Pesquisa sobre crenças no livre-arbítrio

Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rui Grande do Sul (UFRGS) está realizando um estudo que busca validar uma escala para medir crenças sobre o livre-arbítrio. O estudo consiste em um questionário anônimo e on-line, composto de duas partes. Se você estiver interessado em contribuir, seguem os links:

Questionário (parte 1)

Questionário (parte 2)

Observação: estou divulgando este estudo por ter interesse no tema e por saber da dificuldade de se alcançar um número suficiente de pessoas dispostas a responder questionários desse tipo. Tenho certeza de que sua colaboração será muito importante!

Como escolher uma revista para um artigo de filosofia

Qualquer um que se dedique à pesquisa acadêmica em filosofia (como nas demais áreas do saber) eventualmente se defrontará com a tarefa de escolher o destino a ser dado a um trabalho. Nesta postagem, ofereço um conjunto de critérios que podem ajudar nesta tarefa, tendo como foco artigos originais (ou de pesquisa). Inicio oferecendo uma razão pela qual esse tipo de escolha merece um tratamento explícito sério e depois apresento três critérios que podem ajudar nessa escolha.

Há pelo menos duas razões pelas quais podemos nos perguntar sobre como escolher o melhor destino para um artigo de pesquisa. A primeira, e pouco interessante, é que publicações contam em avaliações para concorrer a bolsas, em relatórios de pesquisa e em provas de seleção. A esse respeito, o que mais importa é publicar de modo a aumentar a pontuação de acordo com os critérios da avaliação visada. Esse não é o foco aqui.

Uma razão mais interessante se relaciona com a própria natureza da filosofia, tal como tem sido praticada ao longo dos séculos. Depois de Sócrates, que tornava públicas suas ideias ao discutí-las em público, a filosofia passou a ser primariamente publicada por escrito. Ao propor uma nova teoria, tese ou argumento, um filósofo ou filósofa geralmente está se contrapondo a aspectos da filosofia previamente disponível. O trabalho que publica, assim, é uma contribuição à filosofia produzida até então. Em meio a outros formatos, artigos em revistas especializadas são atualmente um dos principais veículos para a publicação de trabalhos filosóficos. Um bom artigo de pesquisa oferece uma contribuição minimamente original e relevante para a literatura disponível.

Essa dinâmica do trabalho filosófico e sua relação com a publicação por escrito oferecem um quadro onde fica mais significativa a questão sobre como definir a revista mais adequada para um artigo. Penso que a publicação de artigos é parte da atividade profissional do filósofo e merece uma abordagem explícita. Ao mesmo tempo, noto que o que parece mais natural é que adentremos na prática irrefletidamente, muitas vezes seguindo o que fazem os professores ou outros pesquisadores ao nosso entorno, ou respondendo a eventuais convites de revistas quaisquer. A seguir, apresento três critérios que atualmente considero os mais relevantes para se definir as possíveis revistas para onde submeter um artigo de filosofia. Espero que ofereçam um ponto de partida para os que queiram refletir sobre seus próprios critérios na hora de submeter um artigo, e também para discussões adicionais do assunto.

1. Qualidade da avaliação

O elemento de maior peso, na minha opinião, tem a ver com a própria razão de ser das revistas especializadas. Tal como funcionam atualmente, ao submeter um trabalho a uma revista, o que se espera é que ele seja avaliado por pares, isto é, por outras pessoas competentes no assunto em questão, normalmente sem conhecimento de sua autoria. O objetivo é que só artigos considerados apropriados com base em critérios de relevância, originalidade e correção sejam publicados. Em muitos casos, pode-se exigir que um artigo com potencial para publicação seja revisado, eliminando falhas, acrescentando informações relevantes ou mesmo antecipando objeções. Outras vezes, o artigo pode não satisfazer os critérios da revista em questão e ser rejeitado. Nesses casos, um parecer descrevendo os problemas do artigo pode ser fornecido ao autor. Considero isso um dos elementos mais positivos do processo de submissão de artigos para publicação, especialmente para aqueles que, como eu, estão iniciando suas trajetórias acadêmicas. Por essa razão, podemos falar mais apropriadamente da seleção de revistas para onde submeter um artigo, e não simplesmente a revista. Um artigo, assim, pode passar por vários ciclos de avaliações, rejeições e revisões, em diferentes revistas, até que esteja pronto para ser publicado (alguns relatos aqui).

