Blog sobre filosofia e sociedade

Aos leitores deste blog, gostaria de divulgar um projeto novo: o FiloSocial. O FiloSocial é um blog de minha autoria em que buscarei discutir temas na intersecção entre filosofia e sociedade de uma maneira acessível ao público em geral. Os interessados poderão acessar o FiloSocial e também seguir sua página no Facebook para acompanhar as novidades.

Dito isso, reforço que o Filosofia: estudo e ensino continuará sendo atualizado, tentando manter seu foco em questões sobre o estudo da filosofia no ensino médio e sobre a pesquisa em filosofia.

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Revistas de acesso aberto

[Terrance Tomkow] says that “if significant numbers of philosophers, starting with luminaries and full professors” publicly committed to it, “the transition to open access could happen virtually overnight.” (do post recente no Daily Nous).

Dado que quase tudo no Brasil é Open-Access, o modo como funciona o Qualis e as atuais preocupações com internacionalização, acho que um bom próximo passo por aqui poderia ser os professores brasileiros começarem a publicar mais em revistas abertas internacionais. Algumas, por exemplo, saíram da lista do Qualis (ou nem estão lá) por não terem publicações por professores, como ocorre com Theoria, Philosophers’ Imprint e a recente Ergo. O post no Daily Nous sugere ainda esta lista de revistas abertas de filosofia.

A formação dos filósofos

Num outro post, escrevi algumas notas provisórias sobre a pesquisa em filosofia. Apareceu ali, de forma tímida, a sugestão de que seria recomendável manter-se a par dos desenvolvimentos científicos. Neste post reúno informações sobre um grupo de filósofos que tiveram uma formação inicial marcada pela ciência, especialmente a matemática. Mesmo que porquê fique por ser respondido, penso que esses casos sugerem que a ciência pode ter uma contribuição mais central para a formação filosófica, e que uma formação purista, frequentemente oferecida nas universidades brasileiras, pode não ser lá uma das apostas mais sábias.

Vejamos alguns casos:

René Descartes: estudou inicialmente matemática e física, e posteriormente direito. Teve várias contribuições em matemática e filosofia, tentando inclusive aplicar o método matemático para a filosofia (fonte).

Gottfried Leibniz: obteve graduação e mestrado em filosofia, e também graduação e doutorado em direito. Posteriormente dedicou-se à física e matemática, onde fez importantes contribuições (fonte).

Edmund Husserl: dedicou-se inicialmente à matemática, física e astronomia, estudando, posteriormente, também filosofia. A tese de doutorado foi em matemática (fonte).

Gottlob Frege: sua formação inicial na universidade foi principalmente em física e matemática. Obteve seu doutorado com uma tese em geometria. Seu trabalho posterior foi em grande medida dedicado à lógica (fonte).

Bertrand Russell: na adolescência interessou-se por matemática e temas de religião e filosofia. Dedicou-se posteriormente principalmente aos fundamentos da matemática, à filosofia e também a assuntos políticos. (fonte)

Rudolf Carnap: dedicou-se inicialmente à física, tendo sido aluno de Frege e mantido contato com Einstein. Além disso, teve contato com os escritos de Kant, que influenciou sua tese de doutorado em filosofia sobre teoria do espaço, a qual fora inicialmente planejada como uma tese em física (fonte).

Willard Van Quine: concluiu graduação em matemática e o doutorado em filosofia (fonte).

Donald Davidson: dedicou-se no início de sua formação a estudos de língua inglesa e literatura, passando em seguida a línguas clássicas e filosofia. Posteriormente, após um período na escola de negócios de Harward, escreveu uma tese de doutorado sobre o Filebu de Platão, tomando ainda contato com uma abordagem mais formal da filosofia de Quine e participando de estudos experimentais de psicologia sobre teoria da decisão, com Patrick Suppes (fonte).

David Chalmers: estudou matemática inicialmente, e depois concluiu doutorado em filosofia e ciências cognitivas (fonte).

Temos aqui uma lista de nove filósofos dos tempos modernos para cá que tiveram uma formação científica significativa. Seria prudente buscar exceções, mas é também provável que a lista possa ser ampliada e diversificada. Platão, por exemplo, escreveu que não deveriam entrar em sua Academia os que não conhecessem geometria, e mesmo na formação e obra de Kant encontramos um espaço para geometria e física. Assim, é de se perguntar se o conhecimento científico, ou mesmo matemático, teria um papel (e qual) a desempenhar na formação de um filósofo. Estaria a filosofia perdendo algo importante na formação universitária departamental atual? Os exemplos acima tornam tentador dizer que sim, mas é claro que essa é uma daquelas questões complexas que um mero post não pode fazer muito mais do que simplesmente levantar.

Edição 1: Uma fonte adicional de suporte para a sugestão deste post é a formação dos filósofos brasileiros que têm trabalhos amplamente reconhecidos. Newton da Costa, para dar um exemplo, sequer tem formação em filosofia, sendo amplamente reconhecido a nível internacional. (Uma lista de filósofos com repercussão internacional pode ser conferida neste post que escrevi para o blogue do PhilBrasil; suas formações podem ser conferidas através do Currículo Lattes).

