Revistas de acesso aberto

[Terrance Tomkow] says that “if significant numbers of philosophers, starting with luminaries and full professors” publicly committed to it, “the transition to open access could happen virtually overnight.” (do post recente no Daily Nous).

Dado que quase tudo no Brasil é Open-Access, o modo como funciona o Qualis e as atuais preocupações com internacionalização, acho que um bom próximo passo por aqui poderia ser os professores brasileiros começarem a publicar mais em revistas abertas internacionais. Algumas, por exemplo, saíram da lista do Qualis (ou nem estão lá) por não terem publicações por professores, como ocorre com Theoria, Philosophers’ Imprint e a recente Ergo. O post no Daily Nous sugere ainda esta lista de revistas abertas de filosofia.

A formação dos filósofos

Num outro post, escrevi algumas notas provisórias sobre a pesquisa em filosofia. Apareceu ali, de forma tímida, a sugestão de que seria recomendável manter-se a par dos desenvolvimentos científicos. Neste post reúno informações sobre um grupo de filósofos que tiveram uma formação inicial marcada pela ciência, especialmente a matemática. Mesmo que porquê fique por ser respondido, penso que esses casos sugerem que a ciência pode ter uma contribuição mais central para a formação filosófica, e que uma formação purista, frequentemente oferecida nas universidades brasileiras, pode não ser lá uma das apostas mais sábias.

Vejamos alguns casos:

René Descartes: estudou inicialmente matemática e física, e posteriormente direito. Teve várias contribuições em matemática e filosofia, tentando inclusive aplicar o método matemático para a filosofia (fonte).

Gottfried Leibniz: obteve graduação e mestrado em filosofia, e também graduação e doutorado em direito. Posteriormente dedicou-se à física e matemática, onde fez importantes contribuições (fonte).

Edmund Husserl: dedicou-se inicialmente à matemática, física e astronomia, estudando, posteriormente, também filosofia. A tese de doutorado foi em matemática (fonte).

Gottlob Frege: sua formação inicial na universidade foi principalmente em física e matemática. Obteve seu doutorado com uma tese em geometria. Seu trabalho posterior foi em grande medida dedicado à lógica (fonte).

Bertrand Russell: na adolescência interessou-se por matemática e temas de religião e filosofia. Dedicou-se posteriormente principalmente aos fundamentos da matemática, à filosofia e também a assuntos políticos. (fonte)

Rudolf Carnap: dedicou-se inicialmente à física, tendo sido aluno de Frege e mantido contato com Einstein. Além disso, teve contato com os escritos de Kant, que influenciou sua tese de doutorado em filosofia sobre teoria do espaço, a qual fora inicialmente planejada como uma tese em física (fonte).

Willard Van Quine: concluiu graduação em matemática e o doutorado em filosofia (fonte).

Donald Davidson: dedicou-se no início de sua formação a estudos de língua inglesa e literatura, passando em seguida a línguas clássicas e filosofia. Posteriormente, após um período na escola de negócios de Harward, escreveu uma tese de doutorado sobre o Filebu de Platão, tomando ainda contato com uma abordagem mais formal da filosofia de Quine e participando de estudos experimentais de psicologia sobre teoria da decisão, com Patrick Suppes (fonte).

David Chalmers: estudou matemática inicialmente, e depois concluiu doutorado em filosofia e ciências cognitivas (fonte).

Temos aqui uma lista de nove filósofos dos tempos modernos para cá que tiveram uma formação científica significativa. Seria prudente buscar exceções, mas é também provável que a lista possa ser ampliada e diversificada. Platão, por exemplo, escreveu que não deveriam entrar em sua Academia os que não conhecessem geometria, e mesmo na formação e obra de Kant encontramos um espaço para geometria e física. Assim, é de se perguntar se o conhecimento científico, ou mesmo matemático, teria um papel (e qual) a desempenhar na formação de um filósofo. Estaria a filosofia perdendo algo importante na formação universitária departamental atual? Os exemplos acima tornam tentador dizer que sim, mas é claro que essa é uma daquelas questões complexas que um mero post não pode fazer muito mais do que simplesmente levantar.

