Curso sobre decisões imorais em instituições

Em tempos de preocupações com a corrupção nas mais variadas instituições brasileiras, divulgo este curso da Universidade de Lausanne, da Suíça, sobre decisões imorais em instituições, que iniciará no Coursera.org no dia 15 de setembro de 2015:

Unethical decision making in institutions

Course Syllabus

Broad outline of the topics covered in the seminar:

  1.  Introduction to ethical and unethical decision making
  2.  Introduction to unethical decisions in organizations
  3.  The power of frames: How people construct their reality
  4.  The power of routines
  5.  The power of strong situations
  6.  The power of institutions
  7.  The wind of change: How to fight ethical blindness

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Espaço para perguntas e discussões

Boa parte do que está publicado neste blog tem a finalidade de divulgar conteúdos de filosofia para estudantes do ensino médio e público em geral. Mas ultimamente não tenho tido tempo de preparar conteúdos desse tipo, tendo me restringido a assuntos mais ligados a minhas atividades de pesquisa atuais.

Por essa razão, gostaria de deixar aberto este espaço para que os leitores possam apresentar e discutir questões de filosofia dos mais variados tipos. Pretendo contribuir com o que estiver ao meu alcance e eventualmente fazer novas postagens específicas, se algum tema receber atenção destacada.

Sinta-se convidado a comentar esta postagem com questões de qualquer natureza relacionadas à filosofia!

“Triplo cego” — Atualizando o sistema de revisão por pares

Nesta postagem no blog Daily Nous, os editores de algumas revistas de filosofia bem avaliadas internacionalmente fornecem esclarecimentos sobre seus procedimentos editoriais e de avaliação dos manuscritos recebidos. Uma novidade que merece destaque é a ampla adoção do sistema “triplo cego” de avaliação. Nele não apenas os pareceristas e os autores não têm acesso a suas respectivas identidades, mas também os editores desconhecem a identidade dos autores até que o artigo tenha sido aceito.

Um segundo procedimento que merece destaque é o prazo recomendado para o retorno dos pareceres na Australasian Journal of Philosophy — 1 mês — e a estratégia de enviar e-mails automáticos de lembrete.

Por fim, merece destaque a observação de que, além de pouquíssimos manuscritos serem aceitos, também a maioria dos que são aceitos têm revisões recomendadas ao longo do processo. Isso indica que o processo de revisão por pares exerce um papel efetivo no aprimoramento do que é publicado.

Nesta época de preocupação com a qualidade da produção acadêmica brasileira (um exemplo aqui), é desejável que nossos editores também busquem alternativas para aprimorar a qualidade e o profissionalismo das revistas nacionais.

Algumas notas sobre a filosofia e seu ensino para 2015

Planejava escrever neste início de 2015 uma postagem para cada um dos assuntos abaixo. Mas como já estamos na metade de janeiro, decidi comentar brevemente duas reflexões sobre a prática da filosofia e seu ensino que me pareceram apropriadas para iniciar o ano:

1. Avaliações filosóficas na aula de filosofia

Se minhas experiências pessoais não estiverem muito enviesadas, penso que a prática padrão na avaliação que os professores de filosofia fazem do progresso de seus alunos (tanto no nível médio como na graduação e talvez até depois) foca-se basicamente na capacidade do aluno expressar textualmente o que leu num texto indicado pelo professor. Por essa razão, é um problema sério quando o aluno não consegue ler corretamente um texto, não consegue entendê-lo apropriadamente, ou não consegue expressar corretamente o seu entendimento do texto. Nesses slides, Desidério Murcho defende que essas capacidades textuais — ler, entender e expor o conteúdo de textos filosóficos — são apenas instrumentais para a filosofia, mas não são finais. As capacidades indicadas são apenas condições necessárias para o exercício da filosofia, mas não são elas próprias o fim a que deve almejar o aprendizado e o ensino da filosofia. Entre as capacidades finais — por si filosóficas — que se espera de um aluno estão:

  • Explicar, analisar e discutir problemas filosóficos
  • Analisar e discutir/avaliar teorias filosóficas
  • Analisar e discutir/avaliar conceitos filosóficos
  • Analisar discutir/avaliar argumentos filosóficos

2. Os métodos da filosofia

As habilidades enfocadas no item anterior dizem basicamente respeito à atividade filosófica, a fazer genuinamente filosofia. Mas como se faz filosofia, como teorias e argumentos são propostos, aprimorados ou rejeitados? Neste podcast do Elucidations, Catarina Dutilh Novaes fala sobre os métodos da filosofia. Ela apresenta três metodologias frequentemente empregadas na atividade filosófica — métodos formais, métodos empíricos e métodos históricos — e defende um pluralismo a seu respeito: não apenas os três métodos podem e devem ser empregados, mas também devem ser combinados. (Fiquei sabendo do Elucidations na lista de podcasts de filosofia elaborada pelo Pablo Rolim dos Santos).

Revistas de acesso aberto

[Terrance Tomkow] says that “if significant numbers of philosophers, starting with luminaries and full professors” publicly committed to it, “the transition to open access could happen virtually overnight.” (do post recente no Daily Nous).

Dado que quase tudo no Brasil é Open-Access, o modo como funciona o Qualis e as atuais preocupações com internacionalização, acho que um bom próximo passo por aqui poderia ser os professores brasileiros começarem a publicar mais em revistas abertas internacionais. Algumas, por exemplo, saíram da lista do Qualis (ou nem estão lá) por não terem publicações por professores, como ocorre com Theoria, Philosophers’ Imprint e a recente Ergo. O post no Daily Nous sugere ainda esta lista de revistas abertas de filosofia.

