Treinar Lógica

Gostaria de divulgar um projeto em fase de desenvolvimento que pretende contribuir com o ensino e a aprendizagem de lógica, especialmente na disciplina de filosofia no Ensino Médio. Trata-se do Treinar Lógica, que pode ser acessado aqui. Este software consiste em exercícios de múltipla escolha on-line que envolvem noções elementares de lógica.

Acessar os exercícios de lógica on-line >>

Verdade

“…Quando não havia distinção clara entre filosofia e ciência, era natural que os filósofos se afirmassem como as pessoas mais aptas a oferecer algo mais próximo da verdade. A concentração na epistemologia, principalmente no momento em que a epistemologia parecia ter sido convocada a fornecer as bases últimas da justificação do conhecimento, encorajou a ideia confusa de que o lugar em que se procuraria as verdades finais e mais básicas, nas quis todas as outras verdades – seja da ciência, da moralidade ou do senso comum – se baseariam, seria a Filosofia. A junção que Platão fez, dos universais abstratos com entidades de valor superior, reforçou a confusão da noção de verdade com as verdades mais elevadas; a confusão é evidente no ponto de vista (que Platão enfim questionou) de que só um exemplar perfeito de universal ou de forma é a forma em si. Assim, só a circularidade (o universal ou conceito) é perfeitamente circular, só o conceito de mão é a mão perfeita, só a verdade é totalmente verdadeira.

Temos, aqui, uma confusão profunda, um erro de classificação que, aparentemente, foi condenado a prosperar. A verdade não é um objeto, e por isso não pode ser verdadeira; a verdade é um conceito, e é atribuível de modo compreensível a coisas tais como sentenças, pronunciamentos, crenças e proposições, entidades essas que têm um conteúdo proposicional. É um erro pensar que, se alguém procura entender o conceito de verdade, esse alguém está necessariamente tentando descobrir verdades gerais importantes sobre justiça ou sobre os fundamentos da física. O erro permeia até a ideia de que uma teoria da verdade deva nos dizer, de algum modo, o que é verdadeiro, em geral, ou ao menos como descobrir as verdades.

Não é de estranhar que tenha havido reação! A filosofia prometia muito mais do que ela, ou qualquer outra disciplina, podia dar. A reação de Nietzsche ficou famosa; os pragmáticos americanos também reagiram, só que de outro modo. Dewey, por exemplo, rejeitou de modo bastante adequado a ideia de que os filósofos tinham intimidade com algum tipo especial ou fundamental de verdade, sem a qual a ciência não pudesse progredir. Mas combinou essa modéstia virtuosa com uma teoria absurda sobre o conceito de verdade; visando ridicularizar as pretensões de acesso superior às verdades, ele sentiu necessidade de atacar o próprio conceito clássico. O ataque, à moda da época, assumiu a forma de uma redefinição convincente. Uma vez que a palavra ‘Verdade’ tem uma aura de algo valioso, o truque das definições convincentes é redefini-la de modo que ela seja algo daquilo que se aprovam algo ‘pelo que possamos nos guiar’, frase de Rorty apoiado em Dewey. Desse modo, Dewey afirmou que uma crença ou teoria é verdadeira apenas e tão somente se promover questões humanas.” (Donald Davidson, “Verdade”. In: Livro anual de psicanálise XX, 2006: 275-280)

A verdade e a falsidade de afirmações universais

Eu tenho me convencido ultimamente que ensinar um conjunto mínimo de noções de filosofia da linguagem e de lógica no Ensino Médio pode bem ser a melhor maneira de promover o tão esperado senso crítico ou educação para a cidadania. E isso se deve justamente ao caráter formal, abstrato ou desprovido de conteúdo desses conhecimentos. Aprender essas noções mínimas de lógica e filosofia da linguagem não é aprender um conjunto de verdades, que a partir de então seriam aceitas como incontestáveis. Não! Aprender essas noções mínimas é essencialmente uma questão de adquirir um conjunto de técnicas, instrumentos ou habilidades que podem ser aplicados a toda e qualquer pretensão de verdade que tenhamos em nossas vidas diárias.