Edição 1: Uma fonte adicional de suporte para a sugestão deste post é a formação dos filósofos brasileiros que têm trabalhos amplamente reconhecidos. Newton da Costa, para dar um exemplo, sequer tem formação em filosofia, sendo amplamente reconhecido a nível internacional. (Uma lista de filósofos com repercussão internacional pode ser conferida neste post que escrevi para o blogue do PhilBrasil; suas formações podem ser conferidas através do Currículo Lattes).

Edição 2: Após discutir com colegas as ideias deste post, acho que agora consigo expressar melhor o que tinha em mente: se levarmos em conta dados como os acima (e se eles forem representativos da totalidade) parece mais provável que alguém se torne um filósofo bem sucedido se tiver alguma formação em outra área (na maioria das vezes em matemática), do que tendo formação em filosofia. Isso é contra-intuitivo, pois parece que os cursos de filosofia é que deveriam ter a competência de gerar filósofos. Obviamente, os dados fornecidos podem não ser representativos e a hipótese equivocada. Mas, se forem minimamente precisos, fica o desafio de explicar por que as coisas são assim.

Como tornar-se um filósofo profissional?

Ao longo dos anos que já dediquei à filosofia, sempre me foi presente a questão sobre como tornar-se um filósofo, um bom filósofo, ou um filósofo profissional. Coloco aqui meus pensamentos atuais sobre o assunto, na esperança de que possa receber comentários, sugestões, críticas e, quem sabe, ser útil a mais alguém.

Quando me faço a pergunta do título, no fundo, estou contrastando uma maneira de voltar-se à filosofia com duas outras: fazer história da filosofia profissionalmente, ou apenas levar uma vida reflexiva, ser um pensador livre. No que segue, direi o que penso sobre como fazer filosofia, por contraste a esses outros dois modos, contra os quais nada tenho a dizer (sobre o contraste filosofia/história da filosofia, recomendo a palestra de Oswaldo Porchat Pereira e a entrevista com Desidério Murcho).

Mas bem, poderia haver alguma fórmula ou caminho seguro rumo à atividade filosófica profissional? Obviamente a resposta deve ser que não. Mas eu ainda assim gostaria de sugerir alguns passos que penso poderem ser de grande ajuda, e que talvez tivessem aprimorado minha experiência filosófica, se me tivessem sido sugeridos algum tempo atrás.

  • Qual tema? Qual questão?

Um primeiro ponto diz respeito ao assunto sobre o qual trabalharemos. A filosofia é uma área muito vasta do conhecimento, e praticamente qualquer coisa está sujeita a ser abordada filosoficamente em alguma medida. (Em alguma medida, pois, por exemplo, que água seja H2O não parece ter qualquer interesse filosófico, apesar de haver inúmeras questões filosóficas interessantes envolvendo a química que são abordadas em filosofia da ciência e filosofia da química).

Bem, dada a abrangência permitida pela filosofia, teremos de escolher, delimitar, alguma área. E, em princípio, podemos nos guiar aqui por duas opções: o que nos interessa pessoalmente e o que é um assunto relevante (por razões teóricas ou circunstanciais). Obviamente que o interesse pessoal deverá ter um peso considerável, pois é dele que dependerá a energia para tocar o barco adiante. Mas, dado que geralmente será preciso escolher questões mais específicas, problemas passíveis de solução no prazo de um projeto com duração temporal delimitada, o quesito da relevância poderá ajudar nesta delimitação dentro de uma tema maior de interesse pessoal. Algumas  questões mais técnicas, por exemplo, podem ser pouco interessantes por si mesmas, mas podem ser de grande relevância para questões mais amplas, em assuntos que podem ser dos mais interessantes. E outras questões técnicas podem ser absolutamente laterais que há pouca esperança de se conseguir algo relevante pessoal ou teoricamente com elas. Então, talvez seja bom levar isso em conta na hora de delimitar o tema e as questões específicas a serem investigadas.

