Publicado em Filosofia, Profissão

Como escolher uma revista para um artigo de filosofia

Qualquer um que se dedique à pesquisa acadêmica em filosofia (como nas demais áreas do saber) eventualmente se defrontará com a tarefa de escolher o destino a ser dado a um trabalho. Nesta postagem, ofereço um conjunto de critérios que podem ajudar nesta tarefa, tendo como foco artigos originais (ou de pesquisa). Inicio oferecendo uma razão pela qual esse tipo de escolha merece um tratamento explícito sério e depois apresento três critérios que podem ajudar nessa escolha.

Há pelo menos duas razões pelas quais podemos nos perguntar sobre como escolher o melhor destino para um artigo de pesquisa. A primeira, e pouco interessante, é que publicações contam em avaliações para concorrer a bolsas, em relatórios de pesquisa e em provas de seleção. A esse respeito, o que mais importa é publicar de modo a aumentar a pontuação de acordo com os critérios da avaliação visada. Esse não é o foco aqui.

Uma razão mais interessante se relaciona com a própria natureza da filosofia, tal como tem sido praticada ao longo dos séculos. Depois de Sócrates, que tornava públicas suas ideias ao discutí-las em público, a filosofia passou a ser primariamente publicada por escrito. Ao propor uma nova teoria, tese ou argumento, um filósofo ou filósofa geralmente está se contrapondo a aspectos da filosofia previamente disponível. O trabalho que publica, assim, é uma contribuição à filosofia produzida até então. Em meio a outros formatos, artigos em revistas especializadas são atualmente um dos principais veículos para a publicação de trabalhos filosóficos. Um bom artigo de pesquisa oferece uma contribuição minimamente original e relevante para a literatura disponível.

Essa dinâmica do trabalho filosófico e sua relação com a publicação por escrito oferecem um quadro onde fica mais significativa a questão sobre como definir a revista mais adequada para um artigo. Penso que a publicação de artigos é parte da atividade profissional do filósofo e merece uma abordagem explícita. Ao mesmo tempo, noto que o que parece mais natural é que adentremos na prática irrefletidamente, muitas vezes seguindo o que fazem os professores ou outros pesquisadores ao nosso entorno, ou respondendo a eventuais convites de revistas quaisquer. A seguir, apresento três critérios que atualmente considero os mais relevantes para se definir as possíveis revistas para onde submeter um artigo de filosofia. Espero que ofereçam um ponto de partida para os que queiram refletir sobre seus próprios critérios na hora de submeter um artigo, e também para discussões adicionais do assunto.

1. Qualidade da avaliação

O elemento de maior peso, na minha opinião, tem a ver com a própria razão de ser das revistas especializadas. Tal como funcionam atualmente, ao submeter um trabalho a uma revista, o que se espera é que ele seja avaliado por pares, isto é, por outras pessoas competentes no assunto em questão, normalmente sem conhecimento de sua autoria. O objetivo é que só artigos considerados apropriados com base em critérios de relevância, originalidade e correção sejam publicados. Em muitos casos, pode-se exigir que um artigo com potencial para publicação seja revisado, eliminando falhas, acrescentando informações relevantes ou mesmo antecipando objeções. Outras vezes, o artigo pode não satisfazer os critérios da revista em questão e ser rejeitado. Nesses casos, um parecer descrevendo os problemas do artigo pode ser fornecido ao autor. Considero isso um dos elementos mais positivos do processo de submissão de artigos para publicação, especialmente para aqueles que, como eu, estão iniciando suas trajetórias acadêmicas. Por essa razão, podemos falar mais apropriadamente da seleção de revistas para onde submeter um artigo, e não simplesmente a revista. Um artigo, assim, pode passar por vários ciclos de avaliações, rejeições e revisões, em diferentes revistas, até que esteja pronto para ser publicado (alguns relatos aqui).

Mas como saber quais são as revistas que oferecem maiores chances de uma avaliação qualificada, com possibilidade de pareceres que permitam o aprimoramento do artigo e o crescimento de seu autor ou autora? Não há regra infalível, mas há algumas balizas que podem ser úteis.

No lado mais positivo do espectro, um guia pode ser procurar submeter a revistas onde artigos relevantes sobre o assunto já foram publicados. Artigos têm seções de referências. Olhar onde foram publicados os trabalhos que estão em discussão no seu artigo pode oferecer uma ótima lista de possíveis destinos para seu artigo. Digamos que seu artigo critique o argumento de A1, que foi apresentado no artigo B1, publicado na revista R1. Nesse caso, a revista R1 pode ser uma boa candidata para onde submeter seu artigo. Alternativamente, se o artigo contém em sua seção de referências artigos das revistas R2, R3, R4 e R5, então há alguma chance de que algumas dessas revistas sejam bons destinos para o artigo. Dada a maneira como editores selecionam pareceristas para avaliar os artigos que recebem, adotar essa sugestão pode levar a que um dos autores citados em seu artigo seja um dos avaliadores. Isso pode aumentar o rigor da avaliação e as chances de se receber um feedback bem qualificado, que poderá ser construtivo mesmo se no final o artigo não for aceito naquela revista.