Mas como saber quais são as revistas que oferecem maiores chances de uma avaliação qualificada, com possibilidade de pareceres que permitam o aprimoramento do artigo e o crescimento de seu autor ou autora? Não há regra infalível, mas há algumas balizas que podem ser úteis.

No lado mais positivo do espectro, um guia pode ser procurar submeter a revistas onde artigos relevantes sobre o assunto já foram publicados. Artigos têm seções de referências. Olhar onde foram publicados os trabalhos que estão em discussão no seu artigo pode oferecer uma ótima lista de possíveis destinos para seu artigo. Digamos que seu artigo critique o argumento de A1, que foi apresentado no artigo B1, publicado na revista R1. Nesse caso, a revista R1 pode ser uma boa candidata para onde submeter seu artigo. Alternativamente, se o artigo contém em sua seção de referências artigos das revistas R2, R3, R4 e R5, então há alguma chance de que algumas dessas revistas sejam bons destinos para o artigo. Dada a maneira como editores selecionam pareceristas para avaliar os artigos que recebem, adotar essa sugestão pode levar a que um dos autores citados em seu artigo seja um dos avaliadores. Isso pode aumentar o rigor da avaliação e as chances de se receber um feedback bem qualificado, que poderá ser construtivo mesmo se no final o artigo não for aceito naquela revista.

No lado mais negativo do espectro, as revistas a evitar são aquelas que são conhecidas por não submeter seus trabalhos a um processo rigoroso de avaliação. Exemplos incluem revistas predatórias, que buscam publicar artigos sem submetê-los a qualquer avaliação porque lucram cobrando dos autores de trabalhos aceitos (informe-se aqui e aqui). Também podemos identificar revistas onde a avaliação costuma deixar a desejar se notarmos que já publicou trabalhos de má qualidade. Assim, detectar um artigo com erros grosseiros de conteúdo, ou mesmo com erros de ortografia e gramática evidentes é um sinal de que provavelmente não passou por uma avaliação séria.

Essas sugestões são bastante gerais, e não permitem indicar revistas específicas. Mas é possível ter informações mais específicas sobre o tipo de avaliação que as revistas costumam oferecer. Por exemplo, no âmbito de revistas filosóficas internacionais, o Journal Surveys reúne informações fornecidas por autores que submeteram artigos a diversas revistas de filosofia. As informações disponíveis incluem o percentual de trabalhos que recebem comentários, a qualidade deles, entre outras.

Não temos nenhuma ferramenta do tipo para a maioria das revistas que publicam trabalhos em português. E talvez fosse a hora de criarmos algo do tipo. Para não ficar sem nenhuma indicação positiva, considero a revista Manuscrito como uma boa opção no quesito qualidade de avaliação e pareceres. Esse juízo leva em conta minha experiência pessoal (uma rejeição) e também alguns relatos de colegas.

2. Prestígio e visibilidade

Depois da qualidade da avaliação, considero que em segundo lugar empatam considerações sobre o prestígio e a visibilidade como critérios para seleção de revistas. Aqui entram em consideração elementos extra-epistêmicos, por assim dizer. Não está em questão apenas a correção do que o artigo propõe, mas também elementos como relevância, possível impacto e também o modo como a revista oferece acesso aos artigos publicados. Sobre esses aspectos, sugiro apenas alguns exemplos que tentam capturar o que está em jogo. Enfatizo, no entanto, que não pretendo oferecer definições precisas do que se trata, e também que esses elementos só são relevantes a partir de certo nível de qualidade de avaliação. Em outras palavras, a qualidade de avaliação é o critério-base. Prestígio e visibilidade são um extra que pode entrar em cena quando a qualidade de avaliação está satisfeita.

Por prestígio, entendo que exista uma espécia de ranking imaginário de revistas (ou antes, vários deles) que as ordena por relevância do material publicado. Assim, idealmente, algumas revistas publicariam artigos potencialmente relevantes para várias áreas da filosofia, ou com potencial de alterar o rumo de uma grande discussão. Há várias listas que de alguma maneira sugerem o prestígio de revistas. Por exemplo, o Qualis da Capes classifica revistas em A1, A2, B1, etc. Outros rankings incluem o Google Scholar (Metrics), este ranking recente no blog Leiter Reports, o ranking do SJR, entre outros. E há também quem discuta até que ponto essas classificações são realmente positivas (aqui, por exemplo).