Como deve ter sido possível notar, em momento algum falei algo sobre qual “autor” ou “escola” filosófica escolher. Se o interesse é em fazer filosofia, e não história da filosofia, os autores não são o alvo, são secundários. É claro que teremos que ler algum(ns) autor(es), pois afinal, não há material que não tenha sido produzido por alguém. Mas, isto deve ficar claro, aquilo que vamos ler é fruto de uma delimitação temática anterior, e não o inverso. Então, depois de delimitado o assunto, temos de encontrar alguma maneira de selecionar os autores e os textos relevantes a serem estudados.

  • O que ler?

O que ler, portanto, deve ser decidido em função do tema escolhido. E isso vale para livros e artigos e também para autores. O principal problema agora, dada a delimitação maior determinada pelo tema escolhido, é a enorme quantidade de material que encontramos hoje em dia (especialmente na internet) em praticamente qualquer assunto.  O problema, portanto, é um problema de escolha, delimitação.

Uma primeira sugestão que eu gostaria de fazer é que é muito difícil para o autodidata resolver essa tarefa de seleção. Presumimos que para dizer se algo é pertinente ou não para certos propósitos, é necessário conhecer esse algo. Assim, parece que teríamos que ler tudo o que existe para poder depois ter uma lista daquilo que é relevante. Em parte isso é mais ou menos assim, exceto pela impossibilidade prática de se ler tudo. O iniciante autoditada, então, está numa situação paradoxal: para escolher o que ler, teria de já conhecer o que lerá; mas para conhecer, terá de escolher por onde começar.

Minha sugestão é deixar de ser completamente autodidata aqui: precisaremos de ajuda. A pergunta, então, é: a ajuda de quem. A seguir, darei indicarei alguns recursos que podem servir (combinados, provavelmente, eles serão mais eficientes):

Antologias: em português esse tipo de material não é muito comum (ao menos na filosofia). Uma exceção é a antologia Viver para quê? Ensaios sobre o sentido da vida, organizada por Desidério Murcho. Em inglẽs, temos uma variedade de antologias sobre vários temas: metafísica, ética, filosofia da mente, filosofia da lógica, filosofia da linguagem, livre arbítrio e muitas outras. O propósito desses materiais, em geral, é reunir textos consagrados em uma certa área de estudo, especialmente os que compõem as questões atualmente em discussão.

Enciclopedias: há ao menos duas enciclopédias on-line de filosofia consagradas: a Stanford Encyclopedia of Philosophy e a Internet Encyclopedia of Philosophy. Em ambas, filósofos consagrados escrevem artigos de revisão das questões e da literatura em relevante atualmente em suas áreas de estudo. Ler esses verbetes ajuda a tomar conhecimento do estado da arte nos respectivos temas, e oferece uma lista bibliográfica (já comentada) que pode muito bem servir para selecionar o material a ser estudado no tópico escolhido.

Listas bibliográficas: provavelmente a referência mais consagrada aqui seja o Philpapers.org. Esse indexador de livros e artigos apresenta os materiais categorizados por tópico e subtópico. Muitas das categorias são organizadas por profissionais reconhecidos, que também indicam a relevância dos materiais para suas respectivas áreas. Um novo recurso parecido é o portal Oxford Bibliographies.

Uma sugestão que alguns fariam, além das acima, é também ficar a par dos avanços científicos que se dão em áreas relacionadas aos tópicos de interesse filosófico, já que muitas vezes esses avanços são relevantes para as discussões filosóficas.

Bem, é importante ressaltar que tudo isso é apenas um grande esboço. Muito mais poderia ser acrescentado, e sugestões em direções divergentes poderiam ser dadas por outras pessoas. Comentários, sugestões e críticas serão muito bem-vindos, e eu espero que isso possa servir de orientação a mais alguém.

