Por que a filosofia importa?

Um dia desses, uma aluna me perguntou por que a disciplina de filosofia era importante. Ela queria saber, aparentemente por curiosidade genuína, por que era bom que ela e seus colegas estudassem filosofia no contexto de sua formação técnica integrada ao ensino médio.

Foto do Instituto Federal Farroupilha, Campus Avançado Uruguaiana
Instituto Federal Farroupilha, Campus Avançado Uruguaiana (fonte da foto)

Tendo estudado filosofia por mais de dez anos, esta é uma pergunta que sempre me foi cara—o que não quer dizer que eu tinha uma resposta pronta para oferecer. Para a sorte, minha e de meus alunos, estávamos estudando a ética de Aristóteles e a resposta que ofereci ainda me agrada: se não por outras razões, a filosofia é importante porque é o único espaço curricular dedicado a pensar sobre certos temas. Esses temas especiais incluem, por exemplo, o próprio valor das coisas. Assim, a filosofia é importante porque é apenas na disciplina de filosofia que o aluno poderá pensar de modo aprofundado sobre o que torna algo importante ou valioso, sobre o que torna a vida humana valiosa, sobre o valor das instituições e assim por diante.

Em seu livro Ética a Nicômaco, Aristóteles busca dizer o que é o bem maior para a vida humana (algo que ele chama de sumo bem). Para chegar até esse conceito, Aristóteles primeiro diz que, quando buscamos alcançar algum objetivo com uma ação, esse objetivo tem um valor superior ao da ação. Em outras palavras, as ações que empreendemos como meios para alcançar algum objetivo têm o seu valor derivado do valor do próprio objetivo. Aristóteles pergunta se haveria algum objetivo supremo, algo que é almejado por tudo aquilo que fazemos na nossa vida e que não é um meio para nada mais. Esse objetivo máximo é o sumo bem e Aristóteles entende que cabe a uma ciência especial buscar conhecê-lo. Essa ciência especial é o que hoje chamamos de ética, algo que Aristóteles chamava de ciência política, a qual faz parte da filosofia.

Em minhas aulas de filosofia, os alunos podem pensar sobre esse tema e sobre muitos outros. Eles também são convidados a cultivar o pensamento, a leitura e a escrita minuciosos. Abaixo, seguem algumas das passagens de Aristóteles que lemos para pensar sobre o sumo bem:

“Admite-se geralmente que toda arte e toda investigação, assim como toda ação e toda escolha, têm em mira um bem qualquer; e por isso foi dito, com muito acerto, que o bem é aquilo a que todas as coisas tendem. Mas observa-se entre os fins uma certa diferença: alguns são atividades, outros são produtos distintos das atividades que os produzem. Onde existem fins distintos das ações, são eles por natureza mais excelentes do que estas.

Ora, como são muitas as ações, artes e ciências, muitos são também os seus fins: o fim da arte médica é a saúde, o da construção naval é um navio, o da estratégia é a vitória e o da economia é a riqueza. Mas quando tais artes se subordinam a uma única faculdade — assim como a selaria e as outras artes que se ocupam com os aprestos dos cavalos se incluem na arte da equitação, e esta, juntamente com todas as ações militares, na estratégia, há outras artes que também se incluem em terceiras —, em todas elas os fins das artes fundamentais devem ser preferidos a todos os fins subordinados, porque estes últimos são procurados a bem dos primeiros. Não faz diferença que os fins das ações sejam as próprias atividades ou algo distinto destas, como ocorre com as ciências que acabamos de mencionar.”

“Se, pois, para as coisas que fazemos existe um fim que desejamos por ele mesmo e tudo o mais é desejado no interesse desse fim; e se é verdade que nem toda coisa desejamos com vistas em outra (porque, então, o processo se repetiria ao infinito, e inútil e vão seria o nosso desejar), evidentemente tal fim será o bem, ou antes, o sumo bem.

Mas não terá o seu conhecimento, porventura, grande influência sobre a nossa vida? Semelhantes a arqueiros que têm um alvo certo para a sua pontaria, não alcançaremos mais facilmente aquilo que nos cumpre alcançar? Se assim é, esforcemo-nos por determinar, ainda que em linhas gerais apenas, o que seja ele e de qual das ciências ou faculdades constitui o objeto. Ninguém duvidará de que o seu estudo pertença à arte mais prestigiosa e que mais verdadeiramente se pode chamar a arte mestra. Ora, a política mostra ser dessa natureza, pois é ela que determina quais as ciências que devem ser estudadas num Estado, quais são as que cada cidadão deve aprender, e até que ponto; e vemos que até as faculdades tidas em maior apreço, como a estratégia, a economia e a retórica, estão sujeitas a ela. Ora, como a política utiliza as demais ciências e, por outro lado, legisla sobre o que devemos e o que não devemos fazer, a finalidade dessa ciência deve abranger as das outras, de modo que essa finalidade será o bem humano. Com efeito, ainda que tal fim seja o mesmo tanto para o indivíduo como para o Estado, o deste último parece ser algo maior e mais completo, quer a atingir, quer a preservar. Embora valha bem a pena atingir esse fim para um indivíduo só, é mais belo e mais divino alcançá-lo para uma nação ou para as cidades-Estados. Tais são, por conseguinte, os fins visados pela nossa investigação, pois que isso pertence à ciência política numa das acepções do termo.”

Os fragmentos acima foram extraídos das seções I e II do primeiro livro da Ética a Nicômaco, de Aristóteles. O livro foi traduzido para o português por Leonel Vallandro e Gerd Bornheim e está disponível na íntegra aqui.

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