Por visibilidade, incluo tanto questões relacionadas à facilidade de acesso ao conteúdo de uma revista, bem como quão acessada ela é. Por isso, este item está de alguma maneira relacionado ao anterior. Revistas podem disponibilizar seu conteúdo abertamente na internet, ou apenas a assinantes ou mesmo apenas para os compradores de um volume impresso (pouco usual nos dias de hoje). Mas mesmo revistas que se igualam no item anterior podem variar em quanta visibilidade têm. Isso pode estar relacionado ao prestígio, por exemplo, mas também à elementos mais técnicos como sua indexação, e a maneira como seu conteúdo aparece em ferramentas de busca como o PhilPapers e o Google Scholar. No Brasil, temos em geral acesso a várias revistas que oferecem acesso apenas a assinantes por meio do Portal de Periódicos da Capes. Mas algumas revistas não são acessíveis mesmo por este meio. Sendo assim, pode ser uma boa ideia checar quão acessíveis são os artigos que uma revista publica antes de submeter-lhe um trabalho.

As considerações apresentadas—sobre qualidade da avaliação, prestígio e visibilidade—estão longe de oferecer um guia definitivo sobre como proceder na seleção de revistas para onde submeter artigos filosóficos. Tanto quanto posso ver, esse tema raramente é discutido de modo explícito e publicamente por estudantes e professores de filosofia no Brasil. Assim, espero que as considerações acima possam servir como um ponto de partida tanto para reflexões pessoais sobre a seleção de revistas quanto para futuras discussões sobre o assunto.

Conferências e discussão — Impressões do doutorado sanduíche (2)

Seguindo o plano de comentar mensalmente sobre aspectos do meu doutorado sanduíche no exterior (primeira postagem aqui), falarei este mês de um aspecto que me chamou a atenção durante minha participação em conferências e palestras.

Basicamente, o objetivo de apresentar um trabalho, do ponto de vista do apresentador, é receber feedback, submeter seus argumentos e teses ao exame crítico de seus pares. Esse feedback é produzido mediante a discussão das teses e argumentos defendidos pelo apresentador (por meio da apresentação de objeções, contra-argumentos e contraexemplos). Essa perspectiva parece gerar algumas consequências, começando pelas seguintes:

  1. Alocação do tempo. Congruentemente com o que observei na postagem anterior sobre a ênfase na argumentação e discussão na sala de aula, os eventos (palestras ou conferências) são organizados de modo a permitir longas e geralmente proveitosas discussões. No departamento que estou visitando, as palestras, por padrão, duram duas horas, sendo que na primeira o palestrante apresenta sua proposta, e na segunda hora os demais participantes (não meros ouvintes!) propõem perguntas, críticas etc. e seguidas de resposta pelo apresentador. Num outro caso, em uma conferência organizada por estudantes de pós-graduação, cada trabalho apresentado (sem apresentações simultaneas) durava cerca de uma hora, sendo que a apresentação durava cerca de 25 minutos, seguida de um comentário por outro estudante que havia lido o texto completo previamente, seguidos de discussão pelo tempo restante. Um terceiro caso foi uma conferência on-line, a Minds Online Conference (ver uma discussão posterior feita pelos organizadores avaliando a experiência). Nela, os trabalhos selecionados receberam comentários por escrito de pesquisadores especializados no assunto do trabalho, sendo que cada trabalho ficou disponível por uma semana para discussão entre autores, comentadores e público em geral.
  2. Restrição do número de apresentações. Para proporcionar uma discussão e feedback de qualidade, as conferências por aqui parecem bastante competitivas e no geral há um limite de trabalhos que serão selecionados. Em vários casos, é preciso submeter um trabalho completo para a participação no evento, e só um número será selecionado. Em meu caso pessoal, já tive trabalhos rejeitados em mais de uma ocasião. É como se, no processo de seleção dos trabalhos que comporão uma conferência, os organizadores estivessem julgando quais trabalhos merecem a atenção dos demais participantes, quais trabalhos merecem sujeitarem-se ao feedback crítico. Uma consequência positiva desse processo é que os demais participantes podem esperar assistir a apresentações de melhor qualidade, o que reforça a motivação para avaliar criticamente e oferecer feedback. Conferências com maior prestígio, além disso, tendem a atrair mais submissões e, consequentemente, é mais difícil ter um trabalho aceito e também mais qualidade é esperada.
  3. Múltiplas apresentações de um mesmo trabalho. Um terceiro elemento que tenho notado é que, dado o propósito de apresentar um trabalho (receber feedback com vistas a melhorá-lo) é comum apresentar versões progressivas de um mesmo trabalho em andamento em diversas ocasiões. Isso é saliente inclusive nos agradecimentos presentes em artigos publicados, onde é comum o autor argadecer às plateias desta e daquela outra conferência.

Por fim, gostaria de dizer que esses vários aspectos parecem poder funcionar de maneira muito integrada em alguns casos. Por exemplo, é possível que o objetivo de uma conferência seja submeter a escrutínio os trabalhos que no futuro comporão um livro sobre um tema específico. Divulgo um caso aqui, o Workshop NOWAR 2015, sobre responsabilidade moral, em parte por uma razão que oferecerei na sequência. Como enunciado no próprio website do workshop, dali serão selecionados artigos que comporão um volume da série Oxford Studies in Moral Responsibility da Oxford University Press. Uma razão para divulgar esse tipo de evento é que se trata de um exemplo claro de como estar geograficamente distante de onde se concentram os pesquisadores de determinado tema pode impactar em nossa pesquisa. Um doutorando participando desta conferência, por exemplo, pode ter acesso ao conteúdo que provavelmente só alguns anos mais tarde estará disponível para o público em geral (tempo da editoração, publicação e para que o material seja adquirido). O participante poderá ter alguns anos de vantagem nesse aspecto. Felizmente, neste caso, há uma possível solução, pois vários dos trabalhos estão disponíveis para visualização prévia.

Espero que esta postagem seja útil e interessante, e fico à disposição para quaisquer perguntas adicionais.

Edição: Esqueci de mencionar na postagem original uma regra curiosa sobre as discussões que seguem as palestras no departamento que estou visitando. Aqui, os estudantes têm preferência na hora de fazer suas perguntas. Só depois que todos os estudantes que queiram fazer perguntas ao palestrante tiverem feito suas perguntas é que a vez é passada aos professores. O papel pedagógico dessa regra é, na minha opinião, digno de nota. E ela também parece razoável. Em primeiro lugar, os estudantes poderiam estar mais receosos de fazer as suas perguntas (a regra diz que não é preciso, e lembra que são estimulados a participar). Em segundo lugar, as perguntas e discussão dos professores costuma ser mais longa, extendendo-se enquanto há tempo disponível.

Argumentação e posicionamento — Impressões do doutorado sanduíche (1)

Seguindo o plano de postar mensalmente reflexões sobre o período de doutorado sanduíche, eis um comentário sobre o que me pareceu mais destacado no primeiro mês.

1. Argumentos tomam a cena

Estou assistindo a duas disciplinas, uma na graduação e outra na pós-graduação. Com base nesta pequena amostra, um primeiro aspecto que me chamou a atenção foi a centralidade dos argumentos. Os argumentos estão no centro da cena, sendo que muitos têm um nome próprio. De modo um tanto caricatural, a aula consiste basicamente na apresentação de um argumento, seguida da avaliação/discussão do mesmo. Ao final da aula, ou você achou um problema no argumento ou vai embora com o dever racional de aceitar sua conclusão.

2. Posicionamento/discussão

Juntamente com o aspecto anterior, a passividade não é nenhum pouco incentivada. Ao longo da aula, costuma-se questionar os alunos e chamá-los a posicionarem-se sobre os argumentos estudados. ‘Voçê concorda que p? Não? Por quê?’. Ao longo dessas discussões, abre-se espaço para introduzir outros argumentos disponíveis na literatura, que favorecem ou se opõem ao argumento principal sob consideração ou aos argumentos sugeridos pelos alunos.

