Filosofia: um guia para iniciantes (problemas na tradução)

O livro Filosofia: um guia para iniciantes (Teichman, J., Evans, K. 2009, Trad. Lucia Sano. São Paulo: Madras) que mencionei no post anterior tem muitas virtudes que o tornam um material atraente para os iniciantes na filosofia:

  1. Ele não inicia com a tradicional e longa tentativa de explicação sobre o que é a filosofia.
  2. Mesmo não cobrindo todos, ou mesmo com exaustão, as diversas áreas da filosofia, o livro apresenta discussões de forma clara e argumentada, enfatizando os problemas filosóficos e o papel da argumentação na busca de respostas para esses problemas.
  3. Não se trata de um livro de história da filosofia. Esta não é deixada de lado, mas fica no seu devido lugar: ela é um pequeno apêndice no final do livro.

Apesar dessas virtudes, há dois pequenos erros no capítulo “A matéria da lógica”. O trecho que considero problemático é o seguinte:

“Não importa quão forte o indício, a verdade da conclusão de uma inferência dedutiva não é garantida. Uma inferência dedutiva razoável é compatível com a falsidade de sua conclusão” (p. 195)

Não sei se o engano foi das autoras ou da tradutora, mas minha sugestão é que as duas ocorrências da palavra “dedutiva” sejam substituídas por “indutiva”.

Dedução é por definição justamente o tipo de argumento em que a verdade das premissas é incompatível com a falsidade da conclusão. É num argumento indutivo que, mesmo que a verdade das premissas seja assegurada, a falsidade da conclusão é sempre possível. Uma das razões para isso é que a conclusão de um raciocínio indutivo é uma afirmação universal, cujas premissas são particulares (sobre isso conferir A verdade e a falsidade de afirmações universais).

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Um erro tipográfico (typo) em Speech Acts

Há algum tempo atrás, enquanto eu estava estudando uma discussão sobre asserção, acabei lendo o livro Speech Acts, de John Searle. Antes de mais nada fiquei encantado com o estilo de escrever deste importante filósofo, principalmente quanto à clareza.

Por ter-me detido mais à questão da asserção, “tive a sorte” de encontrar um pequeno engano (provavelmente de digitação) no Capítulo 3, seção 3.4 “Extending the analysis”. Na frase que começa na linha 9 da página 64 (edição de 2007) diz assim:

“For assertions, the preparatory conditions include the fact that the hearer must have some basis for supposing the asserted proposition is true, […]”

A palavra “hearer”, para quem tem familiaridade com a teoria de Searle, está equivocada aí. O correto seria “speaker”, é o falante que tem que ter alguma base para supor que a proposição que ele afiam é verdadeira, não o ouvinte.

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A little typo on Speech Acts by John Searle:

In Chapter 3, section 3.4 “Extending the analysis” (p.64 in the edition of 2007):

“For assertions, the preparatory conditions include the fact that the hearer must have some basis for supposing the asserted proposition is true, […]”

“hearer” is to be read “speaker”.

Livro:
Searle, Speech Acts: ver em Amazon.com.

Aristóteles – De anima (Da alma) – erro de tradução

Penso ter encontrado um pequeno problema de tradução no livro Da Alma de Aristóteles, tradução de Carlos Humberto Gomes, publicado pela Edições 70. No Livro II, o capítulo “As faculdades da alma” (pagina 57) começa assim:

“Em relação àquelas faculdades por nós referidas, algumas criaturas animadas, como também já dissemos, 414 a 30. possuem umas todas elas enquanto que outras, apenas algumas, e finalmente outras ainda, unicamente uma. Estas capacidades, como aliás fizemos menção, são respectivamente as faculdades nutritiva, desiderativa, sensitiva, de locomoção e de pensamento. As plantas não possuem faculdade nutritiva, outros seres vivos, pelo contrário, 414 b 1. possuem de maneira diversa a faculdade sensitiva e, em conjunto com ela, também a faculdade desiderativa, compreendendo o desejo necessariamente o apetite, a paixão e a vontade.”[1]

 O trecho sublinhado (onde julgo haver problema) contradiz o que, no mesmo capítulo, é dito mais adiante (sublinhado abaixo):