Edição 2: Após discutir com colegas as ideias deste post, acho que agora consigo expressar melhor o que tinha em mente: se levarmos em conta dados como os acima (e se eles forem representativos da totalidade) parece mais provável que alguém se torne um filósofo bem sucedido se tiver alguma formação em outra área (na maioria das vezes em matemática), do que tendo formação em filosofia. Isso é contra-intuitivo, pois parece que os cursos de filosofia é que deveriam ter a competência de gerar filósofos. Obviamente, os dados fornecidos podem não ser representativos e a hipótese equivocada. Mas, se forem minimamente precisos, fica o desafio de explicar por que as coisas são assim.

PhilBrasil: Filosofia em português

Abaixo disponibilizo alguns links para materiais de filosofia em português ou escritos por filósofos brasileiros, organizados em categorias no site PhilBrasil:

Como estudar filosofia

Gostaria de compartilhar esta valiosa dica do professor Desidério Murcho sobre como estudar filosofia:

..Não basta compreender rigorosamente o pensamento do autor; é também preciso aprender a discuti-lo. Isto significa levantar objecções e contra-exemplos às ideias estudadas.

Numa concepção inadequada do ensino espera-se que o aluno seja primeiro capaz de descrever de maneira absolutamente correcta o pensamento de um dado autor, só estando autorizado a discuti-lo depois disso. Porém, esta não é a maneira humana normal de aprender. O resultado deste tipo de ensino é formar repetidores incapazes de avaliarem por si mesmos as ideias que repetem.

No ensino de excelência, os dois aspectos alimentam-se mutuamente. Fazer uma objecção tola a uma ideia estudada é uma excelente maneira de descobrir, com a ajuda dos professores e colegas, que não a entendemos adequadamente. É uma excelente maneira de descobrir que precisamos de compreender melhor a ideia estudada. Sem esta liberdade para errar, os estudantes entendem igualmente mal as ideias estudadas mas, como se limitam a parafraseá-las, nem o professor nem eles mesmos se apercebem disso. Por outro lado, fazer uma objecção inteligente a uma ideia estudada é a melhor expressão da completa compreensão da mesma.

A citação é do texto “Como se estuda filosofia?” disponível na página pessoal de Desidério Murcho. O itálico foi adicionado.

Como escrever um artigo de filosofia

Aqui estão alguns métodos/dicas de escrita em filosofia que considero, no momento, os melhores que já encontrei. Considero-os muito úteis e acho que vale realmente a pena gastar alguns minutos com sua leitura.

  1. Há no site filósofo Stephen Yablo um excelente guia para a escrita de artigos filosóficos. Para quem não lê em inglês, uma tradução automática pelo Google Tradutor pode ser acessada aqui.
  2. Stephen Mumford apresenta sucintamente um método que promete aumentar consideravelmente a qualidade da escrita de artigos, e também diminuir o número de versões necessárias para se chegar a algo publicável (a tradução para o português de Flavio Williges está disponível aqui).
  3. Por fim, Robert P. Wolff oferece um conjunto de sugestões muito úteis sobre a escrita de teses/dissertações em filosofia, disponível em inglês aqui (e traduzido pelo Google Tradutor aqui).
  4. [Edição:] Mais umas dicas muito úteis escritas por Richard Price, disponíveis aqui.

Como tornar-se um filósofo profissional?

Ao longo dos anos que já dediquei à filosofia, sempre me foi presente a questão sobre como tornar-se um filósofo, um bom filósofo, ou um filósofo profissional. Coloco aqui meus pensamentos atuais sobre o assunto, na esperança de que possa receber comentários, sugestões, críticas e, quem sabe, ser útil a mais alguém.

Quando me faço a pergunta do título, no fundo, estou contrastando uma maneira de voltar-se à filosofia com duas outras: fazer história da filosofia profissionalmente, ou apenas levar uma vida reflexiva, ser um pensador livre. No que segue, direi o que penso sobre como fazer filosofia, por contraste a esses outros dois modos, contra os quais nada tenho a dizer (sobre o contraste filosofia/história da filosofia, recomendo a palestra de Oswaldo Porchat Pereira e a entrevista com Desidério Murcho).

Mas bem, poderia haver alguma fórmula ou caminho seguro rumo à atividade filosófica profissional? Obviamente a resposta deve ser que não. Mas eu ainda assim gostaria de sugerir alguns passos que penso poderem ser de grande ajuda, e que talvez tivessem aprimorado minha experiência filosófica, se me tivessem sido sugeridos algum tempo atrás.

  • Qual tema? Qual questão?

Um primeiro ponto diz respeito ao assunto sobre o qual trabalharemos. A filosofia é uma área muito vasta do conhecimento, e praticamente qualquer coisa está sujeita a ser abordada filosoficamente em alguma medida. (Em alguma medida, pois, por exemplo, que água seja H2O não parece ter qualquer interesse filosófico, apesar de haver inúmeras questões filosóficas interessantes envolvendo a química que são abordadas em filosofia da ciência e filosofia da química).