Um conjunto de esclarecimentos que penso serem do tipo que mencionei acima diz respeito às condições de verdade de afirmações universais. Quero considerar aqui afirmações do tipo:

  1. “Todas os casos de aborto são moralmente errados”; e
  2. “Nenhum político é sincero”.

Essas afirmações são chamadas universais por dizerem algo acerca de todas as coisas de um certo tipo – políticos, abortos etc. A afirmação (1), por exemplo, diz que todo e qualquer caso de aborto é moralmente errado; a afirmação (2) é universal (porém negativa) por dizer que todo e qualquer político não é sincero.

Falar das condições de verdade de uma afirmação é falar sobre as condições que, se preenchidas, mostrariam que ela é verdadeira ou falsa. No caso das afirmações universais é mais fácil falar primeiro das condições em que elas são falsas.

Voltemos aos exemplos. Para que a afirmação (1) seja falsa basta que exista um único caso de aborto que não seja moralmente errado. Temos vários exemplos disso: casos de aborto em que a concepção foi resultado de estupro ou (se você não concorda com esse caso) abortos espontâneos não são moralmente errados. Portanto, a afirmação (1) é falsa.

No caso da afirmação (2), também é mais fácil dizer em que caso ela seria falsa. Para que (2) seja falsa basta existir um único político que é sincero. (2) diz que todos os políticos não são sinceros e, portanto, um único caso de político que é sincero mostra que (2) é falsa. Assim, se você conhece um político sincero, então você não pode tomar por verdadeira a afirmação (2).

Agora, em que casos seriam verdadeiras as afirmações universais? Se uma afirmação universal é verdadeira, isso implica que entre todas coisas ou indivíduos sobre os quais ela fala não existe nenhum que contradiga o que é afirmado sobre eles. Por exemplo, para que fosse verdadeira a afirmação (1), não poderia existir nenhum caso de aborto que fosse moralmente aceitável. Para que (2) fosse verdadeira, também, não poderia haver um único político sequer que fosse sincero.

A grande dificuldade em estabelecer a verdade da maioria das afirmações universais é que nossas capacidades de conhecimento (ou cognitivas) não conseguem varrer todos os casos abrangidos e conferir se estão de acordo com o que é dito a seu respeito. Estabelecer a verdade delas exigiria percorrer todo um grupo de indivíduos – os abortos ou os políticos, por exemplo – e constatar que ali não existe nenhum caso que contradiga o que foi afirmado sobre eles – que todos os casos de aborto investigados são errados e que cada um de todos os políticos investigados não é sincero.

O problema é que em muitos casos isso é praticamente irrealizável. Em muitos casos as afirmações universais falam de coisas que não estão acessíveis a nós. Isso pode se dar quando ela fala sobre casos passados ou futuros que não estão mais, ou ainda, acessíveis (ex: “Nenhum dinossauro tinha cinco pernas”), quando ela fala sobre coisas às quais não temos acesso (ex: “Todas as galáxias têm buracos negros”) entre outros casos.

Um fato curioso é que a maioria dos preconceitos são sustentados de maneira universal. Sendo assim, temos agora a chave para combatê-los: basta encontrar um único caso que contradiga a afirmação universal. É por isso, também, que é prudente conferir o estatuto de hipótese à grande maioria das afirmações universais. Geralmente não temos em mãos todos os casos que precisaríamos investigar a fim de estabelecer a verdade de uma afirmação universal. Isso implica que não estamos livres de encontrar em breve um caso mostrando que uma afirmação universal é falsa e precisa ser abandonada.