“Na verdade, assim desprovida de faculdade nutritiva, a faculdade sensitiva nunca poderá ser concedida; mas, pelo contrário, pode encontrar-se a faculdade nutritiva sem faculdade sensitiva nas plantas.”[2]

Vejamos como aparece o trecho que coloquei em questão em outras traduções. Tomás Calvo Martínez traduziu o mesmo trecho para o espanhol como segue:

“En las plantas se da solamente la facultad nutritiva, mientras que en el resto de los vivientes se da no sólo ésta, sino también la sensitiva.”[3]

 Para o inglês, este mesmo trecho foi traduzido por J. A. Smith, assim:

 “Plants have none but the first, the nutritive, while another order of living things has this plus the sensory.”[4]

Baseado nestas duas traduções e em que o trecho que acredito ter problema contradiz outro do mesmo livro, sugiro que o original: 

“As plantas não possuem faculdade nutritiva, outros seres vivos, pelo contrário, 414 b 1. possuem de maneira diversa a faculdade sensitiva …”

 seja lido como:

 “As plantas possuem apenas a faculdade nutritiva, enquanto outros seres vivos, pelo contrário, possuem de maneira diversa a faculdade sensitiva …”

 Bem, era isso. Ficarei grato se receber comentários, concordem comigo ou não.

 

 


[1]    Aristóteles, Da Alma, trad. Carlos Humberto Gomes, Lisboa:Edições 70, p57.

[2]    Ibid. p59.

[3]    Aristóteles, Acerca del Alma, trad. Tomás Calvo Martínez (p55 do arquivo abaixo). Disponível em: http://www.scribd.com/…/Aristoteles-Acerca-del-Alma

[4]    Aristotle, De anima (On the soul) trad. J. A. Smith (p14 do arquivo abaixo). Disponível em: dominiopublico.gov.br/…/ps000011.pdf

Erros de tradução – Dancy – Uma introdução à epistemologia contemporânea

Identifiquei alguns erros na tradução do livro de Jonathan Dancy, An Introduction to Contemporary Epistemology, por Teresa Louro Pérez, pela Edições 70, Lisboa, Portugal.
Os dois primeiros casos que menciono abaixo julgo mais graves que os demais, que apenas facilitam a compreensão na minha opinião. Faço a sugestão de correção com base na tradução para o espanhol, por José Luis Prades Celma (Madrid, 1993), dado que não tenho acesso no momento ao original. A versão espanhola pode ser acessada na Biblioteca On-line aqui do blog.

Correções:

Capítulo 4, Sec. 4.2, Problemas do Fundacionalismo Clássico, primeiro parágrafo (p. 79), onde se lê:

“Uma das principais razões para querer que as crenças básicas próprias sejam infalíveis é que isto garantiria que são todas verdadeiras. Mas haverá algum ojectivo real em procurar esta garantia? Os princípios de inferência pelos quais devemos passar das crenças básicas para as não-básicas são infalíveis, no sentido de que nos levam por vezes de crenças verdadeiras para falsas.”

Sugiro a troca de infalíveis (em negrito) por falíveis.

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Capítulo 8, sec. 8.3, A Teoria da Coerência da Justificação, primeiro parágrafo (p. 148):

“Esta teoria defende que uma crença é justificada na medida em que o conjunto de crenças do qual é membro é coerente. Cada crença deve ser avaliada por recurso ao papel que desempenha no conjunto de crenças. Se a coerência do conjunto aumentasse abandonando a crença e talvez substituindo-a pelo seu oposto, a crença é justificada.”

Sugiro a substituição da palavra destacada por injustificada.

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Capítulo 8, sec 8.5, Coerentismo e empirismo, quarto parágrafo (p 157):

“Bradley defende que a experiência […]. Os dados representam a aceitação no nosso mundo da mesma maneira e pelos mesmos critérios que qualquer que qualquer outra proposição.”

Este caso não me parece tão grave quanto os outros, mas ainda assim surigo a substituião do trecho destacado por recebem.

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Mesma seção 8.5, no parágrafo sexto (p. 158):

“É claro que se poderia optar por uma saída fácil e argumentar que esta objeção só é válida contra coerentismo puro, que defende que todas as crenças tenham [a mesma] segurança antecedente; …”

Sugiro aqui a inserção das palavras em destaque que não constam na versão portuguesa.