Bem, dada a abrangência permitida pela filosofia, teremos de escolher, delimitar, alguma área. E, em princípio, podemos nos guiar aqui por duas opções: o que nos interessa pessoalmente e o que é um assunto relevante (por razões teóricas ou circunstanciais). Obviamente que o interesse pessoal deverá ter um peso considerável, pois é dele que dependerá a energia para tocar o barco adiante. Mas, dado que geralmente será preciso escolher questões mais específicas, problemas passíveis de solução no prazo de um projeto com duração temporal delimitada, o quesito da relevância poderá ajudar nesta delimitação dentro de uma tema maior de interesse pessoal. Algumas  questões mais técnicas, por exemplo, podem ser pouco interessantes por si mesmas, mas podem ser de grande relevância para questões mais amplas, em assuntos que podem ser dos mais interessantes. E outras questões técnicas podem ser absolutamente laterais que há pouca esperança de se conseguir algo relevante pessoal ou teoricamente com elas. Então, talvez seja bom levar isso em conta na hora de delimitar o tema e as questões específicas a serem investigadas.

Como deve ter sido possível notar, em momento algum falei algo sobre qual “autor” ou “escola” filosófica escolher. Se o interesse é em fazer filosofia, e não história da filosofia, os autores não são o alvo, são secundários. É claro que teremos que ler algum(ns) autor(es), pois afinal, não há material que não tenha sido produzido por alguém. Mas, isto deve ficar claro, aquilo que vamos ler é fruto de uma delimitação temática anterior, e não o inverso. Então, depois de delimitado o assunto, temos de encontrar alguma maneira de selecionar os autores e os textos relevantes a serem estudados.

  • O que ler?

O que ler, portanto, deve ser decidido em função do tema escolhido. E isso vale para livros e artigos e também para autores. O principal problema agora, dada a delimitação maior determinada pelo tema escolhido, é a enorme quantidade de material que encontramos hoje em dia (especialmente na internet) em praticamente qualquer assunto.  O problema, portanto, é um problema de escolha, delimitação.

Uma primeira sugestão que eu gostaria de fazer é que é muito difícil para o autodidata resolver essa tarefa de seleção. Presumimos que para dizer se algo é pertinente ou não para certos propósitos, é necessário conhecer esse algo. Assim, parece que teríamos que ler tudo o que existe para poder depois ter uma lista daquilo que é relevante. Em parte isso é mais ou menos assim, exceto pela impossibilidade prática de se ler tudo. O iniciante autoditada, então, está numa situação paradoxal: para escolher o que ler, teria de já conhecer o que lerá; mas para conhecer, terá de escolher por onde começar.

Minha sugestão é deixar de ser completamente autodidata aqui: precisaremos de ajuda. A pergunta, então, é: a ajuda de quem. A seguir, darei indicarei alguns recursos que podem servir (combinados, provavelmente, eles serão mais eficientes):

Antologias: em português esse tipo de material não é muito comum (ao menos na filosofia). Uma exceção é a antologia Viver para quê? Ensaios sobre o sentido da vida, organizada por Desidério Murcho. Em inglẽs, temos uma variedade de antologias sobre vários temas: metafísica, ética, filosofia da mente, filosofia da lógica, filosofia da linguagem, livre arbítrio e muitas outras. O propósito desses materiais, em geral, é reunir textos consagrados em uma certa área de estudo, especialmente os que compõem as questões atualmente em discussão.

Enciclopedias: há ao menos duas enciclopédias on-line de filosofia consagradas: a Stanford Encyclopedia of Philosophy e a Internet Encyclopedia of Philosophy. Em ambas, filósofos consagrados escrevem artigos de revisão das questões e da literatura em relevante atualmente em suas áreas de estudo. Ler esses verbetes ajuda a tomar conhecimento do estado da arte nos respectivos temas, e oferece uma lista bibliográfica (já comentada) que pode muito bem servir para selecionar o material a ser estudado no tópico escolhido.

Listas bibliográficas: provavelmente a referência mais consagrada aqui seja o Philpapers.org. Esse indexador de livros e artigos apresenta os materiais categorizados por tópico e subtópico. Muitas das categorias são organizadas por profissionais reconhecidos, que também indicam a relevância dos materiais para suas respectivas áreas. Um novo recurso parecido é o portal Oxford Bibliographies.

Uma sugestão que alguns fariam, além das acima, é também ficar a par dos avanços científicos que se dão em áreas relacionadas aos tópicos de interesse filosófico, já que muitas vezes esses avanços são relevantes para as discussões filosóficas.

Bem, é importante ressaltar que tudo isso é apenas um grande esboço. Muito mais poderia ser acrescentado, e sugestões em direções divergentes poderiam ser dadas por outras pessoas. Comentários, sugestões e críticas serão muito bem-vindos, e eu espero que isso possa servir de orientação a mais alguém.

Enquete

Criei uma enquete para tentar conhecer mais o público que visita o blogue. Isso poderia ajudar na hora de decidir como escrever os textos de uma maneira mais adequada para o público frequentador. Pode-se ver e votar na coluna aí à direita; ou abaixo: