O que a ciência tem a dizer sobre a responsabilidade moral?

A investigação sobre livre-arbítrio e responsabilidade realizada nas últimas décadas tem contado cada vez mais com a participação conjunta de filósofos e cientistas. Parte do que motivou essa interação crescente foi um conjunto de estudos publicados na década de 1980 pelo neurocientista Benjamin Libet e colaboradores. Libet descobriu que um padrão de atividade neural comumente detectado antes de movimentos espontâneos simples antecedia em cerca de 350 milisegundos o momento em que os participantes do estudo relatavam ter decidido realizar esses movimentos. Libet argumentou que esse resultado restringia o tipo de controle que podemos ter sobre nossas ações. Afinal, se o cérebro começa a preparar nossos movimentos antes de termos decidido realizá-los, que tipo de controle podemos ainda ter sobre o que fazemos?

Os resultados e questionamentos de Libet motivaram uma discussão intensa não só sobre livre-arbítrio, mas também sobre a responsabilidade moral, já que geralmente se aceita que não pode haver responsabilidade sem livre-arbítrio. Desde então, filósofos e cientistas têm atuado conjuntamente para entender o que poderiam ser a liberdade e a responsabilidade, e se os seres humanos podem de fato ser livres e responsáveis. Como resultado dessa discussão, o livre-arbítrio e a responsabilidade, que por milênios pareceram um assunto exclusivo dos filósofos, passaram a ser também um assunto para cientistas.

Mas qual é a contribuição que a ciência pode dar à discussão sobre responsabilidade moral? Essa é uma questão com a qual tenho me ocupado em minha pesquisa de doutorado, e aqui gostaria de propor uma resposta. Segundo essa proposta, há pelo menos três modelos para se pensar a ciência da responsabilidade, ou seja, três maneiras gerais de se delimitar o papel que a ciência pode desempenhar na discussão sobre responsabilidade moral. Especificar esses modelos envolve, entre outras coisas, dizer que questões uma ciência da responsabilidade moral deveria responder. A seguir, descrevo cada um desses modelos e indico brevemente por que considero o terceiro deles o mais promissor.

1. Modelo mínimo

Quando alguém é responsável por certa ação ou acontecimento é por vezes apropriado responder ou reagir a essa pessoa de certa maneira. Exemplos dessas reações incluem a atribuição de culpa ou o repúdio (quando a ação ou acontecimento é considerado moralmente condenável) e o elogio (quando a ação é moralmente louvável). Mas o que torna alguém responsável por suas ações? Ao longo da história da filosofia, propuseram-se diversas condições tidas como necessárias para a responsabilidade moral. Por exemplo, é comum dizer que alguém só pode ser responsabilizado por aquilo que fez livremente, quando sua ação produziu consequências indesejáveis cuja ocorrência poderia razoavelmente prever, ou ainda que um agente responsável precisa ter um certo nível de racionalidade. Liberdade, conhecimento e racionalidade, segundo essa visão, são condições necessárias para a responsabilidade moral.

Mas embora a filosofia possa apontar abstratamente condições para que as pessoas possam ser responsabilizadas apropriadamente, pode não estar ao alcance do filósofo dizer se pessoas específicas ou os seres humanos em geral satisfazem essas condições. Em outras palavras, mesmo que os filósofos possam dizer quais são as condições necessárias e suficientes para a existência de seres humanos livres e responsáveis, pode ser que uma atividade exterior à filosofia seja necessária para dizer quando essas condições são efetivamente satisfeitas.

Segundo o que chamo de modelo mínimo, são exatamente algumas dessas questões que cabe à ciência da responsabilidade responder. Ao fazê-lo, a ciência contribui com a terefa de dizer se os seres humanos são efetivamente responsáveis—se satisfazem as condições da responsabilidade moral. Os estudos de Libet, mencionados acima, podem ser interpretados dessa maneira. Enquanto a filosofia pode dizer se a responsabilidade exige ou não que nossas ações sejam iniciadas conscientemente, a neurociência pode ajudar a dizer se nossas ações são ou não iniciadas conscientemente. No modelo mínimo, portanto, a filosofia contribui dizendo quais são as condições da responsabilidade, enquanto a ciência ajuda a dizer se essas condições são satisfeitas pelos seres humanos.

