Publicado em Filosofia, Filosofia para Ensino Médio, Introdução à Filosofia

A filosofia, seus problemas, e como fazê-la

Aqui está um belo texto de Desidério Murcho, intitulado “A natureza da filosofia e seu ensino“, publicado na revista Educação, 27.2 (2002). Enfatizo algumas passagens:

“A pergunta que se impõe é esta: o que vamos então estudar e ensinar aos nossos estudantes? Se a Filosofia não tem conteúdos, que vamos nós fazer? É muito simples: vamos estudar e ensinar a discutir os problemas da Filosofia, começando pelos mais acessíveis e avançando para os mais difíceis. Para uma pessoa poder discutir com pés e cabeça um problema qualquer da filosofia, tem de ter os conhecimentos relevantes (de ciência, arte, etc.), como já fiz notar. E tem de conhecer minimamente a discussão atual desse problema. Do mesmo modo que um físico ou um historiador não pode ignorar as respostas dos seus colegas aos problemas que o preocupam, também o filósofo não pode ignorar as respostas dos outros filósofos aos problemas que o preocupam. E a verdade é que se aprende muito estudando essas discussões, apesar de não se aprender conteúdos perfeitos e acabados como os da Física ou da História do ensino médio — mas como já ficou claro, esses conteúdos perfeitos e acabados da História e da Física do ensino médio não são, nem de perto nem de longe, o que interessa aos grandes historiadores e aos grandes físicos. Finalmente, para uma pessoa poder discutir um problema em Filosofia, tem de saber discutir problemas: tem de saber lógica formal e informal, do mesmo modo que um historiador tem de saber compreender um documento ou um físico tem de saber fazer uma experiência ou compreender uma fórmula.” (p. 15)

“O estudo da Filosofia começa pela compreensão gradual de um determinado problema ou conjunto de problemas filosóficos. O que é realmente o problema do livre arbítrio, por exemplo? Como podemos formulá-lo com precisão? O que está em causa? Por que razão é importante? Não será antes uma confusão, um falso problema?” (p. 15)

“Como é evidente, os problemas existem para ser resolvidos, e os filósofos oferecem as suas soluções, as suas teorias, para resolver esses problemas, tal como os físicos e os biólogos. Mas serão essas teorias boas? Temos de pensar, analisar com cuidado as diferentes teorias, verificar todos os passos em que a teoria se apóia, e ver se o problema fica realmente resolvido, ou apenas disfarçado, reaparecendo noutro lado. O estudante de Filosofia compara essas teorias, forma a sua própria opinião sobre elas, e, se for criativo, cria a sua própria teoria ao longo de alguns anos de estudo e reflexão.” (p. 16)

“Um ensino de qualidade da Filosofia não é possível sem um espaço para que o estudante discuta idéias. No King’s College London cada estudante tem um tutor cujo papel é obrigá-lo a tomar posição e a saber defender as suas idéias. Todas as semanas, o estudante tem uma aula privada de uma hora (ou num grupo pequeno de não mais de 4 ou 5 estudantes, no caso dos estudantes de licenciatura). Todas as semanas o estudante tem de escrever um pequeno ensaio (que varia de tamanho, consoante é um estudante de licenciatura — apenas uma página — ou de mestrado — em geral, 4 páginas) respondendo a uma pergunta colocada pelo tutor. O tutor indica dois ou três textos clássicos ou contemporâneos que o estudante deve ler para poder responder a tal pergunta. Mas o importante é que o estudante tome uma posição informada, compreendendo o problema em causa e as respostas que os textos dados apresentam. O ensaio do estudante é depois discutido com um tutor, durante uma hora. E o único objetivo da discussão é fazer o estudante dizer o que pensa e defender as suas idéias — e não limitar-se a regurgitar as idéias dos outros. O estudante aprende, assim, pela prática, a fazer Filosofia: aprende a discutir idéias filosóficas, a rever as suas posições, a ter em consideração contra-argumentos e contra-exemplos, aprende a ver alternativas, sente a dificuldade de defender as suas idéias. Num ensino de qualidade da Filosofia, não se pode desprezar o momento da discussão filosófica: sem esse momento, não há bom ensino da Filosofia” (p. 16-17)

Autor:

I'm a doctoral student in Philosophy at Federal University of Santa Maria, Brazil. My research focuses on the practical role of decisions on certain practical aspects of our lives, including responsibility and punishment. I'm also interested in assessing the impact of empirical studies on discussions about free will. More at: https://fischborn.wordpress.com

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