No lado mais negativo do espectro, as revistas a evitar são aquelas que são conhecidas por não submeter seus trabalhos a um processo rigoroso de avaliação. Exemplos incluem revistas predatórias, que buscam publicar artigos sem submetê-los a qualquer avaliação porque lucram cobrando dos autores de trabalhos aceitos (informe-se aqui e aqui). Também podemos identificar revistas onde a avaliação costuma deixar a desejar se notarmos que já publicou trabalhos de má qualidade. Assim, detectar um artigo com erros grosseiros de conteúdo, ou mesmo com erros de ortografia e gramática evidentes é um sinal de que provavelmente não passou por uma avaliação séria.

Essas sugestões são bastante gerais, e não permitem indicar revistas específicas. Mas é possível ter informações mais específicas sobre o tipo de avaliação que as revistas costumam oferecer. Por exemplo, no âmbito de revistas filosóficas internacionais, o Journal Surveys reúne informações fornecidas por autores que submeteram artigos a diversas revistas de filosofia. As informações disponíveis incluem o percentual de trabalhos que recebem comentários, a qualidade deles, entre outras.

Não temos nenhuma ferramenta do tipo para a maioria das revistas que publicam trabalhos em português. E talvez fosse a hora de criarmos algo do tipo. Para não ficar sem nenhuma indicação positiva, considero a revista Manuscrito como uma boa opção no quesito qualidade de avaliação e pareceres. Esse juízo leva em conta minha experiência pessoal (uma rejeição) e também alguns relatos de colegas.

2. Prestígio e visibilidade

Depois da qualidade da avaliação, considero que em segundo lugar empatam considerações sobre o prestígio e a visibilidade como critérios para seleção de revistas. Aqui entram em consideração elementos extra-epistêmicos, por assim dizer. Não está em questão apenas a correção do que o artigo propõe, mas também elementos como relevância, possível impacto e também o modo como a revista oferece acesso aos artigos publicados. Sobre esses aspectos, sugiro apenas alguns exemplos que tentam capturar o que está em jogo. Enfatizo, no entanto, que não pretendo oferecer definições precisas do que se trata, e também que esses elementos só são relevantes a partir de certo nível de qualidade de avaliação. Em outras palavras, a qualidade de avaliação é o critério-base. Prestígio e visibilidade são um extra que pode entrar em cena quando a qualidade de avaliação está satisfeita.

Por prestígio, entendo que exista uma espécia de ranking imaginário de revistas (ou antes, vários deles) que as ordena por relevância do material publicado. Assim, idealmente, algumas revistas publicariam artigos potencialmente relevantes para várias áreas da filosofia, ou com potencial de alterar o rumo de uma grande discussão. Há várias listas que de alguma maneira sugerem o prestígio de revistas. Por exemplo, o Qualis da Capes classifica revistas em A1, A2, B1, etc. Outros rankings incluem o Google Scholar (Metrics), este ranking recente no blog Leiter Reports, o ranking do SJR, entre outros. E há também quem discuta até que ponto essas classificações são realmente positivas (aqui, por exemplo).

Por visibilidade, incluo tanto questões relacionadas à facilidade de acesso ao conteúdo de uma revista, bem como quão acessada ela é. Por isso, este item está de alguma maneira relacionado ao anterior. Revistas podem disponibilizar seu conteúdo abertamente na internet, ou apenas a assinantes ou mesmo apenas para os compradores de um volume impresso (pouco usual nos dias de hoje). Mas mesmo revistas que se igualam no item anterior podem variar em quanta visibilidade têm. Isso pode estar relacionado ao prestígio, por exemplo, mas também à elementos mais técnicos como sua indexação, e a maneira como seu conteúdo aparece em ferramentas de busca como o PhilPapers e o Google Scholar. No Brasil, temos em geral acesso a várias revistas que oferecem acesso apenas a assinantes por meio do Portal de Periódicos da Capes. Mas algumas revistas não são acessíveis mesmo por este meio. Sendo assim, pode ser uma boa ideia checar quão acessíveis são os artigos que uma revista publica antes de submeter-lhe um trabalho.

As considerações apresentadas—sobre qualidade da avaliação, prestígio e visibilidade—estão longe de oferecer um guia definitivo sobre como proceder na seleção de revistas para onde submeter artigos filosóficos. Tanto quanto posso ver, esse tema raramente é discutido de modo explícito e publicamente por estudantes e professores de filosofia no Brasil. Assim, espero que as considerações acima possam servir como um ponto de partida tanto para reflexões pessoais sobre a seleção de revistas quanto para futuras discussões sobre o assunto.

Autor:

I'm a doctoral student in Philosophy at Federal University of Santa Maria, Brazil. My research focuses on the practical role of decisions on certain practical aspects of our lives, including responsibility and punishment. I'm also interested in assessing the impact of empirical studies on discussions about free will. More at: https://fischborn.wordpress.com

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s