2. Modelo das intuições populares

Enquanto o modelo mínimo é atualmente o mais difundido na literatura filosófica, um segundo modelo começou a ser desenvolvido mais recentemente no interior do movimento da chamada filosofia experimental. A filosofia experimental caracteriza-se por incluir o uso de métodos tomados das demais ciências na investigação filosófica. Em um dos projetos associados ao movimento, buscou-se intervir em uma disputa filosófica milenar a respeito do livre-arbítrio e da responsabilidade moral, a saber, a disputa sobre se é possível ou não que haja livre-arbítrio e responsabilidade moral se a tese do determinismo for verdadeira.

A proposta experimental busca contribuir com o debate ao examinar as intuições de pessoas comuns (i.e. de pessoas que não treinadas no assunto) a respeito da possibilidade de existirem pessoas livres e responsáveis em cenários deterministas. A expectativa, no interior desse movimento, é que saber como as pessoas pensam a questão cotidianamente poderia ajudar a delimitar a teorização filosófica a respeito.

A literatura pertencente a essa tradição é atualmente vasta e inclui resultados conflitantes. Para meus propósitos neste texto, importa salientar que o movimento da filosofia experimental mencionado abre espaço para um novo papel para a ciência da responsabilidade moral. Enquanto no modelo mínimo a ciência apenas ajudaria a dizer se e quando as condições necessárias e suficientes para a responsabilidade moral são satisfeitas, a investigação da filosofia experimental concede à ciência um papel na própria estipulação de tais condições. Porque essa proposta dá um lugar central à investigação científica das intuições populares a respeito da responsabilidade, chamo de modelo das intuições populares à proposta resultante.

3. Modelo do aprimoramento

O terceiro e último modelo que descrevo—o modelo que entendo como o mais completo e promissor—entende a ciência da responsabilidade moral como parte de um empreendimento cognitivo que visa tanto entender o funcionamento de nossas práticas de responsabilidade como apontar maneiras pelas quais essas práticas poderiam ser aprimoradas. Nesse modelo, cabe à ciência responder a dois grandes grupos de questões, sendo que a especificação do segundo deles envolve uma intervenção decisiva de considerações de tipo normativo—por exemplo, considerações derivadas do trabalho em ética normativa ou aplicada.

O primeiro grupo de questões que o modelo de aprimoramento atribui à ciência pergunta pelas causas e efeitos de nossas práticas de responsabilidade, tal como encontradas em nossas vidas cotidianas. Aqui interessa saber quais fatores estão operando causalmente quando, por exemplo, culpamos ou elogiamos alguém, ou quando quando estamos dispostos a aprovar a distribuição de punição ou recompensa.

A teoria psicológica sobre a atribuição de culpa desenvolvida por Bertram Malle, Steve Guglielmo e Andrew Monroe no artigo “A theory of blame” exemplifica a investigação de questões pertencentes ao primeiro grupo. Segundo essa teoria, atribuições de culpa surgem quando se considera que alguém violou uma norma intencionalmente sem nenhuma boa razão para fazê-lo, ou quando uma norma foi violada por alguém que tinha a obrigação e capacidade de evitar tal violação. Ao apontar as causas de um dos aspectos de nossas práticas de responsabilidade, a saber, a atribuição de culpa, essa investigação responde ao primeiro grupo de questões científicas especificadas pelo modelo do aprimoramento.

O segundo grupo de questões científicas que o modelo do aprimoramento especifica é condicional a uma avaliação normativa do funcionamento das práticas de responsabilidade, tal como descritas pela investigação guiada pelo primeiro grupo de questões. A ideia é que qualquer aspecto de nossas práticas de responsabilidade pode revelar-se problemático quando examinado cuidadosamente a partir de teorias normativas. Por essa razão, o segundo grupo de questões que a ciência da responsabilidade moral recebe é sobre as maneiras pelas quais se poderia alterar o funcionamento de nossas práticas de responsabilidade de modo a melhorar os aspectos considerados problemáticos.

Darei aqui um único exemplo de como essa segunda parte da ciência da responsabilidade pode funcionar. Um dos setores de nossas práticas de responsabilidade inclui a maneira como os pais e cuidadores respondem ao comportamento das crianças no processo de criá-las e educá-las. Uma série de estudos conduzidos desde a década de 1980 mostrou que há várias consequências negativas associadas a uma das práticas por vezes comum nesse processo, a saber, o uso de punição física como resposta a comportamentos considerados inapropriados. Descobriu-se que a punição física aumenta a probabilidade de se desenvolver dificuldades afetivas e cognitivas na vida adulta, bem como a disposição ao comportamento agressivo.

