Publicado em Filosofia, Gerais, Minha Opinião, Profissão

A formação dos filósofos

Num outro post, escrevi algumas notas provisórias sobre a pesquisa em filosofia. Apareceu ali, de forma tímida, a sugestão de que seria recomendável manter-se a par dos desenvolvimentos científicos. Neste post reúno informações sobre um grupo de filósofos que tiveram uma formação inicial marcada pela ciência, especialmente a matemática. Mesmo que porquê fique por ser respondido, penso que esses casos sugerem que a ciência pode ter uma contribuição mais central para a formação filosófica, e que uma formação purista, frequentemente oferecida nas universidades brasileiras, pode não ser lá uma das apostas mais sábias.

Vejamos alguns casos:

René Descartes: estudou inicialmente matemática e física, e posteriormente direito. Teve várias contribuições em matemática e filosofia, tentando inclusive aplicar o método matemático para a filosofia (fonte).

Gottfried Leibniz: obteve graduação e mestrado em filosofia, e também graduação e doutorado em direito. Posteriormente dedicou-se à física e matemática, onde fez importantes contribuições (fonte).

Edmund Husserl: dedicou-se inicialmente à matemática, física e astronomia, estudando, posteriormente, também filosofia. A tese de doutorado foi em matemática (fonte).

Gottlob Frege: sua formação inicial na universidade foi principalmente em física e matemática. Obteve seu doutorado com uma tese em geometria. Seu trabalho posterior foi em grande medida dedicado à lógica (fonte).

Bertrand Russell: na adolescência interessou-se por matemática e temas de religião e filosofia. Dedicou-se posteriormente principalmente aos fundamentos da matemática, à filosofia e também a assuntos políticos. (fonte)

Rudolf Carnap: dedicou-se inicialmente à física, tendo sido aluno de Frege e mantido contato com Einstein. Além disso, teve contato com os escritos de Kant, que influenciou sua tese de doutorado em filosofia sobre teoria do espaço, a qual fora inicialmente planejada como uma tese em física (fonte).

Willard Van Quine: concluiu graduação em matemática e o doutorado em filosofia (fonte).

Donald Davidson: dedicou-se no início de sua formação a estudos de língua inglesa e literatura, passando em seguida a línguas clássicas e filosofia. Posteriormente, após um período na escola de negócios de Harward, escreveu uma tese de doutorado sobre o Filebu de Platão, tomando ainda contato com uma abordagem mais formal da filosofia de Quine e participando de estudos experimentais de psicologia sobre teoria da decisão, com Patrick Suppes (fonte).

David Chalmers: estudou matemática inicialmente, e depois concluiu doutorado em filosofia e ciências cognitivas (fonte).

Temos aqui uma lista de nove filósofos dos tempos modernos para cá que tiveram uma formação científica significativa. Seria prudente buscar exceções, mas é também provável que a lista possa ser ampliada e diversificada. Platão, por exemplo, escreveu que não deveriam entrar em sua Academia os que não conhecessem geometria, e mesmo na formação e obra de Kant encontramos um espaço para geometria e física. Assim, é de se perguntar se o conhecimento científico, ou mesmo matemático, teria um papel (e qual) a desempenhar na formação de um filósofo. Estaria a filosofia perdendo algo importante na formação universitária departamental atual? Os exemplos acima tornam tentador dizer que sim, mas é claro que essa é uma daquelas questões complexas que um mero post não pode fazer muito mais do que simplesmente levantar.

Edição 1: Uma fonte adicional de suporte para a sugestão deste post é a formação dos filósofos brasileiros que têm trabalhos amplamente reconhecidos. Newton da Costa, para dar um exemplo, sequer tem formação em filosofia, sendo amplamente reconhecido a nível internacional. (Uma lista de filósofos com repercussão internacional pode ser conferida neste post que escrevi para o blogue do PhilBrasil; suas formações podem ser conferidas através do Currículo Lattes).

Edição 2: Após discutir com colegas as ideias deste post, acho que agora consigo expressar melhor o que tinha em mente: se levarmos em conta dados como os acima (e se eles forem representativos da totalidade) parece mais provável que alguém se torne um filósofo bem sucedido se tiver alguma formação em outra área (na maioria das vezes em matemática), do que tendo formação em filosofia. Isso é contra-intuitivo, pois parece que os cursos de filosofia é que deveriam ter a competência de gerar filósofos. Obviamente, os dados fornecidos podem não ser representativos e a hipótese equivocada. Mas, se forem minimamente precisos, fica o desafio de explicar por que as coisas são assim.

Autor:

I'm a doctoral student in Philosophy at Federal University of Santa Maria, Brazil. My research focuses on the practical role of decisions on certain practical aspects of our lives, including responsibility and punishment. I'm also interested in assessing the impact of empirical studies on discussions about free will. More at: https://fischborn.wordpress.com

Um comentário em “A formação dos filósofos

  1. Cara, talvez isso se explique por no passado a filosofia se propunha a explicar tudo. Literalmente tudo, como se pode ver nas obras mais clássicas principalmente. Isso mudou msm no período de Kant, não sendo por acaso que as suas 3 obras mais famosas refletem as 3 grandes áreas da filosofia atual: moral, epistemologia e estética. Creio então que hoje seja mais vantajoso uma formação filosófica mesmo, em faculdades. Cursei Direito, mas desisti e fui para a filosofia. Percebi, no período que fiquei no Direito (2 anos), que nunca (ou dificilmente) me tornaria um filósofo, levando em consideração que no curso não te ensinam a pensar como um, você não tem tempo para se dedicar a obras mais densas de filósofos e o curso tem um viés bem prática, quase técnico mesmo. Ai dificulta. Agora imagina Matemática.. Muito embora mat seja muito legal kk nunca se deve parar de estudá-la mesmo não.

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