Camus, Hare e o sentido da vida

O texto seguinte é uma citação de Fearn, N. Filosofia: novas respostas para antigas questões, trad. Maria Borges. Zahar: Rio de Janeiro, 2006, p. 189-90 (A citação de R. M. Hare é do texto “Nothing Matters”, em Applications of Moral Philosophy, Londres: Macmillan, 1972).

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O filósofo de Oxford R. M. Hare, morto em 2002, gostava de contar a história de como um adolescente suíço hospedado em sua casa havia mudado de repente de sua disposição normalmente alegre para uma depressão mórbida. Hare sentiu-se compelido a agir depois que o menino parou de comer, começou a vagar pelo campo após o anoitecer e, de maneira muito sintomática, “nos surpreendeu uma manhã pedindo cigarros – até então, nunca havia fumado”. A influência da filosofia francesa era inconfundível e, de fato, veio a se saber que o jovem hóspede havia sofrido um choque psicológico uma noite após ler O estrangeiro, do existencialista Albert Camus. Como Mersault, o herói do magnífico romance, ele havia concluído que “nada importa”. A cura foi simples, Hare escreveu:

Meu amigo não havia compreendido que a função da palavra “importar” é expressar interesse; ele havia pensado que importar era algo (alguma atividade ou processo) que as coisas faziam, mais ou menos como falar; como se a frase “Minha mulher me importa” fosse similar em função lógica à frase “Minha mulher me diz”. Se pensamos assim, podemos começar a nos perguntar que atividade é essa, chamada importar; e podemos começar a observar o mundo atentamente (ajudados talvez pelas descrições claras e frias de um romance como o de Camus) para ver se conseguimos perceber alguma coisa fazendo algo que possa ser chamado de importar; e quando não conseguimos observar nada acontecendo que pareça corresponder a essa palavra, é fácil para o romancista nos convencer de que, afinal de contas, nada importa. A resposta para isso é que “importar” não é uma palavra desse tipo; ela não se destina a descrever algo que as coisas façam, mas a expressar nosso interesse pelo que elas fazem; assim, é claro que não podemos observar as coisas importando, mas isso não significa que elas não importem… Meu amigo suíço não era um hipócrita. O problema dele era que, por ingenuidade filosófica, tomou por um problema moral real o que não era absolutamente um problema moral, mas um problema filosófico – um problema a ser resolvido não por uma luta dolorosa com sua alma, mas por uma tentativa de entender o que ele estava dizendo.

Livro:
Fearn, N. Filosofia: novas respostas para antigas questões: ver na Livraria Cultura.

Exercício de filosofia

A seguinte apresentação de Alindro Conval foi fornecida por ele mesmo em uma entrevista de emprego em 1998:

– “Olá, eu adoraria ser contratado para a vaga. Entretanto, eu sofri um acidente há 2 anos e fiquei com a seguinte anomalia psíquica: tudo o que eu falo é mentira”.

Quando ocorreu o acidente de Alindro Conval?

Links relacionados:
Crítica – Paradoxos
SEP – Liar Paradox

Epistemologia no espelho do significado

As passagens abaixo são do artigo “Thought and Talk” (Pensamento e Fala), de Donald Davidson (em Inquiries into Truth and Interpretation). O assunto abordado é a possibilidade ou não de a maior parte de nosso conjunto de crenças ser falsa. O ponto de Davidson parece ser que mesmo a possibilidade de certos desacordos requer um conjunto amplo de crenças compartilhadas. (Obs: O post também pode ser visto como um complemento/resposta a este aqui, no blog do Elano Bezerra.)

