Como tornar-se um filósofo profissional?

Ao longo dos anos que já dediquei à filosofia, sempre me foi presente a questão sobre como tornar-se um filósofo, um bom filósofo, ou um filósofo profissional. Coloco aqui meus pensamentos atuais sobre o assunto, na esperança de que possa receber comentários, sugestões, críticas e, quem sabe, ser útil a mais alguém.

Quando me faço a pergunta do título, no fundo, estou contrastando uma maneira de voltar-se à filosofia com duas outras: fazer história da filosofia profissionalmente, ou apenas levar uma vida reflexiva, ser um pensador livre. No que segue, direi o que penso sobre como fazer filosofia, por contraste a esses outros dois modos, contra os quais nada tenho a dizer (sobre o contraste filosofia/história da filosofia, recomendo a palestra de Oswaldo Porchat Pereira e a entrevista com Desidério Murcho).

Mas bem, poderia haver alguma fórmula ou caminho seguro rumo à atividade filosófica profissional? Obviamente a resposta deve ser que não. Mas eu ainda assim gostaria de sugerir alguns passos que penso poderem ser de grande ajuda, e que talvez tivessem aprimorado minha experiência filosófica, se me tivessem sido sugeridos algum tempo atrás.

  • Qual tema? Qual questão?

Um primeiro ponto diz respeito ao assunto sobre o qual trabalharemos. A filosofia é uma área muito vasta do conhecimento, e praticamente qualquer coisa está sujeita a ser abordada filosoficamente em alguma medida. (Em alguma medida, pois, por exemplo, que água seja H2O não parece ter qualquer interesse filosófico, apesar de haver inúmeras questões filosóficas interessantes envolvendo a química que são abordadas em filosofia da ciência e filosofia da química).

Bem, dada a abrangência permitida pela filosofia, teremos de escolher, delimitar, alguma área. E, em princípio, podemos nos guiar aqui por duas opções: o que nos interessa pessoalmente e o que é um assunto relevante (por razões teóricas ou circunstanciais). Obviamente que o interesse pessoal deverá ter um peso considerável, pois é dele que dependerá a energia para tocar o barco adiante. Mas, dado que geralmente será preciso escolher questões mais específicas, problemas passíveis de solução no prazo de um projeto com duração temporal delimitada, o quesito da relevância poderá ajudar nesta delimitação dentro de uma tema maior de interesse pessoal. Algumas  questões mais técnicas, por exemplo, podem ser pouco interessantes por si mesmas, mas podem ser de grande relevância para questões mais amplas, em assuntos que podem ser dos mais interessantes. E outras questões técnicas podem ser absolutamente laterais que há pouca esperança de se conseguir algo relevante pessoal ou teoricamente com elas. Então, talvez seja bom levar isso em conta na hora de delimitar o tema e as questões específicas a serem investigadas.

Como deve ter sido possível notar, em momento algum falei algo sobre qual “autor” ou “escola” filosófica escolher. Se o interesse é em fazer filosofia, e não história da filosofia, os autores não são o alvo, são secundários. É claro que teremos que ler algum(ns) autor(es), pois afinal, não há material que não tenha sido produzido por alguém. Mas, isto deve ficar claro, aquilo que vamos ler é fruto de uma delimitação temática anterior, e não o inverso. Então, depois de delimitado o assunto, temos de encontrar alguma maneira de selecionar os autores e os textos relevantes a serem estudados.

  • O que ler?

O que ler, portanto, deve ser decidido em função do tema escolhido. E isso vale para livros e artigos e também para autores. O principal problema agora, dada a delimitação maior determinada pelo tema escolhido, é a enorme quantidade de material que encontramos hoje em dia (especialmente na internet) em praticamente qualquer assunto.  O problema, portanto, é um problema de escolha, delimitação.

Uma primeira sugestão que eu gostaria de fazer é que é muito difícil para o autodidata resolver essa tarefa de seleção. Presumimos que para dizer se algo é pertinente ou não para certos propósitos, é necessário conhecer esse algo. Assim, parece que teríamos que ler tudo o que existe para poder depois ter uma lista daquilo que é relevante. Em parte isso é mais ou menos assim, exceto pela impossibilidade prática de se ler tudo. O iniciante autoditada, então, está numa situação paradoxal: para escolher o que ler, teria de já conhecer o que lerá; mas para conhecer, terá de escolher por onde começar.

