Donald Davidson sobre a pesquisa e a escrita em filosofia

Tive o prazer de poder dedicar-me integralmente à pesquisa ao longo deste semestre e de poder expor minhas ideias em uma série de ocasiões. Finalizando o ciclo, falarei na próxima semana sobre o valor e sobre como se preparar para uma experiência de pesquisa no exterior.

Se pensamos que a experiência em uma universidade estrangeira pode ser importante, é porque pensamos que pode contribuir com nossa formação como pesquisadores e, no fim das contas, com nossas pesquisas. Pensando sobre a natureza da pesquisa em filosofia, lembrei-me de algumas passagens de uma entrevista de Donald Davidson a Ernie Lepore que ajudaram a moldar minha maneira de encarar a filosofia. Nela, Davidson fala sobre a influência que recebeu de Quine a esse respeito, e sobre como encarava a publicação e a escrita. Segue minha tradução de algumas passagens:

Donald Davidson
Donald Davidson. Fonte: chapter16.org

“Lepore: Além do curso sobre lógica matemática, você fez outros cursos com Quine enquanto era um jovem doutorando?

Davidson: Sim, de fato, e o segundo curso mudou minha atitude em relação à filosofia. Até então eu via a filosofia como não tão séria quanto a ciência, mas mais séria do que a crítica de arte. O seminário de Quine sobre o positivismo lógico, que assisti no primeiro ano do doutorado, virou-me de ponta-cabeça. […] O que me interessava não era tanto as conclusões de Quine—eu supunha que ele estava certo—quanto o reconhecimento de que era possível levar a sério o acerto na filosofia—ou ao menos evitar o erro. Em comparação à maior parte do que havia estudado como parte da história das ideias, os temas discutidos por Quine e seus oponentes me pareciam claros o suficiente para justificar o interesse em seus valores de verdade. A mudança em minha atitude em relação à filosofia passou a permear meu pensamento sobre ética e história da filosofia; vi no livro Five Types of Ethical Theory de C. D. Broad e no livro de Russell sobre Leibniz uma preocupação com a clareza e a verdade que estava começando a apreciar. Eu não conhecia o suficiente para me incomodar com as imprecisões históricas; o que eu gostava era da aplicação dos métodos e padrões analíticos contemporâneos ao material que anteriormente vira como além de qualquer juízo sobre sua verdade ou falsidade. O curso famoso de C. I. Lewis sobre Kant teve de algum modo o mesmo efeito em mim.” (p. 238-239)

“Lepore: Você tem o hábito de trabalhar e retrabalhar os artigos antes de liberá-los para publicação.

Davidson: Sim, é verdade. Em 1969, eu fui à Austrália e ministrei as David Gavin Lectures. Estas são as John Locke Lectures da Austrália, a grande série de palestras na Universidade de Adelaide. [Outros que falaram nesta série foram Ryle, Quine, Feigl, Lewis, Hempel, Dennett e Putnam.] O filósofo australiano J. J. C. Smart lia minhas coisas e organizou meu convite. Essas palestras constituem pelo menos a metade das palestras em minha coletânea Actions and Events. O mesmo é verdadeiro de minhas John Locke Lectures. Todas essas palestras, exceto uma, acabaram incluídas em minha coletânea Truth and Interpretation. É bastante coisa. O suficiente para encher dois volumes. A palestra de minhas John Locke Lectures que não está lá é a que no final das contas virou minha primeira primeira Presidential Address na American Philosophical Association, ‘On the very idea of a conceptual scheme’. Trabalhei naquele artigo por sete anos. Eu li todos esses artigos no mundo todo por vários anos antes que fossem publicados.” (p. 262)

“Lepore: Gostaria de perguntar sobre seu estilo de escrita, se me permite. Como você descreveria seu estilo de escrita?

Davidson: Começo a maioria dos meus artigos com ou um problema ou uma questão. Penso que a única coisa que posso dizer sobre meu estilo é que às vezes acho extremamente difícil começar a escrever. Frequentemente imagino a primeira frase e então me pergunto, ‘Espere! O que vem depois?’ Logo em seguida, estou escrevendo o artigo inteiro na minha cabeça, e qualquer problema na composição ou organização do texto faz com que eu nem escreva a primeira frase por medo de ficar de algum modo travado. Quando finalmente escrevo algo, frequentemente descubro que é melhor deixar de fora o primeiro par de páginas, que geralmente me ajudam a adentrar o assunto. Assim, jogo fora por completo essas páginas iniciais penosamente construídas.” (p. 264)

A entrevista completa foi publicada no livro Problems of rationality (OUP, 2004) de Donald Davidson e está também disponível online.

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