Essas descobertas revelam efeitos de certo tipo de prática punitiva e, por isso, respondem a questões do primeiro grupo. Mas ao estarmos cientes desses efeitos, podemos buscar avaliar a eles e suas causas do ponto de vista ético. Podemos nos perguntar, por exemplo, se é aceitável ou desejável que crianças sejam submetidas a uma forma de responsabilização e educação que se sabe ter as consequências negativas apontadas. Como não é de estranhar, muitas pessoas avaliam essas práticas como problemáticas, e defendem o fim da punição física de crianças. Dada essa avaliação, pode-se levantar um segundo grupo de questões científicas que dizem respeito a como levar a cabo a modificação das práticas de punição física de crianças. Que tipos de intervenções seriam mais efetivas para esse propósito? Que tipos de leis, programas de treinamento ou campanhas, por exemplo, poderiam ajudar a diminuir essa prática e prevenir os efeitos negativos que lhe estão associados?

Essa é, em resumo, a proposta de uma ciência da responsabilidade moral guiada pelo modelo do aprimoramento. Uma das consequências desse modelo, e um traço em que se distingue dos outros modelos considerados, é que permite gerar diretamente aplicações do empreendimento filosófico e científico para o aprimento das práticas sociais de responsabilidade tal como efetivamente ocorrem em nossas vidas cotidianas. Uma outra consequência é que permite tirar a ênfase de algumas questões que foram predominantes na ciência guiada pelos outros modelos. Um exemplo são questões sobre determinismo e sobre a compatibilidade entre determinismo e responsabilidade. No modelo de aprimoramento, o foco são as causas e efeitos das práticas de responsabilidade, e há razões para se pensar que questões sobre o determinismo não estão entre as causas e efeitos mais relevantes. Nesse caso, essas questões se tornam secundárias no modelo do aprimoramento, já que o foco da investigação científica recai sobre as causas e efeitos das práticas de responsabilidade, e sobre como modificar seus aspectos normativamente problemáticos.

Fonte: Desenvolvo em detalhe a proposta sobre a ciência da responsabilidade moral apresentada nesta postagem em meu artigo “Questions for a science of moral responsibility” (Review of Philosophy and Psychology, 2017).

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Pesquisa sobre crenças no livre-arbítrio

Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rui Grande do Sul (UFRGS) está realizando um estudo que busca validar uma escala para medir crenças sobre o livre-arbítrio. O estudo consiste em um questionário anônimo e on-line, composto de duas partes. Se você estiver interessado em contribuir, seguem os links:

Questionário (parte 1)

Questionário (parte 2)

Observação: estou divulgando este estudo por ter interesse no tema e por saber da dificuldade de se alcançar um número suficiente de pessoas dispostas a responder questionários desse tipo. Tenho certeza de que sua colaboração será muito importante!

Como escolher uma revista para um artigo de filosofia

Qualquer um que se dedique à pesquisa acadêmica em filosofia (como nas demais áreas do saber) eventualmente se defrontará com a tarefa de escolher o destino a ser dado a um trabalho. Nesta postagem, ofereço um conjunto de critérios que podem ajudar nesta tarefa, tendo como foco artigos originais (ou de pesquisa). Inicio oferecendo uma razão pela qual esse tipo de escolha merece um tratamento explícito sério e depois apresento três critérios que podem ajudar nessa escolha.

Há pelo menos duas razões pelas quais podemos nos perguntar sobre como escolher o melhor destino para um artigo de pesquisa. A primeira, e pouco interessante, é que publicações contam em avaliações para concorrer a bolsas, em relatórios de pesquisa e em provas de seleção. A esse respeito, o que mais importa é publicar de modo a aumentar a pontuação de acordo com os critérios da avaliação visada. Esse não é o foco aqui.

Uma razão mais interessante se relaciona com a própria natureza da filosofia, tal como tem sido praticada ao longo dos séculos. Depois de Sócrates, que tornava públicas suas ideias ao discutí-las em público, a filosofia passou a ser primariamente publicada por escrito. Ao propor uma nova teoria, tese ou argumento, um filósofo ou filósofa geralmente está se contrapondo a aspectos da filosofia previamente disponível. O trabalho que publica, assim, é uma contribuição à filosofia produzida até então. Em meio a outros formatos, artigos em revistas especializadas são atualmente um dos principais veículos para a publicação de trabalhos filosóficos. Um bom artigo de pesquisa oferece uma contribuição minimamente original e relevante para a literatura disponível.