Minha sugestão é deixar de ser completamente autodidata aqui: precisaremos de ajuda. A pergunta, então, é: a ajuda de quem. A seguir, darei indicarei alguns recursos que podem servir (combinados, provavelmente, eles serão mais eficientes):

Antologias: em português esse tipo de material não é muito comum (ao menos na filosofia). Uma exceção é a antologia Viver para quê? Ensaios sobre o sentido da vida, organizada por Desidério Murcho. Em inglẽs, temos uma variedade de antologias sobre vários temas: metafísica, ética, filosofia da mente, filosofia da lógica, filosofia da linguagem, livre arbítrio e muitas outras. O propósito desses materiais, em geral, é reunir textos consagrados em uma certa área de estudo, especialmente os que compõem as questões atualmente em discussão.

Enciclopedias: há ao menos duas enciclopédias on-line de filosofia consagradas: a Stanford Encyclopedia of Philosophy e a Internet Encyclopedia of Philosophy. Em ambas, filósofos consagrados escrevem artigos de revisão das questões e da literatura em relevante atualmente em suas áreas de estudo. Ler esses verbetes ajuda a tomar conhecimento do estado da arte nos respectivos temas, e oferece uma lista bibliográfica (já comentada) que pode muito bem servir para selecionar o material a ser estudado no tópico escolhido.

Listas bibliográficas: provavelmente a referência mais consagrada aqui seja o Philpapers.org. Esse indexador de livros e artigos apresenta os materiais categorizados por tópico e subtópico. Muitas das categorias são organizadas por profissionais reconhecidos, que também indicam a relevância dos materiais para suas respectivas áreas. Um novo recurso parecido é o portal Oxford Bibliographies.

Uma sugestão que alguns fariam, além das acima, é também ficar a par dos avanços científicos que se dão em áreas relacionadas aos tópicos de interesse filosófico, já que muitas vezes esses avanços são relevantes para as discussões filosóficas.

Bem, é importante ressaltar que tudo isso é apenas um grande esboço. Muito mais poderia ser acrescentado, e sugestões em direções divergentes poderiam ser dadas por outras pessoas. Comentários, sugestões e críticas serão muito bem-vindos, e eu espero que isso possa servir de orientação a mais alguém.

Problemas Filosóficos I – Indução

Uma característica sempre enfatizada da filosofia é que ela se ocupa com problemas. Neste texto, seguindo a formulação de David Hume na Investigação acerca do Entendimento Humano, apresentarei o famoso problema da indução.

Em linhas gerais, ao menos tal como Hume o colocou, o problema pode ser apresentado como segue:

Há alguma razão para que presumamos que as regularidades causais que observamos no passado continuarão se dando no futuro? Há alguma justificativa racional para que, em geral, presumamos que as coisas serão no futuro semelhantes a como foram até então? Ou, ainda, podemos justificar por raciocínios nossa crença de que o sol nascerá amanhã, apenas pelo fato de ele ter nascido todos os dias que já vivemos até hoje?

A resposta de Hume, como muitos talvez já saibam, é negativa. Não é por raciocínios, por argumentos dedutivos, que demonstraremos que o futuro será semelhante ao passado. O problema pode também ser formulado assim:

P1: Vi que o sol nasceu no dia 08 de março de 1990.
P2: Vi que o sol nasceu no dia 09 de março de 1990.

Pn: Vi que o sol nasceu todos os dias desde 08 de março de 1990 até hoje, 09 de Maio de 2010.
(C) Logo, O sol nascerá amanhã. (Aqui foi feita uma indução).

Essa conclusão não se segue das premissas. É logicamente possível que as premissas todas (de P1 até Pn) sejam verdadeiras e, ainda assim, a conclusão (C) seja falsa.

O problema filosófico aí, o qual ocupou vários filósofos desde então, seria o de como justificar ou explicar essa inferência que sempre fazemos. O próprio Hume sabia que sempre fazemos essa inferência (todo mundo “sabe” que o sol nascerá amanhã). Mas é desconfortante pensar que isso, que é tão presente em nossas vidas, seja fruto de uma falha lógica, que não é um raciocínio logicamente válido que sustenta essa nossa inferência. Poderíamos dizer, inclusive, que a própria ciência para funcionar (fazer previsões e tudo o mais) está vulnerável a esse problema. Também isto, que não poucas vezes temos como a única certeza que podemos ter na vida – que vamos morrer –, repousa numa inferência logicamente inválida. Tamanha é a abrangência do problema da indução!