Cursos on-line em português

Vários sites internacionais oferecem cursos com professores das melhores universidades do mundo de modo inteiramente gratuito. Um desses cursos é o Coursera. Até pouco tempo, quase que todos os cursos eram ministrados em inglês. Isso promete mudar de agora em diante, com a entrada de instituições brasileiras como USP e Unicamp no projeto. Você pode ver aqui a lista de cursos ministrados em português ou ao menos com legendas em português (ou espanhol).

Entre as opções:

Bom proveito!

Como apresentar um trabalho de filosofia

Estas dicas sobre como apresentar um trabalho filosófico, escritas por Ole Kiksvik, da Universidade de Bergen, parecem muito oportunas. Entre as principais razões para se preocupar em apresentar bem um trabalho estão a) respeitar a audiência que está fazendo a gentileza de nos ouvir e b) evitar passar uma má imagem de nós mesmos como profissionais. Entre as principais sugestões estão:

  1. Não leia seu trabalho!
  2. Começar com uma apresentação do panorama geral
  3. Não querer abranger coisas demais
  4. Praticar previamente

O link original descreve cada um desses itens e alguns outros. Tomei conhecimento dessas dicas no Daily Nous. Para acessar as dicas originais automaticamente traduzidas para o português, clique aqui. (Essas dicas por Leslie Lamport também parecem úteis. Tradução automática aqui).

Monismo anômalo: Uma reconstrução e revisão da literatura

Abaixo estão o resumo e o abstract de meu artigo “Monismo anômalo: Uma reconstrução e revisão da literatura”, publicado na revista Principia e disponível na íntegra aqui.

Resumo: Este artigo reconstrói os argumentos de Donald Davidson (1970) em favor de sua teoria do monismo anômalo e revisa as principais críticas que recebeu. Essa teoria é amplamente rejeitada atualmente e, dadas as inúmeras críticas recebidas, é razoável concluir que qualquer tentativa de reabilitação tem um longo caminho pela frente. A diversidade dessas críticas sugere que não há consenso sobre por que exatamente o monismo anômalo fracassa, embora as dificuldades pareçam convergir sobre a justificação e possibilidade da tese monista, e não sobre a anomalia do mental.

Abstract: This paper reconstructs Donald Davidson’s (1970) arguments for his theory of anomalous monism, and reviews the main criticisms it received. That theory is widely rejected nowadays, and given the numerous criticisms it received, it is reasonable to conclude that any rehabilitation attempt has a long way ahead. The diversity of those criticisms suggests that there is no consensus on exactly why anomalous monism fails, although difficulties seem to concentrate on the justification and possibility of the monist thesis, and not on the thesis of mental anomalism.

Quando escrever um artigo de filosofia (e quando não)

Para os que eventualmente se desconfortam com artigos publicados que não têm tese alguma e parecem andar sem rumo algum, ou que gastam horas e horas tentando achar um rumo para o próprio texto, eis uma sugestão que parece útil:

Para escrever um artigo, você deve estar preparado para defender uma tese. Se você não pode enunciar a tese da sua dissertação em uma única frase declarativa, você não está pronto para escrever. Não cometa o erro de pensar que começando a escrever, sua tese se tornará clara eventualmente. Aí está o desastre. Você precisa ser capaz de iniciar seu artigo com a frase, “Neste artigo, defenderei a tese de que p”. Você deveria então ser capaz de concluir seu artigo com essa frase: “Assim, vemos que p”. (Adaptado do artigo de Robert Paul Wolff)

(Sobre o que fazer até chegar lá, o método Mumford é uma ótima pedida. Mais aqui.)

Quais são os seus problemas?

Aqui estão algumas ideias sobre a pesquisa nas ciências que parecem se aplicar bem também à pesquisa em filosofia:

“A maioria dos grandes cientistas conhecem muitos problemas importantes. Eles têm algo entre 10 e 20 problemas importantes para os quais estão procurando um ataque. E quando veem surgir uma ideia nova, ouve-se dizerem: ‘Bem, isso diz respeito a este problema’. Eles largam todas as outras coisas e debruçam-se sobre ele” (Richard Hamming, “You and your research“, [1]).

“O estudo dos fundamentos e limitações da computação, que levou à invenção dos computadores eletrônicos, desenvolveu-se em resposta a um conjunto de problemas matemáticos aparentemente abstratos (e obscuros). Esses problemas foram propostos no ano de 1900 no Congresso Internacional de Matemáticos em Paris, pelo matemático alemão David Hilbert. A palestra de Hilbert no congresso estabeleceu uma lista de resoluções para o novo século na forma de 23 dos mais importantes problemas sem solução na matemática” (Melanie Mitchell, Complexity: A guided tour, 57-58 [2]).

Se quisermos aplicar isso à pesquisa em filosofia, então deveríamos nos perguntar: “Quais são os meus problemas?”

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Originais:

[1] “Most great scientists know many important problems. They have something between 10 and 20 important problems for which they are looking for an attack. And when they see a new idea come up, one hears them say “Well that bears on this problem.” They drop all the other things and get after it.” (Richard Hamming, “You and your research“).

[2] “The study of the foundations and limitations of computation, which led to the invention of electronic computers, was developed in response to a set of seemingly abstract (and abstruse) math problems. These problems were posed in the year 1900 at the International Congress of Mathematicians in Paris by the German mathematician David Hilbert.
Hilbert’s lecture at this congress set out a list of mathematical New Year’s resolutions for the new century in the form of twenty-three of the most important unsolved problems in mathematics.” (Melanie Mitchell, Complexity: A guided tour, 57-58).