Publicado em Filosofia

Conferências e discussão — Impressões do doutorado sanduíche (2)

Seguindo o plano de comentar mensalmente sobre aspectos do meu doutorado sanduíche no exterior (primeira postagem aqui), falarei este mês de um aspecto que me chamou a atenção durante minha participação em conferências e palestras.

Basicamente, o objetivo de apresentar um trabalho, do ponto de vista do apresentador, é receber feedback, submeter seus argumentos e teses ao exame crítico de seus pares. Esse feedback é produzido mediante a discussão das teses e argumentos defendidos pelo apresentador (por meio da apresentação de objeções, contra-argumentos e contraexemplos). Essa perspectiva parece gerar algumas consequências, começando pelas seguintes:

  1. Alocação do tempo. Congruentemente com o que observei na postagem anterior sobre a ênfase na argumentação e discussão na sala de aula, os eventos (palestras ou conferências) são organizados de modo a permitir longas e geralmente proveitosas discussões. No departamento que estou visitando, as palestras, por padrão, duram duas horas, sendo que na primeira o palestrante apresenta sua proposta, e na segunda hora os demais participantes (não meros ouvintes!) propõem perguntas, críticas etc. e seguidas de resposta pelo apresentador. Num outro caso, em uma conferência organizada por estudantes de pós-graduação, cada trabalho apresentado (sem apresentações simultaneas) durava cerca de uma hora, sendo que a apresentação durava cerca de 25 minutos, seguida de um comentário por outro estudante que havia lido o texto completo previamente, seguidos de discussão pelo tempo restante. Um terceiro caso foi uma conferência on-line, a Minds Online Conference (ver uma discussão posterior feita pelos organizadores avaliando a experiência). Nela, os trabalhos selecionados receberam comentários por escrito de pesquisadores especializados no assunto do trabalho, sendo que cada trabalho ficou disponível por uma semana para discussão entre autores, comentadores e público em geral.
  2. Restrição do número de apresentações. Para proporcionar uma discussão e feedback de qualidade, as conferências por aqui parecem bastante competitivas e no geral há um limite de trabalhos que serão selecionados. Em vários casos, é preciso submeter um trabalho completo para a participação no evento, e só um número será selecionado. Em meu caso pessoal, já tive trabalhos rejeitados em mais de uma ocasião. É como se, no processo de seleção dos trabalhos que comporão uma conferência, os organizadores estivessem julgando quais trabalhos merecem a atenção dos demais participantes, quais trabalhos merecem sujeitarem-se ao feedback crítico. Uma consequência positiva desse processo é que os demais participantes podem esperar assistir a apresentações de melhor qualidade, o que reforça a motivação para avaliar criticamente e oferecer feedback. Conferências com maior prestígio, além disso, tendem a atrair mais submissões e, consequentemente, é mais difícil ter um trabalho aceito e também mais qualidade é esperada.
  3. Múltiplas apresentações de um mesmo trabalho. Um terceiro elemento que tenho notado é que, dado o propósito de apresentar um trabalho (receber feedback com vistas a melhorá-lo) é comum apresentar versões progressivas de um mesmo trabalho em andamento em diversas ocasiões. Isso é saliente inclusive nos agradecimentos presentes em artigos publicados, onde é comum o autor argadecer às plateias desta e daquela outra conferência.

Por fim, gostaria de dizer que esses vários aspectos parecem poder funcionar de maneira muito integrada em alguns casos. Por exemplo, é possível que o objetivo de uma conferência seja submeter a escrutínio os trabalhos que no futuro comporão um livro sobre um tema específico. Divulgo um caso aqui, o Workshop NOWAR 2015, sobre responsabilidade moral, em parte por uma razão que oferecerei na sequência. Como enunciado no próprio website do workshop, dali serão selecionados artigos que comporão um volume da série Oxford Studies in Moral Responsibility da Oxford University Press. Uma razão para divulgar esse tipo de evento é que se trata de um exemplo claro de como estar geograficamente distante de onde se concentram os pesquisadores de determinado tema pode impactar em nossa pesquisa. Um doutorando participando desta conferência, por exemplo, pode ter acesso ao conteúdo que provavelmente só alguns anos mais tarde estará disponível para o público em geral (tempo da editoração, publicação e para que o material seja adquirido). O participante poderá ter alguns anos de vantagem nesse aspecto. Felizmente, neste caso, há uma possível solução, pois vários dos trabalhos estão disponíveis para visualização prévia.

Espero que esta postagem seja útil e interessante, e fico à disposição para quaisquer perguntas adicionais.

Edição: Esqueci de mencionar na postagem original uma regra curiosa sobre as discussões que seguem as palestras no departamento que estou visitando. Aqui, os estudantes têm preferência na hora de fazer suas perguntas. Só depois que todos os estudantes que queiram fazer perguntas ao palestrante tiverem feito suas perguntas é que a vez é passada aos professores. O papel pedagógico dessa regra é, na minha opinião, digno de nota. E ela também parece razoável. Em primeiro lugar, os estudantes poderiam estar mais receosos de fazer as suas perguntas (a regra diz que não é preciso, e lembra que são estimulados a participar). Em segundo lugar, as perguntas e discussão dos professores costuma ser mais longa, extendendo-se enquanto há tempo disponível.

Autor:

I'm a doctoral student in Philosophy at Federal University of Santa Maria, Brazil. My research focuses on the practical role of decisions on certain practical aspects of our lives, including responsibility and punishment. I'm also interested in assessing the impact of empirical studies on discussions about free will. More at: https://fischborn.wordpress.com

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