causam fenômenos físicos
2. Todo fenômeno físico tem uma causa também física

Essas duas afirmações parecem ser ambas verdadeiras, representando fatos corriqueiros da nossa pintura ordinária do mundo e de nós mesmos.

Sob 1, por exemplo, inclui-se o fato de que posso apertar as teclas do computador porque quero escrever este texto. O ‘porque’ aqui é entendido causalmente: eu querer escrever é (parte da) causa de eu apertar as teclas. E meu querer é um exemplo característico de fenômeno mental. Assim, um fenômeno mental (querer escrever…) causa um fenômeno físico (teclas serem apertadas).

Sob 2, incluiríamos, por exemplo, a suspeita de que só um evento físico pode causar outro evento físico. No caso em questão, é o movimento (com certa força, em certa direção e sentido) de um certo corpo físico (minha mão) que causa o movimento de outro corpo físico, as teclas. Supostamente (e a suposição parece verdadeira), sempre encontraríamos fenômenos físicos como responsáveis causalmente pela causa, da causa, da causa… do movimento das teclas, da mão, dos nervos e músculos…

E agora, como combinar esses dois fatos (assumindo que são realmente fatos)?

Ao menos três respostas estão disponíveis na literatura: o monismo anômalo, de Davidson, o funcionalismo, de Fodor, e o fisicalismo redutivista, de Kim. Falarei um pouco sobre a solução proposta pelo primeiro.

A solução de Davidson tenta mostrar que conseguimos combinar os fatos razoavelmente bem se assumirmos que fenômenos mentais são fenômenos físicos. Tomando nosso exemplo acima novamente, eu querer escrever seria também um fenômeno físico: Ele poderia também ser verdadeiramente descrito como um movimento dos músculos (ou talvez, melhor ainda, como aquilo que causa esses movimentos) durante o ato de escrever. Nessa solução de Davidson, isto é tudo o que há para algum acontecimento ser mental, físico ou ambos: ter uma descrição mental, física ou ambas. Assim, para que todo evento mental seja físico, é preciso que todo evento descrito como mental possa ser também descrito como físico. Assim, no caso dos fenômenos associados com 1, quando um fenômeno mental causa um fenômeno físico, isso não conflitua com 2, pois esse mesmo fenômeno mental causador poderá, supostamente, ser descrito como físico, e assim não será um contraexemplo para 2.

Um breve comentário sobre essa solução. Poderíamos ficar com uma suspeita sobre em que medida um fenômeno ou acontecimento é de fato mental ou fisico apenas por ser descrito dessa ou daquela maneira. Obviamente, as descrições em questão têm de ser verdadeiras (já que de outro modo poderíamos trivialmente considerar qualquer acontecimento como mental, físico ou o que quer que seja). E, também, parece que precisamos de uma versão modal: um acontecimento tem de poder ser verdadeiramente descrito de um certo modo (de outro modo só existiriam acontecimentos mentais ou físicos quando também existissem seres fazendo descrições verdadeiras dessas coisas). Bem, mas a verdade de uma certa descrição depende de suas coisas, da descrição (seu significado) e de como a coisa descrita é. Em outras palavras, uma descrição mental M de um acontecimento x é verdadeira em parte pelo significado de M, suas condições de verdade, e em parte pelo fato de x ser dessa ou daquela forma. A solução descrita acima, então, teria de estar comprometida também com a tese de que certos acontecimento podem ser de um modo tal que permitiriam tanto uma descrição verdadeira mental como uma física.

Em um próximo post, tentarei mostrar um problema que Kim vê na solução de Davidson, o qual não reside nessa descrição da solução de Davidson que fiz aqui, mas, antes, nas premissas que Davidson adota para oferecer sua defesa da solução proposta. Trata-se do problema do epifenomenalismo, ou seja, Kim pensa que o monismo anômalo não garante que acontecimentos mentais sejam causalmente eficazes na produção de efeitos físicos, ou mesmo mentais. Até lá.

Autor:

I'm a doctoral student in Philosophy at Federal University of Santa Maria, Brazil. My research focuses on the practical role of decisions on certain practical aspects of our lives, including responsibility and punishment. I'm also interested in assessing the impact of empirical studies on discussions about free will. More at: https://fischborn.wordpress.com

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