Mas certamente não pode ser assumido que falantes nunca têm crenças falsas. O erro é o que dá à crença seu traço característico (point). Podemos, entretanto, tomar como dado que a maioria das crenças são corretas. A razão para isso é que uma crença é identificada por seu lugar em um padrão de crenças; é esse padrão que determina o conteúdo da crença, aquilo sobre o que a crença é. Antes que um objeto ou aspecto do mundo possa tornar-se parte do conteúdo (subject matter) de uma crença (verdadeira ou falsa), tem de haver infindáveis crenças verdadeiras sobre o conteúdo (subject matter). Crenças falsas tendem a enfraquecer a identificação do conteúdo; enfraquecer, portanto, a validade de uma descrição da crença como sento a respeito de tal assunto. E assim, por sua vez, crenças falsas enfraquecem a alegação de que uma crença aparentada é falsa. Para tomar um exemplo, quão claro estamos de que os antigos – alguns antigos – acreditaram que a Terra era plana? Esta Terra? Bem, esta Terra nossa é parte do sistema solar, um sistema parcialmente identificado pelo fato de que é uma multidão de grandes corpos, frios e sólidos, girando em volta de uma estrela quente e enorme. Se alguém não acredita em nada disso a respeito da Terra, é certo que é a respeito da Terra que está pensando? Não é exigida uma resposta. Atingimos o ponto se esse tipo de consideração sobre crenças relacionadas pode abalar a confiança de alguém de que os antigos acreditavam que a Terra era plana. Não é que qualquer crença falsa destrói necessariamente nossa habilidade de identificar as demais crenças, mas que a inteligibilidade de tais identificações tem de depender de um plano de fundo de crenças verdadeiras, em sua maioria não-mencionadas e não-questionadas. Colocando de outro modo: quanto maior o número de coisas a respeito das quais aquele que acredita estiver certo, mais pontuais serão seus erros. Erros em excesso simplesmente obscurecem o foco. (p.168)

Alguns desacordos são mais destrutivos ao entendimento que outros, e uma teoria sofisticada tem que, naturalmente, levar isso em conta. Desacordo sobre questões teóricas podem (em alguns casos) ser mais toleráveis que desacordos sobre o que é mais evidente; desacordo sobre como as coisas parecem, ou sobre com a que se assemelham, é menos tolerável que desacordo sobre como elas são; desacordo sobre a verdade de atribuições de certas atitudes a um falante por esse mesmo falante pode, certa ou simplesmente, não ser tolerável. É impossível simplificar as considerações que são relevantes, pois tudo o que sabemos ou acreditamos sobre o modo como a evidência sustenta crenças pode ser usado (put to work) para decidir onde a teoria pode melhor permitir erro, e quais erros são menos destrutivos do entendimento. A metodologia de interpretação é, a esse respeito, nada mais que a epistemologia vista no espelho do significado.(p.169)

Problemas Filosóficos II – Consciência

“A experiência consciente é ao mesmo tempo a coisa que melhor conhecemos no mundo e a mais misteriosa. Não há nada que conheçamos de forma mais directa do que a consciência mas é incrivelmente difícil conciliá-la com o resto dos nossos conhecimentos. Porque é que existe? O que faz? Como é possível que nasça de processos neuronais no cérebro? Estas são algumas das questões mais intrigantes de toda a ciência.” (Chalmers)

Um dos problemas envolvendo a consciência é explicar como alguma coisa, que é composta unicamente de matéria, pode vir a ter pensamentos, intenções, ter pensamentos acerca de outras coisas. Se abríssemos nosso cérebro não veríamos lá dentro pensamentos, lembranças, imagens de amigos, nem o ônibus que sabemos que temos que correr para pegar. Como se dá isso?

Correspondência e acesso independente à realidade

Resumo: neste texto (a) apresento de um modo bem superficial a, assim chamada, teoria da correspondência da verdade, (b) introduzo o problema epistemológico de como saber se nossas crenças ou pensamentos correspondem com a realidade, e (c) cito um trecho da Stanford Encyclopedia of Philosophy tratando do assunto de modo mais detalhado.