———

Referência: HUME, Investigação acerca do entendimento humano, Sec. IV [ver o livro na Livraria Cultura].

O Futuro da Filosofia, de John Searle

Título: O Futuro da Filosofia
Autor: John R. Searle
Páginas: 3 (primeira parte do original)
[ Acesse o texto aqui ]

“Essas características das questões filosóficas, que elas tendem a ser questões estruturais e não se prestar à pesquisa empírica sistemática, explicam por que a ciência está sempre “certa” e a filosofia sempre “errada”. Tão logo encontramos um modo sistemático de responder uma questão, e chegamos a uma resposta que todos os investigadores competentes na área possam concordar que é a resposta correta, paramos de chamá-la “filosófica” e começamos a chamá-la “científica”.” (John Searle em “O Futuro da Filosofia”)


Filósofos, Filosofia e Psicanálise I

Quero com este post trazer ao blog um tema que é novo para mim. Trata-se da psicanálise (sob a forma de filosofia da psicanálise ou da psicologia), e o que me chama a atenção nesse assunto é a diversidade de opiniões que os mais variados filósofos contemporâneos tiveram ou têm a este respeito. O assunto sem dúvida é polêmico e não acabado. Para introduzir o tema aqui vou fazer citações da filósofa e psicanalista Marcia Cavell e do Filósofo John Searle. O que chamará a atenção são as posições radicalmente opostas que os dois mantém. (Faço ao mesmo tempo uma propaganda do livro de Cavell e convido quem já o tenha lido, ou quem simplesmente esteja interessado no assunto, a comentar).

—————–

Trecho de Marcia Cavell, Becoming a Subject – Reflections in Philosophy e Psychoanalysis (New York: Oxford University Press, 2006), 3-5pps:

“ A direção de influência entre filosofia e psicanálise vai em ambas as direções. Como uma teoria dedicada ao que é ser uma pessoa, a ampliar (como uma questão de prática) o escopo no qual agimos em algum sentido livremente, e com o auto-conhecimento, a psicanálise pode aprender com a filosofia, uma vez que é aí que ocupou-se mais atenciosamente destes temas. Em retorno, tratamentos filosóficos deles demandam, eu acredito, reconhecimento de algumas alegações básicas da psicanálise.
Entre as duas disciplinas há uma grande área de sobreposição e, obviamente, muitas diferenças, uma das quais é que em filosofia e nas ciências duras o particular entra principalmente na forma de instância e exemplo, enquanto que, tanto em sua teoria quanto em sua prática, a psicanálise precisa glorificar o fato de que nunca dois seres humanos são mais do que grosseiramente semelhantes. Freud tem sido algumas vezes criticado por assumir que há tal coisa como uma natureza humana, ou um conjunto de generalizações que podem ser feitas a respeito de todas as pessoas em todos os tempos. Eu não estou certa de que ele assume isso. Ele certamente acredita que grandes perturbações na cultura podem mudar o que temos tomado como sendo o natural e universal. (Pense em Totem and Taboo e Civilization and its Discontents.) Mas, de qualquer modo, embora a psicanálise frequentemente faça vastas generalizações sobre desenvolvimento, ela não generaliza sobre ‘o sujeito’; ela toma cada um de nós como sendo único de um modo como qualquer tipo de ‘ciência’ possível sobre nós deve moldar-se. Devesse a psicanálise abandonar tal perspectiva, como ela faria se, por exemplo, decidisse que o discurso sobre o mental poderia ser completamente substituído por um discurso sobre circuitos neurais, e ela estaria morta. Mas, longe de mover-se em tal direção, analistas estão cada vez mais cientes, precisamente, de quão complexas são as variáveis que afetam o que cada um de nós sente, pensa, ou diz à sua analista, e a própria relação analítica.
Psicanálise, portanto, é, e deve ser, uma ciência “peculiar”, como se reflete no fato de “psicanálise” referir-se, de uma só vez, a uma teoria da mente, um método de prática clínica, e uma teoria sobre essa prática. Talvez essa peculiaridade seja uma das fontes do espanto que ela tão frequentemente levantou. Embora eu acredite que haja também outras.
Por um longo período, filósofos, interessantemente mais na Grã-Bretanha que na América, souberam que seus interesses filosóficos amarravam-se na psicanálise. Da Grã-Bretanha, pense em Stuart Hampshire, Ludwig Wittgenstein, John Wisdom, Richard Wollheim, Alasdair MacIntyre, David Pears, James Hopkins, Sebastian Gardner, David Snelling; dos Estados Unidos e Canadá: Herbert Fingarette (cujo trabalho tem sido, em minha opinião, insuficientemente aproveitado), Richard Kuhns, Stanley Cavell, Jonathan Lear, Jerome Neu, Donald Davidson, Ronald de Sousa, Adolph Grunbaum (em desprezo).” (Minha Tradução).