Essa dinâmica do trabalho filosófico e sua relação com a publicação por escrito oferecem um quadro onde fica mais significativa a questão sobre como definir a revista mais adequada para um artigo. Penso que a publicação de artigos é parte da atividade profissional do filósofo e merece uma abordagem explícita. Ao mesmo tempo, noto que o que parece mais natural é que adentremos na prática irrefletidamente, muitas vezes seguindo o que fazem os professores ou outros pesquisadores ao nosso entorno, ou respondendo a eventuais convites de revistas quaisquer. A seguir, apresento três critérios que atualmente considero os mais relevantes para se definir as possíveis revistas para onde submeter um artigo de filosofia. Espero que ofereçam um ponto de partida para os que queiram refletir sobre seus próprios critérios na hora de submeter um artigo, e também para discussões adicionais do assunto.

1. Qualidade da avaliação

O elemento de maior peso, na minha opinião, tem a ver com a própria razão de ser das revistas especializadas. Tal como funcionam atualmente, ao submeter um trabalho a uma revista, o que se espera é que ele seja avaliado por pares, isto é, por outras pessoas competentes no assunto em questão, normalmente sem conhecimento de sua autoria. O objetivo é que só artigos considerados apropriados com base em critérios de relevância, originalidade e correção sejam publicados. Em muitos casos, pode-se exigir que um artigo com potencial para publicação seja revisado, eliminando falhas, acrescentando informações relevantes ou mesmo antecipando objeções. Outras vezes, o artigo pode não satisfazer os critérios da revista em questão e ser rejeitado. Nesses casos, um parecer descrevendo os problemas do artigo pode ser fornecido ao autor. Considero isso um dos elementos mais positivos do processo de submissão de artigos para publicação, especialmente para aqueles que, como eu, estão iniciando suas trajetórias acadêmicas. Por essa razão, podemos falar mais apropriadamente da seleção de revistas para onde submeter um artigo, e não simplesmente a revista. Um artigo, assim, pode passar por vários ciclos de avaliações, rejeições e revisões, em diferentes revistas, até que esteja pronto para ser publicado (alguns relatos aqui).

Mas como saber quais são as revistas que oferecem maiores chances de uma avaliação qualificada, com possibilidade de pareceres que permitam o aprimoramento do artigo e o crescimento de seu autor ou autora? Não há regra infalível, mas há algumas balizas que podem ser úteis.

No lado mais positivo do espectro, um guia pode ser procurar submeter a revistas onde artigos relevantes sobre o assunto já foram publicados. Artigos têm seções de referências. Olhar onde foram publicados os trabalhos que estão em discussão no seu artigo pode oferecer uma ótima lista de possíveis destinos para seu artigo. Digamos que seu artigo critique o argumento de A1, que foi apresentado no artigo B1, publicado na revista R1. Nesse caso, a revista R1 pode ser uma boa candidata para onde submeter seu artigo. Alternativamente, se o artigo contém em sua seção de referências artigos das revistas R2, R3, R4 e R5, então há alguma chance de que algumas dessas revistas sejam bons destinos para o artigo. Dada a maneira como editores selecionam pareceristas para avaliar os artigos que recebem, adotar essa sugestão pode levar a que um dos autores citados em seu artigo seja um dos avaliadores. Isso pode aumentar o rigor da avaliação e as chances de se receber um feedback bem qualificado, que poderá ser construtivo mesmo se no final o artigo não for aceito naquela revista.

No lado mais negativo do espectro, as revistas a evitar são aquelas que são conhecidas por não submeter seus trabalhos a um processo rigoroso de avaliação. Exemplos incluem revistas predatórias, que buscam publicar artigos sem submetê-los a qualquer avaliação porque lucram cobrando dos autores de trabalhos aceitos (informe-se aqui e aqui). Também podemos identificar revistas onde a avaliação costuma deixar a desejar se notarmos que já publicou trabalhos de má qualidade. Assim, detectar um artigo com erros grosseiros de conteúdo, ou mesmo com erros de ortografia e gramática evidentes é um sinal de que provavelmente não passou por uma avaliação séria.

Essas sugestões são bastante gerais, e não permitem indicar revistas específicas. Mas é possível ter informações mais específicas sobre o tipo de avaliação que as revistas costumam oferecer. Por exemplo, no âmbito de revistas filosóficas internacionais, o Journal Surveys reúne informações fornecidas por autores que submeteram artigos a diversas revistas de filosofia. As informações disponíveis incluem o percentual de trabalhos que recebem comentários, a qualidade deles, entre outras.