Não afirmo que essas duas características não estejam presentes em muitas aulas de filosofia no Brasil. Elas são, sim, parte do que fazemos. Mas o que me chamou a atenção foi o grau de seriedade com que são tomadas nos cursos que estou assistindo. O professor/a não ficará meia hora apenas ele/a falando. E, quando se trata de avaliar um argumento ou tese, não adianta dizer que o filósofo A ou B diz o contrário ou concorda. O que importa primariamente é se as premissas são verdadeiras e se o argumento é válido. O resto está em segundo plano.

Do mesmo modo, não se pressupõe que avaliar ou discutir argumentos seja uma tarefa posterior a outras (por exemplo, posterior a compreender minuciosamente o que o autor X disse). Aprende-se o que o autor X disse ao mesmo tempo em que se aprende a avaliar o que o autor X disse. As duas habilidades são desenvolvidas lado a lado.

Acho que essas notas expressam o que mais me chamou atenção no primeiro mês. Pretendo mencionar aspectos mais específicos da organização acadêmica nas próximas postagens, alguns dos quais são derivados dessas duas observações iniciais. Como na postagem anterior, fico à disposição para responder perguntas que possam surgir.

Espaço para perguntas e discussões

Boa parte do que está publicado neste blog tem a finalidade de divulgar conteúdos de filosofia para estudantes do ensino médio e público em geral. Mas ultimamente não tenho tido tempo de preparar conteúdos desse tipo, tendo me restringido a assuntos mais ligados a minhas atividades de pesquisa atuais.

Por essa razão, gostaria de deixar aberto este espaço para que os leitores possam apresentar e discutir questões de filosofia dos mais variados tipos. Pretendo contribuir com o que estiver ao meu alcance e eventualmente fazer novas postagens específicas, se algum tema receber atenção destacada.

Sinta-se convidado a comentar esta postagem com questões de qualquer natureza relacionadas à filosofia!

“Triplo cego” — Atualizando o sistema de revisão por pares

Nesta postagem no blog Daily Nous, os editores de algumas revistas de filosofia bem avaliadas internacionalmente fornecem esclarecimentos sobre seus procedimentos editoriais e de avaliação dos manuscritos recebidos. Uma novidade que merece destaque é a ampla adoção do sistema “triplo cego” de avaliação. Nele não apenas os pareceristas e os autores não têm acesso a suas respectivas identidades, mas também os editores desconhecem a identidade dos autores até que o artigo tenha sido aceito.

Um segundo procedimento que merece destaque é o prazo recomendado para o retorno dos pareceres na Australasian Journal of Philosophy — 1 mês — e a estratégia de enviar e-mails automáticos de lembrete.

Por fim, merece destaque a observação de que, além de pouquíssimos manuscritos serem aceitos, também a maioria dos que são aceitos têm revisões recomendadas ao longo do processo. Isso indica que o processo de revisão por pares exerce um papel efetivo no aprimoramento do que é publicado.

Nesta época de preocupação com a qualidade da produção acadêmica brasileira (um exemplo aqui), é desejável que nossos editores também busquem alternativas para aprimorar a qualidade e o profissionalismo das revistas nacionais.

Algumas notas sobre a filosofia e seu ensino para 2015

Planejava escrever neste início de 2015 uma postagem para cada um dos assuntos abaixo. Mas como já estamos na metade de janeiro, decidi comentar brevemente duas reflexões sobre a prática da filosofia e seu ensino que me pareceram apropriadas para iniciar o ano:

1. Avaliações filosóficas na aula de filosofia

Se minhas experiências pessoais não estiverem muito enviesadas, penso que a prática padrão na avaliação que os professores de filosofia fazem do progresso de seus alunos (tanto no nível médio como na graduação e talvez até depois) foca-se basicamente na capacidade do aluno expressar textualmente o que leu num texto indicado pelo professor. Por essa razão, é um problema sério quando o aluno não consegue ler corretamente um texto, não consegue entendê-lo apropriadamente, ou não consegue expressar corretamente o seu entendimento do texto. Nesses slides, Desidério Murcho defende que essas capacidades textuais — ler, entender e expor o conteúdo de textos filosóficos — são apenas instrumentais para a filosofia, mas não são finais. As capacidades indicadas são apenas condições necessárias para o exercício da filosofia, mas não são elas próprias o fim a que deve almejar o aprendizado e o ensino da filosofia. Entre as capacidades finais — por si filosóficas — que se espera de um aluno estão:

  • Explicar, analisar e discutir problemas filosóficos
  • Analisar e discutir/avaliar teorias filosóficas
  • Analisar e discutir/avaliar conceitos filosóficos
  • Analisar discutir/avaliar argumentos filosóficos

2. Os métodos da filosofia

As habilidades enfocadas no item anterior dizem basicamente respeito à atividade filosófica, a fazer genuinamente filosofia. Mas como se faz filosofia, como teorias e argumentos são propostos, aprimorados ou rejeitados? Neste podcast do Elucidations, Catarina Dutilh Novaes fala sobre os métodos da filosofia. Ela apresenta três metodologias frequentemente empregadas na atividade filosófica — métodos formais, métodos empíricos e métodos históricos — e defende um pluralismo a seu respeito: não apenas os três métodos podem e devem ser empregados, mas também devem ser combinados. (Fiquei sabendo do Elucidations na lista de podcasts de filosofia elaborada pelo Pablo Rolim dos Santos).

Cursos on-line em português

Vários sites internacionais oferecem cursos com professores das melhores universidades do mundo de modo inteiramente gratuito. Um desses cursos é o Coursera. Até pouco tempo, quase que todos os cursos eram ministrados em inglês. Isso promete mudar de agora em diante, com a entrada de instituições brasileiras como USP e Unicamp no projeto. Você pode ver aqui a lista de cursos ministrados em português ou ao menos com legendas em português (ou espanhol).

Entre as opções:

Bom proveito!

Quais são os seus problemas?

Aqui estão algumas ideias sobre a pesquisa nas ciências que parecem se aplicar bem também à pesquisa em filosofia:

“A maioria dos grandes cientistas conhecem muitos problemas importantes. Eles têm algo entre 10 e 20 problemas importantes para os quais estão procurando um ataque. E quando veem surgir uma ideia nova, ouve-se dizerem: ‘Bem, isso diz respeito a este problema’. Eles largam todas as outras coisas e debruçam-se sobre ele” (Richard Hamming, “You and your research“, [1]).

“O estudo dos fundamentos e limitações da computação, que levou à invenção dos computadores eletrônicos, desenvolveu-se em resposta a um conjunto de problemas matemáticos aparentemente abstratos (e obscuros). Esses problemas foram propostos no ano de 1900 no Congresso Internacional de Matemáticos em Paris, pelo matemático alemão David Hilbert. A palestra de Hilbert no congresso estabeleceu uma lista de resoluções para o novo século na forma de 23 dos mais importantes problemas sem solução na matemática” (Melanie Mitchell, Complexity: A guided tour, 57-58 [2]).

Se quisermos aplicar isso à pesquisa em filosofia, então deveríamos nos perguntar: “Quais são os meus problemas?”

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Originais:

[1] “Most great scientists know many important problems. They have something between 10 and 20 important problems for which they are looking for an attack. And when they see a new idea come up, one hears them say “Well that bears on this problem.” They drop all the other things and get after it.” (Richard Hamming, “You and your research“).

[2] “The study of the foundations and limitations of computation, which led to the invention of electronic computers, was developed in response to a set of seemingly abstract (and abstruse) math problems. These problems were posed in the year 1900 at the International Congress of Mathematicians in Paris by the German mathematician David Hilbert.
Hilbert’s lecture at this congress set out a list of mathematical New Year’s resolutions for the new century in the form of twenty-three of the most important unsolved problems in mathematics.” (Melanie Mitchell, Complexity: A guided tour, 57-58).

Os cursos de filosofia da UFSM

Aqueles que pensam na possibilidade de estudar filosofia — licenciatura, bacharelado, mestrado ou doutorado — na Universidade Federal de Santa Maria encontrarão no vídeo abaixo uma primeira apresentação e aproximação com esses cursos:

Para quem pretende prestar o vestibular para o curso de filosofia, em particular, eu recomendaria adicionalmente que tomasse conhecimento das disciplinas que compõem o curso (ver o site do departamento), e que buscasse contato com alunos ou mesmo professores do curso (por exemplo, neste grupo no Facebook).

Para outros cursos do Centro de Ciências Sociais e Humanas, há vídeos similares no YouTube (por exemplo, para os cursos de História, Ciências Sociais, Ciências Contábeis, Economia etc.).