A verdade e a falsidade de afirmações universais

Eu tenho me convencido ultimamente que ensinar um conjunto mínimo de noções de filosofia da linguagem e de lógica no Ensino Médio pode bem ser a melhor maneira de promover o tão esperado senso crítico ou educação para a cidadania. E isso se deve justamente ao caráter formal, abstrato ou desprovido de conteúdo desses conhecimentos. Aprender essas noções mínimas de lógica e filosofia da linguagem não é aprender um conjunto de verdades, que a partir de então seriam aceitas como incontestáveis. Não! Aprender essas noções mínimas é essencialmente uma questão de adquirir um conjunto de técnicas, instrumentos ou habilidades que podem ser aplicados a toda e qualquer pretensão de verdade que tenhamos em nossas vidas diárias.

Um conjunto de esclarecimentos que penso serem do tipo que mencionei acima diz respeito às condições de verdade de afirmações universais. Quero considerar aqui afirmações do tipo:

  1. “Todas os casos de aborto são moralmente errados”; e
  2. “Nenhum político é sincero”.

Essas afirmações são chamadas universais por dizerem algo acerca de todas as coisas de um certo tipo – políticos, abortos etc. A afirmação (1), por exemplo, diz que todo e qualquer caso de aborto é moralmente errado; a afirmação (2) é universal (porém negativa) por dizer que todo e qualquer político não é sincero.

Falar das condições de verdade de uma afirmação é falar sobre as condições que, se preenchidas, mostrariam que ela é verdadeira ou falsa. No caso das afirmações universais é mais fácil falar primeiro das condições em que elas são falsas.

Voltemos aos exemplos. Para que a afirmação (1) seja falsa basta que exista um único caso de aborto que não seja moralmente errado. Temos vários exemplos disso: casos de aborto em que a concepção foi resultado de estupro ou (se você não concorda com esse caso) abortos espontâneos não são moralmente errados. Portanto, a afirmação (1) é falsa.

No caso da afirmação (2), também é mais fácil dizer em que caso ela seria falsa. Para que (2) seja falsa basta existir um único político que é sincero. (2) diz que todos os políticos não são sinceros e, portanto, um único caso de político que é sincero mostra que (2) é falsa. Assim, se você conhece um político sincero, então você não pode tomar por verdadeira a afirmação (2).

Agora, em que casos seriam verdadeiras as afirmações universais? Se uma afirmação universal é verdadeira, isso implica que entre todas coisas ou indivíduos sobre os quais ela fala não existe nenhum que contradiga o que é afirmado sobre eles. Por exemplo, para que fosse verdadeira a afirmação (1), não poderia existir nenhum caso de aborto que fosse moralmente aceitável. Para que (2) fosse verdadeira, também, não poderia haver um único político sequer que fosse sincero.

A grande dificuldade em estabelecer a verdade da maioria das afirmações universais é que nossas capacidades de conhecimento (ou cognitivas) não conseguem varrer todos os casos abrangidos e conferir se estão de acordo com o que é dito a seu respeito. Estabelecer a verdade delas exigiria percorrer todo um grupo de indivíduos – os abortos ou os políticos, por exemplo – e constatar que ali não existe nenhum caso que contradiga o que foi afirmado sobre eles – que todos os casos de aborto investigados são errados e que cada um de todos os políticos investigados não é sincero.

O problema é que em muitos casos isso é praticamente irrealizável. Em muitos casos as afirmações universais falam de coisas que não estão acessíveis a nós. Isso pode se dar quando ela fala sobre casos passados ou futuros que não estão mais, ou ainda, acessíveis (ex: “Nenhum dinossauro tinha cinco pernas”), quando ela fala sobre coisas às quais não temos acesso (ex: “Todas as galáxias têm buracos negros”) entre outros casos.

Um fato curioso é que a maioria dos preconceitos são sustentados de maneira universal. Sendo assim, temos agora a chave para combatê-los: basta encontrar um único caso que contradiga a afirmação universal. É por isso, também, que é prudente conferir o estatuto de hipótese à grande maioria das afirmações universais. Geralmente não temos em mãos todos os casos que precisaríamos investigar a fim de estabelecer a verdade de uma afirmação universal. Isso implica que não estamos livres de encontrar em breve um caso mostrando que uma afirmação universal é falsa e precisa ser abandonada.