Não temos nenhuma ferramenta do tipo para a maioria das revistas que publicam trabalhos em português. E talvez fosse a hora de criarmos algo do tipo. Para não ficar sem nenhuma indicação positiva, considero a revista Manuscrito como uma boa opção no quesito qualidade de avaliação e pareceres. Esse juízo leva em conta minha experiência pessoal (uma rejeição) e também alguns relatos de colegas.

2. Prestígio e visibilidade

Depois da qualidade da avaliação, considero que em segundo lugar empatam considerações sobre o prestígio e a visibilidade como critérios para seleção de revistas. Aqui entram em consideração elementos extra-epistêmicos, por assim dizer. Não está em questão apenas a correção do que o artigo propõe, mas também elementos como relevância, possível impacto e também o modo como a revista oferece acesso aos artigos publicados. Sobre esses aspectos, sugiro apenas alguns exemplos que tentam capturar o que está em jogo. Enfatizo, no entanto, que não pretendo oferecer definições precisas do que se trata, e também que esses elementos só são relevantes a partir de certo nível de qualidade de avaliação. Em outras palavras, a qualidade de avaliação é o critério-base. Prestígio e visibilidade são um extra que pode entrar em cena quando a qualidade de avaliação está satisfeita.

Por prestígio, entendo que exista uma espécia de ranking imaginário de revistas (ou antes, vários deles) que as ordena por relevância do material publicado. Assim, idealmente, algumas revistas publicariam artigos potencialmente relevantes para várias áreas da filosofia, ou com potencial de alterar o rumo de uma grande discussão. Há várias listas que de alguma maneira sugerem o prestígio de revistas. Por exemplo, o Qualis da Capes classifica revistas em A1, A2, B1, etc. Outros rankings incluem o Google Scholar (Metrics), este ranking recente no blog Leiter Reports, o ranking do SJR, entre outros. E há também quem discuta até que ponto essas classificações são realmente positivas (aqui, por exemplo).

Por visibilidade, incluo tanto questões relacionadas à facilidade de acesso ao conteúdo de uma revista, bem como quão acessada ela é. Por isso, este item está de alguma maneira relacionado ao anterior. Revistas podem disponibilizar seu conteúdo abertamente na internet, ou apenas a assinantes ou mesmo apenas para os compradores de um volume impresso (pouco usual nos dias de hoje). Mas mesmo revistas que se igualam no item anterior podem variar em quanta visibilidade têm. Isso pode estar relacionado ao prestígio, por exemplo, mas também à elementos mais técnicos como sua indexação, e a maneira como seu conteúdo aparece em ferramentas de busca como o PhilPapers e o Google Scholar. No Brasil, temos em geral acesso a várias revistas que oferecem acesso apenas a assinantes por meio do Portal de Periódicos da Capes. Mas algumas revistas não são acessíveis mesmo por este meio. Sendo assim, pode ser uma boa ideia checar quão acessíveis são os artigos que uma revista publica antes de submeter-lhe um trabalho.

As considerações apresentadas—sobre qualidade da avaliação, prestígio e visibilidade—estão longe de oferecer um guia definitivo sobre como proceder na seleção de revistas para onde submeter artigos filosóficos. Tanto quanto posso ver, esse tema raramente é discutido de modo explícito e publicamente por estudantes e professores de filosofia no Brasil. Assim, espero que as considerações acima possam servir como um ponto de partida tanto para reflexões pessoais sobre a seleção de revistas quanto para futuras discussões sobre o assunto.

Conferências e discussão — Impressões do doutorado sanduíche (2)

Seguindo o plano de comentar mensalmente sobre aspectos do meu doutorado sanduíche no exterior (primeira postagem aqui), falarei este mês de um aspecto que me chamou a atenção durante minha participação em conferências e palestras.

Basicamente, o objetivo de apresentar um trabalho, do ponto de vista do apresentador, é receber feedback, submeter seus argumentos e teses ao exame crítico de seus pares. Esse feedback é produzido mediante a discussão das teses e argumentos defendidos pelo apresentador (por meio da apresentação de objeções, contra-argumentos e contraexemplos). Essa perspectiva parece gerar algumas consequências, começando pelas seguintes:

  1. Alocação do tempo. Congruentemente com o que observei na postagem anterior sobre a ênfase na argumentação e discussão na sala de aula, os eventos (palestras ou conferências) são organizados de modo a permitir longas e geralmente proveitosas discussões. No departamento que estou visitando, as palestras, por padrão, duram duas horas, sendo que na primeira o palestrante apresenta sua proposta, e na segunda hora os demais participantes (não meros ouvintes!) propõem perguntas, críticas etc. e seguidas de resposta pelo apresentador. Num outro caso, em uma conferência organizada por estudantes de pós-graduação, cada trabalho apresentado (sem apresentações simultaneas) durava cerca de uma hora, sendo que a apresentação durava cerca de 25 minutos, seguida de um comentário por outro estudante que havia lido o texto completo previamente, seguidos de discussão pelo tempo restante. Um terceiro caso foi uma conferência on-line, a Minds Online Conference (ver uma discussão posterior feita pelos organizadores avaliando a experiência). Nela, os trabalhos selecionados receberam comentários por escrito de pesquisadores especializados no assunto do trabalho, sendo que cada trabalho ficou disponível por uma semana para discussão entre autores, comentadores e público em geral.
  2. Restrição do número de apresentações. Para proporcionar uma discussão e feedback de qualidade, as conferências por aqui parecem bastante competitivas e no geral há um limite de trabalhos que serão selecionados. Em vários casos, é preciso submeter um trabalho completo para a participação no evento, e só um número será selecionado. Em meu caso pessoal, já tive trabalhos rejeitados em mais de uma ocasião. É como se, no processo de seleção dos trabalhos que comporão uma conferência, os organizadores estivessem julgando quais trabalhos merecem a atenção dos demais participantes, quais trabalhos merecem sujeitarem-se ao feedback crítico. Uma consequência positiva desse processo é que os demais participantes podem esperar assistir a apresentações de melhor qualidade, o que reforça a motivação para avaliar criticamente e oferecer feedback. Conferências com maior prestígio, além disso, tendem a atrair mais submissões e, consequentemente, é mais difícil ter um trabalho aceito e também mais qualidade é esperada.
  3. Múltiplas apresentações de um mesmo trabalho. Um terceiro elemento que tenho notado é que, dado o propósito de apresentar um trabalho (receber feedback com vistas a melhorá-lo) é comum apresentar versões progressivas de um mesmo trabalho em andamento em diversas ocasiões. Isso é saliente inclusive nos agradecimentos presentes em artigos publicados, onde é comum o autor argadecer às plateias desta e daquela outra conferência.

Por fim, gostaria de dizer que esses vários aspectos parecem poder funcionar de maneira muito integrada em alguns casos. Por exemplo, é possível que o objetivo de uma conferência seja submeter a escrutínio os trabalhos que no futuro comporão um livro sobre um tema específico. Divulgo um caso aqui, o Workshop NOWAR 2015, sobre responsabilidade moral, em parte por uma razão que oferecerei na sequência. Como enunciado no próprio website do workshop, dali serão selecionados artigos que comporão um volume da série Oxford Studies in Moral Responsibility da Oxford University Press. Uma razão para divulgar esse tipo de evento é que se trata de um exemplo claro de como estar geograficamente distante de onde se concentram os pesquisadores de determinado tema pode impactar em nossa pesquisa. Um doutorando participando desta conferência, por exemplo, pode ter acesso ao conteúdo que provavelmente só alguns anos mais tarde estará disponível para o público em geral (tempo da editoração, publicação e para que o material seja adquirido). O participante poderá ter alguns anos de vantagem nesse aspecto. Felizmente, neste caso, há uma possível solução, pois vários dos trabalhos estão disponíveis para visualização prévia.

Espero que esta postagem seja útil e interessante, e fico à disposição para quaisquer perguntas adicionais.

Edição: Esqueci de mencionar na postagem original uma regra curiosa sobre as discussões que seguem as palestras no departamento que estou visitando. Aqui, os estudantes têm preferência na hora de fazer suas perguntas. Só depois que todos os estudantes que queiram fazer perguntas ao palestrante tiverem feito suas perguntas é que a vez é passada aos professores. O papel pedagógico dessa regra é, na minha opinião, digno de nota. E ela também parece razoável. Em primeiro lugar, os estudantes poderiam estar mais receosos de fazer as suas perguntas (a regra diz que não é preciso, e lembra que são estimulados a participar). Em segundo lugar, as perguntas e discussão dos professores costuma ser mais longa, extendendo-se enquanto há tempo disponível.

Argumentação e posicionamento — Impressões do doutorado sanduíche (1)

Seguindo o plano de postar mensalmente reflexões sobre o período de doutorado sanduíche, eis um comentário sobre o que me pareceu mais destacado no primeiro mês.