Não é incomum, ao se falar em teorias da verdade, apresentar a teoria da correspondência em conexão com algum exemplo do tipo: nossos antepassados pensavam que a Terra era plana (ou o centro do Universo), mas nós, hoje, sabemos que isso é falso. Menciona-se, também, a figura de Aristóteles, que afirma que dizer a verdade é dizer do que é, que é; e do que não é, que não é (Metafísica, Livro IV). Com isso, a teoria da correspondência da verdade poderia ser apresentada assim: o que dizemos (ou pensamos) é verdadeiro se, e somente se, as coisas (ou o mundo) são como dizemos que são; ou, ainda, uma proposição (crença ou afirmação) é verdadeira se, e somente se, corresponde com a realidade (ou aos fatos). Citando Strawson,

… um dos méritos do nome “correspondência” é mostrar que confrontando o juízo e a crença está o mundo natural ou a realidade, as coisas e os eventos com os quais os juízos e as crenças se relacionam, ou são acerca deles; e é como as coisas são no mundo natural, na realidade ou de fato, que determina se os nossos juízos ou crenças são verdadeiros ou falsos. (Análise e Metafísica, Cap. 4)

Com a teoria da correspondência enunciada assim, podemos evitar uma postura relativista que diria que para nossos antepassados era verdade que a Terra é plana (ou o centro), mas, para nós, isso é falso. Deveríamos dizer, no lugar disso, que eles tinham boas razões para acreditar no que acreditavam, mas… estavam errados.

Atentemos um pouco mais ao exemplo. O ponto que me fez escrever este texto é o seguinte. Podemos dizer que sabemos, hoje, que nossos antepassados estavam errados? Ou devemos dizer, meramente, que eles acreditavam em algo e nós, hoje, acreditamos no oposto? Bem, poder-se-ia dizer que, se é verdade que a Terra não é o centro do Universo, então o que temos hoje pode ser chamado de conhecimento. Mas podemos saber que sabemos (o que envolve saber se é verdadeiro isso em que acreditamos)?

Talvez esse ponto fique mais claro apresentando-o da seguinte forma. Se acreditamos que a Terra é esférica, isso é verdade se a Terra é, de fato, esférica. A crença deve ajustar-se à realidade. Mas como podemos confirmar que uma crença corresponde com a realidade, seria possível comparar uma coisa com a outra? Uma tal comparação exigiria que tivéssemos acesso à realidade de um ponto de vista externo ao nosso, já que todas as nossas crenças são a partir do nosso ponto de vista. Não podemos saltar fora de nossos pensamentos, nem de nossa linguagem para confrontar as crenças ou sentenças que julgamos verdadeiras com a realidade. “A ideia de um tal confronto é absurda”, nos diz Davidson (Ver “A coherence Theory of Truth and Knowledge”).

Para jogar algum esclarecimento nesse ponto (eu espero), traduzi um trecho de: David, Marian, “The Correspondence Theory of Truth”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2009 Edition), Edward N. Zalta (ed.), URL = <http://plato.stanford.edu/archives/fall2009/entries/truth-correspondence/>.

Segue abaixo a tradução (as referências feitas ao longo do texto podem ser conferidas no link do original):

Nenhum acesso independente à realidade


A objeção que bem pode ter sido a mais efetiva em causar descontentamento com a teoria da correspondência está baseada numa abordagem (concern) epistemológica. Em poucas palavras, a objeção é que uma teoria correspondentista da verdade deve inevitavelmente conduzir a um ceticismo a respeito do mundo externo, porque a requerida correspondência entre nossos pensamentos e a realidade não é averiguável. Já desde o ataque de Berkeley à teoria representacional da mente, objeções deste tipo têm gozado de considerável popularidade. É tipicamente apontado que nós não podemos saltar fora de nossas mentes para comparar nossos pensamentos com a realidade independente-da-mente (mind-independent). Não obstante – assim continua a objeção – na teoria correpondentista da verdade, isso é precisamente o que teríamos que fazer para adquirir conhecimento. Nós teríamos que acessar a realidade como ela é em si mesma, independentemente de nossa cognição a seu respeito, e determinar se nossos pensamentos lhe correspondem. Uma vez que isso é impossível, já que todo o nosso acesso ao mundo é mediado por nossa cognição, a teoria correspondentista da verdade torna o conhecimento impossível (cf. Kant 1800, intro vii). Assumindo que o ceticismo resultante é inaceitável, a teoria da correspondência tem de ser rejeitada, e alguma outra abordagem da verdade, uma abordagem epistêmica (anti-realista) de algum tipo, tem que ser colocada em seu lugar (Cf., e.g., Blanshard 1941.)