Filosofia para o Ensino Médio?

Esclarecimento: a filosofia tornou-se recentemente obrigatória no Ensino Médio do país. Para se adequar a essa nova realidade estão sendo lançados no mercado diversos materiais para essa demanda nova. Abaixo comento dois problemas graves no livro Filosofia para o Ensino Médio de Maria Luiza Silveira Teles, publicado pela Editora Vozes em 2010. Enquanto leitor e futuro professor de filosofia, sinto-me no dever de não deixar passar em branco o tipo de erro que aponto abaixo.

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1. Sobre o que é a filosofia:

Na página 33 há uma afirmação que, apesar de não ser uma falsidade evidente, requereria no mínimo uma defesa elaborada, visto não ser, de longe, a concepção mais usual a respeito do que seja a filosofia:

A filosofia é uma ciência empírica porque se baseia principalmente na observação. Este, portanto, seria o método básico” (p. 33).

Essa afirmação, sem mais, é lamentável. Só pode confundir a cabeça de um aluno que está tendo os primeiros contatos com a filosofia. Uma maneira mais caridosa de ler essa passagem seria considerar que a palavra “não” foi ali esquecidduas vezes. Desse modo, leríamos que a filosofia não é uma ciência empírica e não se baseia na observação. A observação não é o método básico da filosofia. Essa correção seria condizente com o que a autora afirmou em parágrafos precedentes:

… a discussão em Filosofia […] tem de ser um levantamento de hipóteses, com respostas lógicas. […] Nas ciências, de um modo geral, costuma-se usar o método científico, que começa com a observação rigorosa […]. Isso, porém, não é possível em Filosofia, já que lidamos somente com ideias, conceitos” (p. 33).

Essas afirmações são aceitáveis e, assim, só temos que lamentar que três ocorrências da palavra “não” tenham passado despercebidas na revisão do material antes da publicação – se é que foi isso que aconteceu. Tal como está, entretanto, esse material não atende os mínimos requisitos para apresentação ao público leigo ao qual é dirigido, pois não pode conduzir a outra coisa que não confusão e erros.

2. Lógica, proposições, validade:

Um outro conjunto de erros inadmissíveis é apresentado no capítulo 2. Seu título é “O pensamento lógico”. O capítulo inicia com uma definição de silogismo e apresenta dois exemplos:

[Silogismo] é uma conclusão razoável e lógica que se baseia em duas proposições ou premissas verdadeiras. […]:

Pedro é homem
Todo homem é mortal
Logo, Pedro é mortal. […]

Todos os negros são pessoas
Napoleão era uma pessoa
Logo, Napoleão era negro “ (p. 19)

Logo em seguida, são apresentados dois princípios da lógica clássica, o de não-contradição e o do terceiro excluído. Os erros aparecem logo na sequência, na avaliação dos argumentos apresentados como exemplos:

Podemos representar proposições por meio de frases (como já fizemos no início do capítulo) ou símbolos. Uma cadeia que forma uma expressão válida (isto é, que ofereça um valor falso (F) ou verdadeiro (V) de retorno) é chamada de fórmula bem formulada.
Assim, o primeiro exemplo de silogismo que apresentamos é uma fórmula bem formulada. Já o segundo exemplo não é uma fórmula bem formulada, pois leva a uma conclusão falsa.
Esclarecendo, proposição é uma sentença declarativa, afirmativa, que pode assumir o valor de verdadeiro (V) ou falso (F)” (p. 20).

É difícil imaginar uma leitura caridosa para esse trecho. Em primeiro lugar, a caracterização oferecida entre parênteses é mais adequada ao que usualmente chamamos de proposição. Tal como está, entretanto, essa caracterização contradiz a avaliação dos exemplos, o primeiro como bem formulado e o segundo como não bem formulado. Mas, por outro lado, essa avaliação sugere que a autora não pretendia caracterizar a noção de proposição, mas, sim, a noção de validade.