1. Argumentos tomam a cena

Estou assistindo a duas disciplinas, uma na graduação e outra na pós-graduação. Com base nesta pequena amostra, um primeiro aspecto que me chamou a atenção foi a centralidade dos argumentos. Os argumentos estão no centro da cena, sendo que muitos têm um nome próprio. De modo um tanto caricatural, a aula consiste basicamente na apresentação de um argumento, seguida da avaliação/discussão do mesmo. Ao final da aula, ou você achou um problema no argumento ou vai embora com o dever racional de aceitar sua conclusão.

2. Posicionamento/discussão

Juntamente com o aspecto anterior, a passividade não é nenhum pouco incentivada. Ao longo da aula, costuma-se questionar os alunos e chamá-los a posicionarem-se sobre os argumentos estudados. ‘Voçê concorda que p? Não? Por quê?’. Ao longo dessas discussões, abre-se espaço para introduzir outros argumentos disponíveis na literatura, que favorecem ou se opõem ao argumento principal sob consideração ou aos argumentos sugeridos pelos alunos.

Não afirmo que essas duas características não estejam presentes em muitas aulas de filosofia no Brasil. Elas são, sim, parte do que fazemos. Mas o que me chamou a atenção foi o grau de seriedade com que são tomadas nos cursos que estou assistindo. O professor/a não ficará meia hora apenas ele/a falando. E, quando se trata de avaliar um argumento ou tese, não adianta dizer que o filósofo A ou B diz o contrário ou concorda. O que importa primariamente é se as premissas são verdadeiras e se o argumento é válido. O resto está em segundo plano.

Do mesmo modo, não se pressupõe que avaliar ou discutir argumentos seja uma tarefa posterior a outras (por exemplo, posterior a compreender minuciosamente o que o autor X disse). Aprende-se o que o autor X disse ao mesmo tempo em que se aprende a avaliar o que o autor X disse. As duas habilidades são desenvolvidas lado a lado.

Acho que essas notas expressam o que mais me chamou atenção no primeiro mês. Pretendo mencionar aspectos mais específicos da organização acadêmica nas próximas postagens, alguns dos quais são derivados dessas duas observações iniciais. Como na postagem anterior, fico à disposição para responder perguntas que possam surgir.

Espaço para perguntas e discussões

Boa parte do que está publicado neste blog tem a finalidade de divulgar conteúdos de filosofia para estudantes do ensino médio e público em geral. Mas ultimamente não tenho tido tempo de preparar conteúdos desse tipo, tendo me restringido a assuntos mais ligados a minhas atividades de pesquisa atuais.

Por essa razão, gostaria de deixar aberto este espaço para que os leitores possam apresentar e discutir questões de filosofia dos mais variados tipos. Pretendo contribuir com o que estiver ao meu alcance e eventualmente fazer novas postagens específicas, se algum tema receber atenção destacada.

Sinta-se convidado a comentar esta postagem com questões de qualquer natureza relacionadas à filosofia!

“Triplo cego” — Atualizando o sistema de revisão por pares

Nesta postagem no blog Daily Nous, os editores de algumas revistas de filosofia bem avaliadas internacionalmente fornecem esclarecimentos sobre seus procedimentos editoriais e de avaliação dos manuscritos recebidos. Uma novidade que merece destaque é a ampla adoção do sistema “triplo cego” de avaliação. Nele não apenas os pareceristas e os autores não têm acesso a suas respectivas identidades, mas também os editores desconhecem a identidade dos autores até que o artigo tenha sido aceito.

Um segundo procedimento que merece destaque é o prazo recomendado para o retorno dos pareceres na Australasian Journal of Philosophy — 1 mês — e a estratégia de enviar e-mails automáticos de lembrete.

Por fim, merece destaque a observação de que, além de pouquíssimos manuscritos serem aceitos, também a maioria dos que são aceitos têm revisões recomendadas ao longo do processo. Isso indica que o processo de revisão por pares exerce um papel efetivo no aprimoramento do que é publicado.

Nesta época de preocupação com a qualidade da produção acadêmica brasileira (um exemplo aqui), é desejável que nossos editores também busquem alternativas para aprimorar a qualidade e o profissionalismo das revistas nacionais.