Este tipo de objeção traz uma série de questões epistemológicas, de filosofia da mente e de metafísica geral. Aqui só podemos aludir a alguns pontos pertinentes (cf. Searle 1995, chap. 7; David 2004, 6.7). A objeção faz uso da seguinte linha de raciocínio: “Se verdade é correspondência, então, já que conhecimento requer verdade, temos que saber que nossas crenças correspondem com a realidade, se queremos conhecer algo acerca da realidade”. Há duas suposições implícitas nesta linha de raciocínio, ambas discutíveis.

(i) Assume-se que S sabe x somente se S sabe que x é verdadeiro – uma exigência não subscrita (underwritten) pelas definições padrão de conhecimento, que nos dizem que S sabe x somente se x é verdadeiro e S está justificado em crer x. A suposição pode repousar numa confusão entre os requisitos para saber x e os requisitos para saber que alguém sabe x.

(ii) Assume-se que, se verdade = F, então S sabe que x é verdadeiro somente se S sabe que x tem F. Isso parece altamente implausível. Pelo mesmo padrão seguir-se-ia que ninguém que não sabe que água é H2O pode saber que o Nilo contém água – o que significaria, naturalmente, que até razoavelmente pouco tempo ninguém sabia que o Nilo continha água (e que, analogamente, até pouco tempo ninguém sabia que há estrelas no céu, baleias no oceano, ou que o sol produz luz).

Além do mais, ainda se alguém sabe que água é H2O, sua estratégia para descobrir se o líquido em seu copo é água não tem que envolver análise química: ele poderia simplesmente prová-lo, ou perguntar a um informante confiável. De modo similar, tanto quanto diz respeito a saber que x é verdadeiro, parece que a teoria da correspondência não implica que temos que saber que uma crença corresponde a um fato para saber que ela é verdadeira, ou que nosso método de descobrir se uma crença é verdadeira tem que envolver uma estratégia de comparar efetivamente uma crença com um fato – embora a teoria certamente implique que obter conhecimento requer obter uma crença que corresponde a um fato.

De modo mais geral, alguém poderia questionar se a objeção é muito profunda (has much bite), umas vez que as metáforas de “acessar” e “comparar” são enunciadas com mais atenção aos detalhes psicológicos de formação de crença e a questões epistemológicas concernentes às condições sob as quais crenças estão justificadas ou garantidas. Por exemplo, é muito obscuro como a metáfora de “comparar” aplica-se ao conhecimento obtido em crenças formadas perceptualmente (perceptual belief-formation). Poder-se-ia perguntar, também, se abordagens da verdade concorrentes de fato gozam de alguma vantagem significativa em relação à teoria da correspondência, uma vez que estão presas (held) ao padrões estabelecidos por este tipo de objeção.

De qualquer forma, a objeção “Nenhum acesso independente à realidade” contra abordagens correspondentistas da verdade têm sido uma das, se não a, principal fonte de motivação para posturas idealistas e anti-realistas na filosofia (cf., e.g., Stove 1991). Apesar disso, a conexão entre teorias correspondentistas da verdade e o debate metafísico do realismo vs. anti-realismo (ou idealismo) parece menos direto do que frequentemente é assumido. Por outro lado, teóricos deflacionistas e da identidade podem ser, e tipicamente são, realistas metafísicos enquanto rejeitam a teoria da correspondência; e defensores de uma teoria da correspondência, por outro lado, poderiam ser idealistas metafísicos (e.g., McTaggart 1921) ou anti-realistas, sustentando que fatos são constituídos pela mente ou que quais fatos existem depende de algum modo de em que acreditamos ou somos capazes de acreditar.

