Publicado em Filosofando, Metafísica

Quando nascemos?

Há alguns dias, escolhi esse tópico para postar no dia do nascimento do meu primeiro filho, Davi. Enquanto ele estava na barriga da mãe, desde sua descoberta até seus últimos dias no escuro quentinho, nos relacionamos com ele de várias maneiras: no palitinho do teste de farmácia, no primeiro ultrassom, quando chutava a barriga, quando lhe atribuíam o desejo de um doce ou uma bergamota…

Então: quando nasce alguém? Nascer é sair do útero materno? Nascer não significa sofrer nenhuma mudança ou atingir um novo grau de maturidade? Não há muita diferença entre aquele que estava ontem ali dentro e hoje está aqui entre nós. Não é nele que reside a diferença! E a diferença entre o bebê aqui fora e aquilo que pintava o palitinho lá atrás é uma diferença de vários graus, sucessivos, incansáveis e incontáveis. Nascer não pode ser apenas uma mudança nas características físicas ou biológicas – ao menos não estas que se mantiveram constantes de ontem pra hoje!

Nascer talvez seja, então, um fato social. Quando alguém passa a estar no meio dos homens e das mulheres, estar protegido por suas leis e sua moralidade. Mas  por quê? Isso já estava acontecendo antes também! Quem sabe nascer queira dizer que agora os outros precisam esforçar-se para lhe entenderem. Sim, entender se o choro é fome ou frio ou sono, ou se é hora de trocar a fralda. O bebê pode agora manifestar seus quereres, suas vontades. É isso nascer?

Não sei, de novo. Antes já tentávamos lhe entender. “Para qual lado ele gosta mais de deitar-se? O que ele quer comer? Será que quer nascer!?” Talvez a conclusão seria que ele de fato já tinha nascido bem antes, que seu nascimento é uma mistura de biologia, com cuidados, preocupações, sentimentos… uma coisa que não tem data nem componentes bem definidos.

Bem vindo, meu filho Davi. Este post é pra que um dia te lembres que certas perguntas não são fáceis de responder. E tu nasceste e terás de ir adiante mesmo sem ter as respostas de antemão. As grandes questões continuam sem respostas, e, talvez, no fim das contas, nascer venha a ser lançar-se ao mundo sem um rumo certo, sem certezas, com projetos sempre semi-acabados. Mas eu desejo que possas ver, também, que é neste mundo, do jeito misturado que ele é, que alegrias e emoções acontecem. São elas, que por vezes tornam incontrolável uma lágrima no canto do olho, que nos tiram a dúvida de que a vida vale a pena!

Autor:

I'm a doctoral student in Philosophy at Federal University of Santa Maria, Brazil. My research focuses on the practical role of decisions on certain practical aspects of our lives, including responsibility and punishment. I'm also interested in assessing the impact of empirical studies on discussions about free will. More at: https://fischborn.wordpress.com

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