Algumas notas sobre a filosofia e seu ensino para 2015

Planejava escrever neste início de 2015 uma postagem para cada um dos assuntos abaixo. Mas como já estamos na metade de janeiro, decidi comentar brevemente duas reflexões sobre a prática da filosofia e seu ensino que me pareceram apropriadas para iniciar o ano:

1. Avaliações filosóficas na aula de filosofia

Se minhas experiências pessoais não estiverem muito enviesadas, penso que a prática padrão na avaliação que os professores de filosofia fazem do progresso de seus alunos (tanto no nível médio como na graduação e talvez até depois) foca-se basicamente na capacidade do aluno expressar textualmente o que leu num texto indicado pelo professor. Por essa razão, é um problema sério quando o aluno não consegue ler corretamente um texto, não consegue entendê-lo apropriadamente, ou não consegue expressar corretamente o seu entendimento do texto. Nesses slides, Desidério Murcho defende que essas capacidades textuais — ler, entender e expor o conteúdo de textos filosóficos — são apenas instrumentais para a filosofia, mas não são finais. As capacidades indicadas são apenas condições necessárias para o exercício da filosofia, mas não são elas próprias o fim a que deve almejar o aprendizado e o ensino da filosofia. Entre as capacidades finais — por si filosóficas — que se espera de um aluno estão:

  • Explicar, analisar e discutir problemas filosóficos
  • Analisar e discutir/avaliar teorias filosóficas
  • Analisar e discutir/avaliar conceitos filosóficos
  • Analisar discutir/avaliar argumentos filosóficos

2. Os métodos da filosofia

As habilidades enfocadas no item anterior dizem basicamente respeito à atividade filosófica, a fazer genuinamente filosofia. Mas como se faz filosofia, como teorias e argumentos são propostos, aprimorados ou rejeitados? Neste podcast do Elucidations, Catarina Dutilh Novaes fala sobre os métodos da filosofia. Ela apresenta três metodologias frequentemente empregadas na atividade filosófica — métodos formais, métodos empíricos e métodos históricos — e defende um pluralismo a seu respeito: não apenas os três métodos podem e devem ser empregados, mas também devem ser combinados. (Fiquei sabendo do Elucidations na lista de podcasts de filosofia elaborada pelo Pablo Rolim dos Santos).

Cursos on-line em português

Vários sites internacionais oferecem cursos com professores das melhores universidades do mundo de modo inteiramente gratuito. Um desses cursos é o Coursera. Até pouco tempo, quase que todos os cursos eram ministrados em inglês. Isso promete mudar de agora em diante, com a entrada de instituições brasileiras como USP e Unicamp no projeto. Você pode ver aqui a lista de cursos ministrados em português ou ao menos com legendas em português (ou espanhol).

Entre as opções:

Bom proveito!

Quais são os seus problemas?

Aqui estão algumas ideias sobre a pesquisa nas ciências que parecem se aplicar bem também à pesquisa em filosofia:

“A maioria dos grandes cientistas conhecem muitos problemas importantes. Eles têm algo entre 10 e 20 problemas importantes para os quais estão procurando um ataque. E quando veem surgir uma ideia nova, ouve-se dizerem: ‘Bem, isso diz respeito a este problema’. Eles largam todas as outras coisas e debruçam-se sobre ele” (Richard Hamming, “You and your research“, [1]).

“O estudo dos fundamentos e limitações da computação, que levou à invenção dos computadores eletrônicos, desenvolveu-se em resposta a um conjunto de problemas matemáticos aparentemente abstratos (e obscuros). Esses problemas foram propostos no ano de 1900 no Congresso Internacional de Matemáticos em Paris, pelo matemático alemão David Hilbert. A palestra de Hilbert no congresso estabeleceu uma lista de resoluções para o novo século na forma de 23 dos mais importantes problemas sem solução na matemática” (Melanie Mitchell, Complexity: A guided tour, 57-58 [2]).

Se quisermos aplicar isso à pesquisa em filosofia, então deveríamos nos perguntar: “Quais são os meus problemas?”

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Originais:

[1] “Most great scientists know many important problems. They have something between 10 and 20 important problems for which they are looking for an attack. And when they see a new idea come up, one hears them say “Well that bears on this problem.” They drop all the other things and get after it.” (Richard Hamming, “You and your research“).

[2] “The study of the foundations and limitations of computation, which led to the invention of electronic computers, was developed in response to a set of seemingly abstract (and abstruse) math problems. These problems were posed in the year 1900 at the International Congress of Mathematicians in Paris by the German mathematician David Hilbert.
Hilbert’s lecture at this congress set out a list of mathematical New Year’s resolutions for the new century in the form of twenty-three of the most important unsolved problems in mathematics.” (Melanie Mitchell, Complexity: A guided tour, 57-58).