Publicado em Ética, Filosofia, Filosofia para Ensino Médio, Lógica

Uma análise lógica dos preconceitos

Um grande número dos preconceitos mais comuns na sociedade tem a forma seguinte:

Gs são Ps.

Para ver essa fórmula funcionando, basta que substituamos ‘G’ por um termo que se refira a certo grupo (o alvo do preconceito) e ‘P’ por algum termo com significado pejorativo (que servirá para desqualificar os indivíduos do grupo em questão). Assim, aqui estão alguns exemplos bem conhecidos:

Homens são mulherengos.
Homossexuais são nojentos.
Loiras são burras.
Negros são preguiçosos.
Alemães são teimosos.

Como podemos ver, essas afirmações se enquadram no esquema anteriormente apresentado, tendo no lugar de ‘G’ termos que nomeiam certo grupo (‘homem’, ‘homossexual’, ‘loira’, ‘negro’, ‘alemão’), e no lugar de ‘P’ termos que expressam um significado pejorativo (‘mulherengo’, ‘nojento’, ‘burra’, ‘preguiçoso’, ‘teimoso’). Infelizmente, não é raro encontrar alguém proclamando afirmações desse tipo com a intenção de ofender ou discriminar alguém. No que segue, ofereço uma análise lógica desses enunciados, buscando mostrar por que em geral não é muito inteligente fazer afirmações desse tipo. É uma análise lógica e, por isso, deixa de lado outros problemas tão ou mais sérios com esse tipo de fenômeno (éticos, sociais, psicológicos etc.).

A primeira coisa a ser notada é que quando alguém que faz afirmações da forma “G’s são P’s” pretende estar falando sobre o grupo referido por ‘G’ como um todo. Se alguém diz, por exemplo, “Os homens são mulherengos”, então está implicitamente pretendendo falar de todos os homens, pois o preconceito perderia todo o seu poder se falasse apenas de ‘alguns’ (ou de ‘muitos’) em vez de falar de ‘todos’. Assim, a fórmula com que começamos representa apenas a forma exterior das afirmações preconceituosas. Mas, por traz das aparências, uma fórmula que apresentaria mais explicitamente o conteúdo real dos enunciados seria como segue:

Todos os Gs são Ps.

Assim, alguém que diz que “Homens são mulherengos”, por exemplo, está realmente pretendendo dizer que “Todos os homens são mulherengos”. Podemos chamar esse tipo de afirmação de afirmações universais, e para ver o que em geral torna difícil sustentá-las temos de analisar o que elas exigem para serem verdadeiras.

Uma afirmação universal como “Todos os homens são mulherengos”, por exemplo, é verdadeira se, e somente se, todos os homens de fato são mulherengos. Pela mesma razão, essa afirmação é falsa se, e somente se, houver ao menos um homem que não é mulherengo. Uau! Veja bem o que acabamos de dizer: para que uma afirmação como “Todos os homens são mulherengos” seja falsa, basta que haja um único caso de homem que não seja mulherengo. O mesmo vale para todas as afirmações com forma “Todos os G’s são P’s”, e mostra que é muito mais fácil mostrar que um preconceito é falso do que mostrar que é verdadeiro. Como vimos, essa é a forma de um grande número de afirmações preconceituosas.

Começamos então a nos dar por conta de por que é em vários casos parece pouco racional fazer afirmações universais preconceituosas. A razão é que é muito mais fácil mostrar que elas são falsas do que sustentar que são verdadeiras. Se eu digo que todos homens são mulherengos, basta que alguém me apresente um único homem que não seja mulherengo para falsificar o que eu disse. Neste caso, podemos dizer que um homem não-mulherengo serve de contraexemplo para a afirmação universal de que todos os homens são mulherengos.

Assim, para mostrar que qualquer preconceito da forma “Todos os G’s são P’s” é falso, basta encontrar um contraexemplo da forma “Há um G que não é P”. Voltando aos outros (maus) exemplos que vimos antes, vejamos quais seriam seus respectivos contraexemplos. Uma pessoa homossexual que não é nojenta serve de contraexemplo para a afirmação de que “Todos os homossexuais são nojentos”. Do mesmo modo, uma mulher loira inteligente é um contraexemplo para a afirmação “Todas as loiras são burras”. Uma pessoa negra não preguiçosa, por sua vez, é um contraexemplo para “Todos os negros são preguiçosos”. E uma pessoa de origem alemã que não é teimosa é um contraexemplo para “Todos os alemães são teimosos”. Quem quer que afirme preconceitos como esses está sujeito a ter sua afirmação refutada assim que um contraexemplo seja apresentado. E como um único contraexemplo basta, eu posso lhe garantir que todos os preconceitos com que começamos (e muitos outros similares) são, de fato, falsos. Eu posso lhe garantir, se você mesmo não puder fazê-lo, que todos os preconceitos que analisamos são falsos. Pois eu conheço ao menos uma pessoa que serve de contraexemplo para cada um deles. E, dado que eles expressam-se em afirmações universais, um único contraexemplo para cada é suficiente para mostrar que são falsos.

Autor:

I'm a doctoral student in Philosophy at Federal University of Santa Maria, Brazil. My research focuses on the practical role of decisions on certain practical aspects of our lives, including responsibility and punishment. I'm also interested in assessing the impact of empirical studies on discussions about free will. More at: https://fischborn.wordpress.com

4 comentários em “Uma análise lógica dos preconceitos

  1. Marcelo, Esse texto é teu? Gostei dele. Uma questão: A lógica dos preconceitos mostra que eles são facilmente falseáveis. Assim, se formos racionais e consistentes do ponto de vista lógico, não seremos preconceituosos. Mas, um preconceituoso poderia perguntar: por que devemos ser racionais? Ou: por que a racionalidade é um ideal que devemos perseguir? Há alguma razão teórica (não moral) para preferir a razão à falta de razão?

    1. Oi Flávio! Sim o texto é meu, como todos aqui, salvo quando explicitamente indicado.
      Salvo algum engano, tua pergunta já pede por uma razão não-teórica, não? Tu queres saber por que deveríamos (seria bom, seria correto, seria melhor) seguir a razão. Não tenho uma resposta, e talvez a pergunta se aplicaria novamente a cada resposta dada (se eu dissesse: ‘para ser mais fiel à realidade’ ou ‘porque isso é mais útil na lida com o mundo’, tu poderias perguntar novamente ‘por que deveríamos ser fiéis…’ ou ‘por que devo seguir o mais útil…’).
      Ainda assim, eu acho que uma análise lógica pode ser um recurso extra contra preconceitos. Se a pessoa preconceituosa não se convenceu por valores éticos como respeito ao próximo ou outros, talvez seja possível diminuir seu orgullho dizendo ‘veja, sua atitude é estúpida do ponto de vista lógico, teórico. Continuar sustentando-a só mostra pouca inteligência, como achar que está fazendo algo grandioso quando diz que a terra é o centro do universo’.
      Obrigado pela visita!

      1. Gostei do teu texto e acho que ele ajuda, sim, no sentido que vc indicou. Além disso, deve ser verdade que o preconceito é principalmente uma falha moral, mais do que uma falha de raciocínio. E também creio que, no final das contas, não existem “boas razões” para exigir que alguém seja racional. A racionalidade é um valor. Se o interlocutor não reconhece isso, acho que a própria idéia de argumentação racional perde o sentido…
        Vou escrever um texto (que tenho esboçado na cabeça) sobre a ética do preconceito e depois te envio. Poderíamos fazer uma sequência e publicar. Tem muita gente interessada nisso.

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