Paradoxo do Ovo e a Galinha II

Bem, percebi que a postagem anterior, sobre o paradoxo do Ovo e a Galinha, está tendo um número considerável de visitas (em relação aos demais textos do blogue, pelo menos). Como sei que nem todos os visitantes são estudantes de filosofia, vou fazer aqui uma tentativa de explicar a este público como é resolvido o problema no texto de Guido Imaguire.

A solução envolve o uso de algumas noções de lógica, de metafísica e de filosofia linguagem. Isto pode dar uma noção de em que consiste uma atividade filosófica. A filosofia não é uma atividade empírica, isto implica que vamos poder resolver o problema de se o ovo ou a galinha surgiu antes, sem ter que fazer nenhuma observação no mundo (imagine um filósofo escavando uma rocha para ver se o fóssil de uma galinha veio antes de um resto de ovo, não dá ok!).

O problema surge do fato de que, ao menos implicitamente, parecemos entender que:

(CO1) Para algo ser um ovo de galinha tem que poder desenvolver-se e então se transformar numa galinha.

(CO2) Para algo ser um ovo de galinha tem que ter sido posto por uma galinha.

(CG1) Para algo ser uma galinha tem que ter crescido de um ovo de galinha.

(CG2) Para algo ser uma galinha tem que por ovos de galinha.

O paradoxo surge quando temos estas 4 condições reunidas. CO1 e CG1, tomados em conjunto parecem não trazer problemas, bem como CO2 e CG2. Mas vejamos o que acontece quando tomamos CO1 e CG2:

(CO1eCG2) Um ovo de galinha desenvolve-se e torna-se uma galinha, e uma galinha põe ovos de galinha.

Aqui já ocorre algo curioso. Isto mostra a possibilidade de perpetuação da espécie das galinhas infinitamente para o futuro. De um ovo nasce uma galinha, esta galinha põe ovos que tornam-se outras galinhas, que colocarão outros ovos e assim ao infinito. Quanto a isto até não temos muitos problemas (é claro que a perpetuação futura infinita depende de condições do ambiente, comida, temperatura, etc. Mas isto não importa aqui).

Agora analisemos CO2 e CG1 tomados conjuntamente:

(CO2eCG1) Um ovo de galinha foi posto por uma galinha e uma galinha cresceu de um ovo de galinha.

Curiosamente (ou nem tanto), acontece aqui o oposto do caso anterior. Um ovo atual exige uma galinha anterior que a colocou (um ovo de galinha foi posto por uma galinha). Mas uma galinha exige um ovo anterior (uma galinha cresceu de um ovo de galinha). Assim vamos ao infinito para o passado (ao contrário do caso anterior, onde iríamos ao infinito para o futuro). É aqui que está o paradoxo. Não conseguimos imaginar um ovo sem uma galinha anterior; nem uma galinha sem um ovo anterior. Entram em conflito aqui a concepção que temos do tempo e da existência da vida: acreditamos (parece inclusive que estamos certos neste aspecto) que os seres vivos (e talvez o mundo) não existem desde sempre. Mas a exigência de um ovo anterior, depois uma galinha anterior a este ovo, e outro ovo e outra galinha, força-nos a imaginar que ovos e galinhas existem desde sempre. Como resolver isto?

Parece que temos uma pista: o problema surgiu ao tomar-se conjuntamente CO2 e CG1:

(CO2) Para algo ser um ovo de galinha tem que ter sido posto por uma galinha (que pede que tenha existido uma galinha antes de um ovo); e

(GG1) Para que algo seja uma galinha tem que ter crescido de um ovo de galinha (que pede um ovo antes de uma galinha).

Como resolver este problema?

Fica a pergunta, aguardo comentários. Talvez na próxima postagem a resposta ;)