Mas, se ela de fato pretendia caracterizar a noção de validade, temos ainda problemas. Para corrigi-los teríamos de, em primeiro lugar, excluir o que está entre parênteses (porque caracteriza proposição e não validade). Em seguida, é preciso aprimorar a caracterização de validade. Um argumento é válido se ele garante que, se as premissas forem verdadeiras, a conclusão também será verdadeira (pode-se chamar isso de a conclusão seguir-se das premissas). Assim, a validade de um argumento independe do valor de verdade real das premissas e da conclusão, pois garante apenas que a conclusão é verdadeira em todas (e apenas) as situações em que as premissas são verdadeiras. Disso não se segue que as premissas ou a conclusão sejam, de fato, verdadeiras. Com esses ajustes, poderíamos agora classificar o primeiro exemplo como válido e o segundo como inválido. No primeiro caso a conclusão segue-se das premissas; no segundo não.

Diante de tamanha confusão, vê-se que esse definitivamente não é um bom material para os estudantes de filosofia do nosso país. É uma pena que os editores tenham permitido a publicação de um material nessas condições e poderíamos ironizar dizendo que talvez tenham (mais uma vez) “apenas” esquecido a palavra “não”: neste caso o “não” do título do capítulo, que poderia ser chamado “O pensamento não-lógico”.

Se a religiosidade cura, o que ganham as religiões?

O texto que reproduzo abaixo foi publicado na página 2, seção “Palavra do Leitor” do jornal ARAUTO de Vera Cruz-RS. A edição é de sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010. Críticas serão bem-vindas.

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Se a religiosidade cura, o que ganham as religiões?

Marcelo Fischborn

No artigo “Oração e cura – fato ou fantasia?” (publicado neste espaço na terça-feira, dia 2 de fevereiro de 2010), Roque M. Savioli afirma que pesquisas científicas têm sugerido que a religiosidade pode trazer benefícios à saúde e qualidade de vida das pessoas. As minhas questões aqui são as seguintes: se o que Savioli fala é verdadeiro, o que ganham (1) as religiões em geral e (2) as religiões teístas em particular? Faço essas perguntas, pois penso que muitas pessoas poderiam ver aí um importante apoio científico para as religiões. Como mostrarei a seguir, discordo dessa ideia. Entretanto, não pretendo que minhas respostas sejam definitivas; antes, elas devem abrir a discussão.

Segundo Savioli, existe uma discussão polêmica sobre a relação entre fé religiosa e melhoria de saúde. No âmbito científico essa discussão teria se iniciado no século passado, quando médicos e cientistas não conseguiram explicar supostas curas pela fé e, tampouco, puderam detectar algum tipo de fraude. Após um progressivo aumento de pesquisas científicas sobre o assunto, Savioli diz que muitas delas apontaram para a existência de uma associação entre envolvimento religioso e saúde. Segundo o autor, uma das explicações desse fenômeno existentes atualmente atribui à atividade religiosa a capacidade de diminuir os níveis de estresse. Conjuntamente, diversas pesquisas associam estresse elevado com o desenvolvimento de várias patologias. Assim, finaliza Savioli, a fé religiosa poderia atuar no âmbito psíquico (aliviando o estresse), e isso ajudaria a evitar diversos tipos doenças (uma vez que o plano psicológico interage com outros sistemas, como o imunológico e o neurológico). Resumidamente, a fé ajudaria a combater o estresse, e isso poderia ajudar a prevenir doenças e aumentar a expectativa de vida.

Quanto à primeira pergunta, inicialmente parece que as religiões sairiam favorecidas, uma vez que poderiam auxiliar na cura de doenças. A ciência estaria, inclusive, reconhecendo este suposto poder. Entretanto, se é a prática religiosa que traz benefícios à saúde do praticante, então a prática de qualquer religião deve trazer os mesmos benefícios. A menos que se comprove que a religião x faz bem e a y não, todas as religiões estão no mesmo nível para a ciência. Assim, nenhuma religião em particular sai beneficiada, se a ciência comprova apenas que a religiosidade faz bem à saúde. Por outro lado, todas elas são glorificadas apenas pelos benefícios que podem trazer. A religião é, assim, valorizada como meio para um fim (saúde), e não por qualquer elemento constitutivo de seus princípios e crenças. Penso que os defensores de alguma religião não veriam com bons olhos essa situação. Cada religião pretende ser sempre a melhor; não mais uma, mas a religião. Assim, se de fato a ciência mostra que a religiosidade favorece a saúde, isso não deve ser visto como um favor da ciência a qualquer religião em particular.