————–

Agora o Searle. Ele fala da psicologia Freudiana em particular. O livro é Mente, Linguagem e Sociedade – Filosofia no mundo real (Rio de Janeiro: Rocco, 2000 [originalmente de 1998]). Searle fala da psicologia como um dos ataques à visão moderna (iluminista) do mundo e do homem:

“… a psicologia freudiana foi considerada não como uma porta de entrada para uma racionalidade melhorada, mas sim como uma prova da impossibilidade da racionalidade. Segundo Freud, a consciência racional é apenas uma ilha no oceano do inconsciente irracional.” (p.12-13)

E, rejeitando esse ataque:

“… a psicologia freudiana, qualquer que tenha sido sua contribuição definitiva para a cultura humana, não é mais levada a sério como teoria científica. Ela continua a existir como fenômeno cultural, mas poucos cientistas sérios acreditam que forneça uma explicação cientificamente consistente do desenvolvimento psicológico e da patologia humanos.” (p.14)

——————

A forma como Searle trata do assunto é de visível desprezo. Outro filósofo famoso por criticar o status de “ciência” da psicanálise foi Karl Popper. Mas, como Cavell mencionou, vários outros filósofos de peso abordaram questões que se ligavam à psicanálise, como Wittgenstein e Davidson. A questão sem dúvida é intrigante.

* O texto de Cavell pode ser visualizado no Google Books, aqui.

Livros:
Cavell, M. Becoming a subject: ver em Amazon.com.
Searle, J. Mind, language and society:  ver em Amazon.com.

A tese determinista

” […] Não é, entretanto, tão difícil como alguns têm pensado, dizer o que significa a tese determinista. Eu argumentei alhures que a causalidade ‘nos objetos’ (como oposta ao nosso conceito de causalidade) pode ser analisada em termos de complexas regularidades em conjunto com certos tipos de continuidade de curso e (para prover a direção da causalidade, a assimetria de causa e efeito) da noção de um único e fixo evento resultante de sua causa. Assim, a tese determinista é de que para cada evento há uma causa antecessora suficiente, isto é, um conjunto de acontecimentos e condições temporalmente anterior que é suficiente, de acordo com alguma regularidade, para apenas tal evento e que conduz a ele através de um processo qualitativamente contínuo.

Esta tese seria falsificada se houvesse duas situações antecessoras que fossem semelhantes em todos os aspectos relevantes, mas que tivessem conseqüências diferentes. Nós fazemos progresso a seu respeito, confirmando-a, na medida em que encontramos o que parecem ser explicações causais satisfatórias de mais e mais tipos de acontecimentos. Esta é uma tese empírica, que apenas o progresso da ciência irá gradualmente confirmar ou talvez, mais dramaticamente, desmentir. Este ponto de vista problemático do determinismo pode ser defendido por um exame de alguns dos argumentos a priori ou do perfil geral de argumentos que têm sido desenvolvidos em cada lado.

Tem sido dito que o determinismo é um pressuposto necessário à ciência; mas de modo errôneo: algumas teorias científicas, tais como a mecânica quântica, seguem adiante muito bem sem ele. A verdade apenas é que o determinismo com relação a classes específicas de fenômenos é frequentemente uma hipótese funcionando. Em qualquer caso, se a ciência pressupusesse determinismo, isto mais enfraqueceria do que reforçaria a tese, por tornar impossível para a ciência testá-la e também comprová-la. […]”

(MACKIE, J.L. Ethics: Inventing Right and Wrong, London: Penguin Books, 1977, Cap 9, “Causal Determinism and Human Action”, trecho traduzido por mim – ver o livro em Amazon.com).