E quanto às religiões teístas? Aqui, penso que elas sofrem uma desvantagem. Isso se deve ao fato de existirem religiões, como a budista, por exemplo, que não cultuam um Deus. Se o benefício da religião está em praticá-la (na atividade, portanto), e existem religiões que dispensam uma divindade, então esta se torna dispensável para os benefícios à saúde. A noção de Deus não recebe nenhum apoio científico. Ao contrário: atribuir o poder de cura à atividade religiosa que diminui o estresse pode forçar-nos a admitir que esse poder não é divino. Assim, as comprovações da ciência dispensam qualquer noção de um Deus poderoso.

Finalizando, defendi que as religiões em geral não são favorecidas pela comprovação científica de benefícios da religiosidade à saúde. Há sim um ponto favorável às religiões, mas, como defendi, este ponto não deve ser bem recebido pela maioria das religiões. Quanto às religiões teístas, falei que a noção de uma divindade é também desfavorecida, por tornar-se dispensável.

Sobre Heráclito, História da Filosofia e Ensino

Resumo: (Primeiramente, o leitor que não está interessado em discussões sobre ensino de filosofia, e quer apenas ampliar seu conhecimento sobre a filosofia de Heráclito, pode ir diretamente à seção III.) Em I apresento brevemente a discussão sobre ensinar filosofia a partir de seus problemas ou a partir de sua história. Em II faço uma crítica a certas “apresentações apressadas” de filósofos como Heráclito em aulas de filosofia de enfoque histórico no ensino médio. Em III, em parte justificando a crítica, trago algumas citações de Heráclito para salientar que ele se ocuupou com diversos problemas e, por isso, caricaturas e simplificações extremas não são adequadas.

I – Ensinar História da Filosofia?

Tenho acompanhado discussões sobre como ensinar filosofia no ensino médio. Há uma discussão sobre se o enfoque deve ser de tipo histórico ou em temas e problemas. Uma posição que parece ser sensata é que não se abra mão do recurso ao texto clássico. Mas quanto a ele ser o fim da atividade de ensino, isso requer mais discussão.

A defesa de que o enfoque seja nos problemas filosóficos que apareceram no decorrer da sua história da filosofia pode recorrer ao fato de que foram esses problemas que motivaram e motivam os filósofos a escrever. E, também, que o caráter crítico e argumentativo da filosofia é melhor respeitado se o enfoque ao ensiná-la é em seus problemas e entendendo que os escritos dos filósofos foram tentativas de resolvê-los.

II – Crítica a apresentações “apressadas” de um filósofo

Agora o Heráclito. Escolhi ele como um exemplo, devido a sua certa “popularidade” nos manuais e aulas de filosofia de enfoque histórico. Quero defender que é muito pobre, e também problemática, a apresentação deste filósofo, assim como deve também ser a de vários outros dessa abordagem. Exemplos de textos voltados a alunos do Ensino Médio sobre Heráclito podem ser vistos aqui e (de forma um pouco mais elaborada) aqui.

Um problema neste tipo de texto é que não destaca nada sobre os escritos do próprio Heráclito. Não é informado ao leitor que de Heráclito só temos fragmentos, nem o caráter problemático das traduções feitas a partir das versões originais e da complicada e necessária interpretação que é dada a esses trechos. O outro problema é que parecem focar-se em apenas em um ou outro aspecto da sua filosofia, levando a caricaturas grosseiras do autor como “O filósofo do movimento”, “do fogo” ou “do Lógos”. Fora isso, num âmbito mais geral, sem o enfoque nos problemas o filósofo pode parecer um idiota. Certas teorias propostas no decorrer das historia não fazem sentido se não sabemos mais da sua razão de surgir e dos recursos de saber disponíveis em tal época. Penso que faz mais sentido ao aluno ficar a par de tudo isso.

III – Assuntos variados nos escritos de Heráclito

Para trazer à tona alguns aspectos mais do trabalho de Heráclito vou citar alguns fragmentos do próprio Heráclito. Tento mostrar, assim, a variedade de assuntos que o filósofo tratou e, quem sabe, provocar uma surpresa aos que foram apresentados a Heráclito por aí sem nenhum contato com o que ele de fato nos deixou.

Heráclito escreveu sobre a morte:

“27 – O que aguarda os homens após a morte, não é nem o que esperam nem o que imaginam.”

Sobre a felicidade:

“4 – Se a felicidade consistisse nos prazeres do corpo, deveríamos proclamar felizes os bois, quando encontram ervilhas para comer.”

Há, também, um fragmento muito esquisito:

“96 – Os cadáveres deveriam ser lançados fora como estrume.”

Falou sobre a lei:

“33 – Lei é também obedecer à vontade de um só.”

Sobre a alma:

“45 – Mesmo percorrendo todos os caminhos, jamais encontrarás os limites da alma, tão profundo é o seu Logos.”

“67a – Assim como a aranha, instalada no centro de sua teia, sente quando uma mosca rompe algum fio (da teia) e por isso acorre rapidamente, quase aflita pelo rompimento do fio, assim a alma do homem, ferida alguma parte do corpo, apressadamente acode, quase indignada pela lesão do corpo, ao qual está ligada firme e harmoniosamente.”

Há, como se pode ver, vários fragmentos bem se enquadrariam no que chamamos de filosofia prática. Há mais fragmentos sobre esses assuntos. Nos seguintes, por exemplo, Heráclito parece ter uma posição um tanto “subjetivista” sobre os valores e gostos:

“102 – Para Deus tudo é belo e bom e justo; os homens, contudo, julgam umas coisas injustas e outras justas.”

“9 – Os asnos prefeririam a palha ao ouro.”

“29 – Uma coisa preferem os melhores a tudo: a glória eterna às coisas perecíveis; mas a massa empanturra-se como o gado.”

“37 – Porcos banham-se na lama, pássaros no pó e na cinza.”

“49 – Um vale aos meus olhos dez mil, se é o melhor.”

“58 – (Bem e mal são a mesma coisa). Os médicos cortam, queimam, (torturam de todos os modos os doentes, exigem) um salário, ainda que nada mereçam, fazendo(lhes) um bem semelhante (à doença).”

“111 – A doença torna a saúde agradável; o mal, o bem; a fome, a saciedade; a fadiga, o repouso.”

E, também, temos os trechos de Heráclito sobre o rio e a mudança (que parecem em muitas apresentações de Heráclito, ser a única coisa que ele disse):

“12 – Para os que entram nos mesmos rios, correm outras e novas águas. Mas também almas são exaltadas do úmido.”

“49a – Descemos e não descemos nos mesmos rios; somos e não somos.”

“91 – Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Dispersa-se e reúne-se; avança e se retira.”

Gostaria de finalizar, ainda, com mais dois fragmentos que tratam do mundo e sua objetividade:

“30 – Este mundo, igual para todos, nenhum dos deuses e nenhum dos homens o fez;sempre foi, é e será um fogo eternamente vivo, acendendo-se e apagando-se conforme a medida.”

“89 – Para aqueles que estão em estado de vigília, há um mundo único e comum.”

Como se pode ver, os temas são vários. E, também podem ser várias as interpretações dadas a estes fragmentos. Como se respeita estas complexidades em uma aula?

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Todas as citações acima são do livro Os filósofos pré-socráticos organizado por Gerd A. Borheim (Editora Cultrix:São Paulo, 1993. Capítulo dedicado a Heráclito).